Canadá corre contra tarifas dos EUA: as lições para o Brasil
Sob ameaça de tarifa de 50%, estratégia canadense é não baixar a guarda mas manter as negociações fluindo, evitando provocações políticas
O governo do Canadá corre contra o tempo para evitar que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cumpra sua promessa de impor uma tarifa de 50% sobre uma ampla lista de produtos canadenses — de cimento a tacos de hóquei, passando por eletrônicos, móveis, laticínios e vinho. O prazo definido pelo governo americano há um mês já venceu (a previsão do início das tarifas era de zero hora de quarta-feira, 19), mas Trump o adiou em três dias.
O primeiro-ministro canadense Mark Carney telefonou a Trump para uma última rodada de conversas antes do prazo se esgotar. Horas depois, na noite de terça-feira, 18, o presidente americano anunciou o adiamento da entrada em vigor do tarifaço, afirmando que havia chegado a um acordo com os canadenses. Carney, no entanto, foi cauteloso, afirmando que ainda havia muito trabalho a fazer.
A ameaça do tarifaço sobre o Canadá foi feita em julho com a assinatura de três proclamações com base na Seção 338 da Lei Tarifária de 1930, em que os Estados Unidos alegam que o Canadá comete práticas comerciais desiguais contra carros, laticínios e bebidas alcoólicas dos Estados Unidos.
As novas tarifas afetam cerca de 20 bilhões de dólares em exportações canadenses — o equivalente a aproximadamente 5% de tudo que o Canadá vende aos americanos — e, diferentemente de rodadas anteriores, não preveem exceção para produtos que cumprem as regras do acordo de livre comércio Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês). Isso é particularmente grave porque o pacto vigente entre os três países havia, até agora, protegido boa parte da indústria canadense de tarifas mais amplas impostas por Trump a outros países desde o tarifaço de abril do ano passado.
Entre os pontos mais sensíveis da negociação está a tarifa de 25% sobre veículos automotores canadenses, aplicada sob a Seção 232 por motivos de segurança nacional. As duas equipes técnicas discutem reduzir essa alíquota para 15%, com cortes adicionais proporcionais ao conteúdo americano incorporado em cada veículo — um mecanismo que recompensaria a integração das cadeias produtivas dos dois países em vez de puni-la.
A estratégia canadense
O que chama atenção na estratégia para conter os planos protecionistas de Trump não é um gesto único e espetacular, mas a manutenção de um canal de negociação praticamente ininterrupto. Carney disse, em 21 de julho, que os dois líderes concordaram em “intensificar e acelerar” as negociações logo depois do anúncio da tarifa de 50%, numa reação que privilegiou o diálogo técnico sobre a retórica de confronto.
Em conversa com os treze primeiros-ministros provinciais, em 24 de julho, Carney afirmou que “tudo está na mesa, dependendo do resultado das negociações” — incluindo retaliação —, mas evitou detalhar represálias, chamando isso de “contraproducente” enquanto as tratativas seguem em curso.
Essa combinação — pressão pública comedida, ameaça de retaliação mantida em reserva e reuniões quase diárias em nível técnico e ministerial — é o núcleo da tática canadense. Em 5 de agosto, Carney reforçou que o tom do Canadá já era “bastante firme”, mas insistiu que não era hora de mudar de estratégia, mesmo sob pressão para endurecer o discurso. A lógica é a seguinte: transformar o prazo apertado em instrumento de barganha, e não apenas em ameaça a ser sofrida passivamente.
As conversas comerciais entre Estados Unidos e Canadá, como outras que a gestão Trump tem mantido com outros países, estão longe de ser mornas. As negociações entre os dois países chegaram a ser suspensas em outubro de 2025, depois de uma campanha publicitária anti-tarifas do governo de Ontário que irritou Trump, e só foram retomadas em março de 2026, quando o negociador-chefe canadense, Dominic LeBlanc, viajou a Washington para se reunir com o representante de comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Mesmo com o diálogo restabelecido, tarifas específicas sobre aço, alumínio e automóveis canadenses permaneceram em vigor.
Carney foi confirmado no cargo de premiê canadense em abril de 2025, em uma campanha fortemente marcada pela figura de Trump, pelas tarifas e pela defesa da soberania canadense. Ele prometeu fazer frente às pressões americanas — usando a metáfora de manter os “cotovelos elevados” — e declarou que o Canadá negociaria “em nossos termos”. Ao mesmo tempo, defendeu uma negociação comercial ampla.
As lições para o Brasil
Assim como o Canadá, o Brasil enfrenta desde julho de 2025 uma sequência de tarifas americanas que oscilou entre 10% e 50%, dependendo do instrumento legal usado por Washington e de decisões da Suprema Corte americana, que invalidou parte das medidas baseadas na Lei de Poderes Econômicos de Emergência (IEEPA) em fevereiro deste ano.
No mês passado, o governo americano aplicou uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros após concluir uma investigação que aponta práticas comerciais supostamente “irrazoáveis” do Brasil — decisão que afeta cerca de 18% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, ou 7,4 bilhões de dólares, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.
A primeira lição da experiência canadense é a persistência do canal de comunicação em todos os níveis, mesmo em meio a crises políticas. O Brasil, é verdade, também mantém a mesa de negociação aberta — e o Itamaraty e outros órgãos do governo já realizaram mais de trinta reuniões com autoridades americanas desde 2025.
Mas o tom oficial brasileiro tem oscilado entre indignação pública e disposição ao diálogo, uma combinação que pode enviar sinais contraditórios a Washington, enquanto o Canadá optou por reduzir a retórica combativa nos momentos mais sensíveis da negociação, guardando as ameaças de retaliação para bastidores.
A segunda lição é a técnica: o Canadá conseguiu colocar na mesa um mecanismo objetivo — a proposta de reduzir tarifas automotivas proporcionalmente ao conteúdo americano em cada veículo — que transforma a disputa política em um cálculo comercial mensurável.
O Brasil, por sua vez, tem enfrentado dificuldade em encontrar pontos de negociação equivalentes, já que grande parte das queixas americanas envolve temas políticos e regulatórios de difícil equacionamento técnico, como as insatisfações americanas com decisões do Supremo Tribunal Federal, misturadas a demandas comerciais sobre etanol e sistemas de pagamento como o Pix.
A terceira lição é a mais dura: mesmo um parceiro comercial tão próximo e integrado aos Estados Unidos quanto o Canadá — com um comércio bilateral de bens e serviços de mais de 1,3 trilhão de dólares por ano — não está imune a prazos de última hora e à imprevisibilidade das decisões de Trump.
Se o Canadá, com décadas de acordos de livre comércio e cadeias produtivas profundamente entrelaçadas com as americanas, ainda corre contra o relógio horas antes de um tarifaço entrar em vigor, o Brasil — que carrega, além de disputas comerciais, atritos políticos que vêm sendo usados eleitoralmente pelo presidente Lula — tem diante de si um desafio ainda maior.
(Esse texto foi atualizado para contemplar a informação sobre o adiamento da entrada em vigor das tarifas.)







