ASSINE VEJA NEGÓCIOS
Imagem Blog

Diogo Schelp

Por Diogo Schelp Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Notícias e análises sobre economia política internacional e comércio exterior

Canadá corre contra tarifas dos EUA: as lições para o Brasil

Sob ameaça de tarifa de 50%, estratégia canadense é não baixar a guarda mas manter as negociações fluindo, evitando provocações políticas

Por Diogo Schelp Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 ago 2026, 15h43 | Atualizado em 19 ago 2026, 15h38
Canadá corre contra tarifas dos EUA: as lições para o Brasil Priorizar nos meus resultados Google

O governo do Canadá corre contra o tempo para evitar que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cumpra sua promessa de impor uma tarifa de 50% sobre uma ampla lista de produtos canadenses — de cimento a tacos de hóquei, passando por eletrônicos, móveis, laticínios e vinho. O prazo definido pelo governo americano há um mês já venceu (a previsão do início das tarifas era de zero hora de quarta-feira, 19), mas Trump o adiou em três dias.

O primeiro-ministro canadense Mark Carney telefonou a Trump para uma última rodada de conversas antes do prazo se esgotar. Horas depois, na noite de terça-feira, 18, o presidente americano anunciou o adiamento da entrada em vigor do tarifaço, afirmando que havia chegado a um acordo com os canadenses. Carney, no entanto, foi cauteloso, afirmando que ainda havia muito trabalho a fazer.

A ameaça do tarifaço sobre o Canadá foi feita em julho com a assinatura de três proclamações com base na Seção 338 da Lei Tarifária de 1930, em que os Estados Unidos alegam que o Canadá comete práticas comerciais desiguais contra carros, laticínios e bebidas alcoólicas dos Estados Unidos.

As novas tarifas afetam cerca de 20 bilhões de dólares em exportações canadenses — o equivalente a aproximadamente 5% de tudo que o Canadá vende aos americanos — e, diferentemente de rodadas anteriores, não preveem exceção para produtos que cumprem as regras do acordo de livre comércio Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês). Isso é particularmente grave porque o pacto vigente entre os três países havia, até agora, protegido boa parte da indústria canadense de tarifas mais amplas impostas por Trump a outros países desde o tarifaço de abril do ano passado.

Entre os pontos mais sensíveis da negociação está a tarifa de 25% sobre veículos automotores canadenses, aplicada sob a Seção 232 por motivos de segurança nacional. As duas equipes técnicas discutem reduzir essa alíquota para 15%, com cortes adicionais proporcionais ao conteúdo americano incorporado em cada veículo — um mecanismo que recompensaria a integração das cadeias produtivas dos dois países em vez de puni-la.

Continua após a publicidade

A estratégia canadense

O que chama atenção na estratégia para conter os planos protecionistas de Trump não é um gesto único e espetacular, mas a manutenção de um canal de negociação praticamente ininterrupto. Carney disse, em 21 de julho, que os dois líderes concordaram em “intensificar e acelerar” as negociações logo depois do anúncio da tarifa de 50%, numa reação que privilegiou o diálogo técnico sobre a retórica de confronto.

Em conversa com os treze primeiros-ministros provinciais, em 24 de julho, Carney afirmou que “tudo está na mesa, dependendo do resultado das negociações” — incluindo retaliação —, mas evitou detalhar represálias, chamando isso de “contraproducente” enquanto as tratativas seguem em curso.

Essa combinação — pressão pública comedida, ameaça de retaliação mantida em reserva e reuniões quase diárias em nível técnico e ministerial — é o núcleo da tática canadense. Em 5 de agosto, Carney reforçou que o tom do Canadá já era “bastante firme”, mas insistiu que não era hora de mudar de estratégia, mesmo sob pressão para endurecer o discurso. A lógica é a seguinte: transformar o prazo apertado em instrumento de barganha, e não apenas em ameaça a ser sofrida passivamente.

Continua após a publicidade

As conversas comerciais entre Estados Unidos e Canadá, como outras que a gestão Trump tem mantido com outros países, estão longe de ser mornas. As negociações entre os dois países chegaram a ser suspensas em outubro de 2025, depois de uma campanha publicitária anti-tarifas do governo de Ontário que irritou Trump, e só foram retomadas em março de 2026, quando o negociador-chefe canadense, Dominic LeBlanc, viajou a Washington para se reunir com o representante de comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Mesmo com o diálogo restabelecido, tarifas específicas sobre aço, alumínio e automóveis canadenses permaneceram em vigor.

Carney foi confirmado no cargo de premiê canadense em abril de 2025, em uma campanha fortemente marcada pela figura de Trump, pelas tarifas e pela defesa da soberania canadense. Ele prometeu fazer frente às pressões americanas — usando a metáfora de manter os “cotovelos elevados” — e declarou que o Canadá negociaria “em nossos termos”. Ao mesmo tempo, defendeu uma negociação comercial ampla.

As lições para o Brasil

Assim como o Canadá, o Brasil enfrenta desde julho de 2025 uma sequência de tarifas americanas que oscilou entre 10% e 50%, dependendo do instrumento legal usado por Washington e de decisões da Suprema Corte americana, que invalidou parte das medidas baseadas na Lei de Poderes Econômicos de Emergência (IEEPA) em fevereiro deste ano.

Continua após a publicidade

No mês passado, o governo americano aplicou uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros após concluir uma investigação que aponta práticas comerciais supostamente “irrazoáveis” do Brasil — decisão que afeta cerca de 18% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, ou 7,4 bilhões de dólares, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

A primeira lição da experiência canadense é a persistência do canal de comunicação em todos os níveis, mesmo em meio a crises políticas. O Brasil, é verdade, também mantém a mesa de negociação aberta — e o Itamaraty e outros órgãos do governo já realizaram mais de trinta reuniões com autoridades americanas desde 2025.

Mas o tom oficial brasileiro tem oscilado entre indignação pública e disposição ao diálogo, uma combinação que pode enviar sinais contraditórios a Washington, enquanto o Canadá optou por reduzir a retórica combativa nos momentos mais sensíveis da negociação, guardando as ameaças de retaliação para bastidores.

Continua após a publicidade

A segunda lição é a técnica: o Canadá conseguiu colocar na mesa um mecanismo objetivo — a proposta de reduzir tarifas automotivas proporcionalmente ao conteúdo americano em cada veículo — que transforma a disputa política em um cálculo comercial mensurável.

O Brasil, por sua vez, tem enfrentado dificuldade em encontrar pontos de negociação equivalentes, já que grande parte das queixas americanas envolve temas políticos e regulatórios de difícil equacionamento técnico, como as insatisfações americanas com decisões do Supremo Tribunal Federal, misturadas a demandas comerciais sobre etanol e sistemas de pagamento como o Pix.

A terceira lição é a mais dura: mesmo um parceiro comercial tão próximo e integrado aos Estados Unidos quanto o Canadá — com um comércio bilateral de bens e serviços de mais de 1,3 trilhão de dólares por ano — não está imune a prazos de última hora e à imprevisibilidade das decisões de Trump.

Continua após a publicidade

Se o Canadá, com décadas de acordos de livre comércio e cadeias produtivas profundamente entrelaçadas com as americanas, ainda corre contra o relógio horas antes de um tarifaço entrar em vigor, o Brasil — que carrega, além de disputas comerciais, atritos políticos que vêm sendo usados eleitoralmente pelo presidente Lula — tem diante de si um desafio ainda maior.

(Esse texto foi atualizado para contemplar a informação sobre o adiamento da entrada em vigor das tarifas.)

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em amarelo e branco: O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos. Ao lado, um ícone de árvore verde-claraMão segurando um smartphone com tela exibindo um aplicativo de notícias e produtos. À esquerda, texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua. Fundo verde escuro com ícone de árvore à direita
ECONOMIZE ATÉ 87% OFF

Digital Essencial

O mercado não espera — e você também não pode!
Com a Veja Negócios Digital, você tem acesso imediato às tendências, análises, estratégias e bastidores que movem a economia e os grandes negócios.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Veja Negócios impressa todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Premium
De: R$ 29,99/mês
A partir de R$ 9,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).