Regime matou a infância e parte do futuro, diz autora exilada da Venezuela
Arianna de Sousa-García lega um testemunho das dores da diáspora venezuelana em livro dedicado ao filho - e fala do que espera com a queda de Maduro
Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, em uma operação cinematográfica ordenada por Donald Trump, forças americanas invadiram a Venezuela e capturaram seu presidente Nicolás Maduro. A mais de 7 000 km de distância, no Chile, a jornalista e escritora exilada Arianna de Sousa-García acordou com a notícia transmitida por um primo de Caracas em um telefonema à sua mãe. “Estamos livres”, ele gritava. A autora pensou que fosse brincadeira, e foi atrás da confirmação na TV e no celular. Então ela abraçou a família, pulou ao lado da irmã, chorou de alívio. “Senti um vislumbre de justiça, uma esperança de que poderia ser o começo do fim”.
O fim de um regime que nasceu com o apoio e os sonhos de um povo e se transformou numa ditadura muitas vezes brutal. Ditadura que isolou o país e o corroeu com a perda da liberdade, a violência e a pobreza. É a Venezuela que encontramos em Atrás Fica a Terra, o testemunho potente, preciso e dilacerante de Sousa-García recém-publicado no Brasil pela Editora Pinard com a tradução de Wesley Santos Rocha.
O livro é dedicado a seu filho, mas toca em milhões de vidas feridas, em maior ou menor grau, pelo colapso social de uma nação rica em (e cobiçada por) reservas de petróleo. Sousa-García deixou uma Venezuela sofrida e perigosa para dar um futuro ao filho – destino que compartilha com mais de 5 milhões de compatriotas, segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur). Sacrificou o trabalho como jornalista e o apego à família e à terra natal para salvar sua maior preciosidade.
Combinando destreza jornalística com uma pungência (e urgência) poética, a autora nos coloca dentro da crônica de uma ruína anunciada, de um país que viu suas utopias serem frustradas e traídas – sobretudo entre a geração de seus pais -, de uma terra em que crianças chegaram a revirar lixo atrás do que comer.
Na carta literária ao filho, ela denuncia “sabendo que nada vai acontecer, absolutamente nada no momento, mas esperando que fique um registro para a história, que vocês saibam, saibam da boca de seus pais”. Eles saberão. Nós também. E agora Maduro caiu.
Em entrevista exclusiva a VEJA, essa voz da diáspora venezuelana fala sobre as dores e as expectativas de quem saiu do país e um dia sonha em regressar até lá ao lado do filho. Com a palavra, Arianna de Sousa-García.
O que mais dói no exílio? Hoje, tantos anos depois de ter partido, sei que essa dor continua mudando, se movendo. Ela diminui e depois aumenta novamente. Ela se transforma, passa por mutação, se arrasta. Digo se arrasta porque eu a sofro como uma doença. Agora não conseguiria escolher uma coisa só; dói ter uma sensação semelhante à certeza de que minha vida está lá fora e não aqui dentro, que lá não me resta nada além da paisagem e de alguns entes queridos — talvez isso possa ser descrito como uma premonição de solidão. Também dói não estar lá, lutando pela mudança que desejo, porque preciso estar aqui, assumindo minha responsabilidade como mãe, cumprindo a promessa de dar ao meu filho a melhor vida possível, protegê-lo da fome, da violência e da pobreza. No fim das contas, dói não estar inteiramente aqui ou lá, mas em um terceiro lugar que é muito difícil de descrever.
Você deixou a Venezuela para dar um futuro ao filho e escreveu este livro para ele. As palavras escritas podem ajudar a salvar o presente e o futuro? O livro é dedicado a ele. Em seu processo de escrita, nasceu para ele e para as crianças da diáspora venezuelana. Mas, na intenção, é também para todas as crianças migrantes. E, em termos de experiência de leitura, é, em última análise, para o leitor, que se torna esse “você” ao ler. Gosto de pensar no livro como um dispositivo que propõe uma conversa muito difícil de se ter, porque o tempo da infância e o tempo da vida adulta raramente coincidem. Não sei se as palavras podem salvar o presente, talvez o futuro. Torço para que sim.
Contudo, ao longo desse tempo, muita gente não pôde ser salva, não? Gostaria que as palavras tivessem salvado tantos dos meus compatriotas que morreram pelo caminho — crianças, adultos, idosos. Penso também em Reinaldo Arenas, Cesare Pavese e Maiakovski; penso em Stefan Zweig, Primo Levi, Virginia Woolf, Miyo Vestrini, Martha Kornblith. Não sei se as palavras têm o poder de nos salvar, mas sei que elas oferecem pelo menos uma forma de estar no mundo, uma companhia incomparável, que sempre traz boas perguntas e às vezes pode nos ajudar a esboçar respostas, e isso é algo muito maior do que a maioria das coisas neste mundo pode oferecer. Acredito na escrita como um espaço próprio e uma possibilidade, e acredito que somente o amor da família e dos amigos pode nos ajudar a sustentar o presente.
Seu livro fala de muitas crianças que foram vítimas diretas e indiretas do regime venezuelano. Esse é o aspecto mais terrível do governo iniciado por Chávez e perpetuado por Maduro até sua queda? Há inúmeros aspectos terríveis do regime. Penso na máquina de tortura em que transformaram o país, ou em como romperam para sempre nossa relação com a comida, como transformaram a comida em algo pelo qual as pessoas matam e morrem. Mas, aos meus olhos, foi a infância que sofreu as piores feridas – foi o futuro, um futuro após o outro, milhões de futuros, em última análise, o que acabou sendo mais afetado. Não só a minha geração, mas também as gerações mais jovens que nem sequer tiveram a oportunidade de concluir um curso universitário, ou as mais novas que nem sequer podiam pensar no que queriam ser, ou as crianças que tiveram de ficar sozinhas no país ou vaguear pelo continente sem companhia a não ser elas próprias, ou aquelas que nem sequer tiveram a oportunidade de viver. Penso que o regime em que se transformou a revolução bolivariana matou a infância e, com ela, grande parte do nosso futuro, mas não todo. Muitos de nós ainda estamos aqui pensando em nosso país e falando dele aos nossos filhos.
Qual foi a sua reação ao saber da captura de Maduro pelos Estados Unidos? Acredita que a Venezuela terá um futuro melhor daqui para a frente? Tive uma sorte incrível de estar rodeada pela minha família naquele momento. Por acaso, quase por acidente, decidimos passar a noite juntos, no mesmo lugar, na mesma casa. Descobrimos porque um primo muito jovem, que eu não conheço, ligou para a minha mãe. Ele vive em Caracas e nos ligou da rua. Eu acordei com seu alívio, com a sua esperança. Ele gritava: “Estamos livres”. E repetia: “Agora vou poder vê-los, tia”. Não conseguia acreditar; pensei que fosse brincadeira. Tinha sido tão difícil para nós acabar com a ditadura que eu não conseguia acreditar. Liguei a TV em busca de informações, busquei no celular, liguei para amigos a fim de entender o que tinha acontecido. O que senti foi o suficiente para me fazer abraçar a família, pular silenciosamente com minha irmã, respirar fundo, chorar de alívio, sentir um vislumbre de justiça, uma esperança nascente de que poderia ser o começo do fim.
As chamas da esperança foram reacesas, então? Foi lindo ver meus compatriotas se abraçando, gritando “Liberdade” nas ruas de Santiago, mas eu sabia que não seria fácil nem rápido, e temia pelo que não era dito, pelo que não podíamos ver de fora, pelos civis mortos e feridos, por suas famílias, por seus filhos, por seus lares. Foi um sentimento agridoce. Acho que ainda temos um longo caminho a percorrer para alcançar a liberdade, e acho que a maioria de nós sabe disso, mas certamente é um alívio que Nicolás Maduro esteja na prisão e sendo julgado por uma pequena fração de todos os crimes que cometeu. Acredito em um futuro melhor para a Venezuela, e trabalho por isso todos os dias de onde estou. É algo que nenhuma bomba, nenhum lunático de uniforme laranja, nenhum bigode, nenhum Serviço Bolivariano de Inteligência, nenhum fantoche do momento, hoje ou jamais, poderá me tirar.
Seu livro também aborda, em certos momentos, o ódio contra estrangeiros, inclusive entre latino-americanos. Apesar de alguns gestos de solidariedade, estamos condenados a rejeitar aqueles que vêm de fora? Não acredito nisso. É uma mentira que estejamos condenados a algo tão horrível e absurdo. No exílio, foi a amizade dos meus irmãos e irmãs latino-americanos que me sustentou. Tenho três círculos, todos muito especiais: o primeiro é formado pelos meus compatriotas, o segundo por mulheres negras da República Dominicana, Haiti, Brasil, Colômbia, Cuba e Venezuela, e o terceiro por um grupo de amigos chilenos. Acredito firmemente que não estamos condenados a rejeitar o outro, que isso não tem nada a ver com a nossa natureza, que rejeitar o outro é sintoma do profundo individualismo em que vivemos hoje, de uma longa solidão, de um capitalismo que não é mais apenas material, mas também emocional. Acredito que seja uma doença e, como qualquer doença, tem cura.
Você sonha em voltar para a Venezuela com seu filho? Que tipo de país espera encontrar? Com certeza. Sonho com isso à noite e também sonho acordada. Durante boa parte do meu dia, sonho em voltar para a Venezuela com meu filho, mesmo que seja só uma vez, pelo menos algum dia. Sei que a maior parte da minha família está no exterior, os amigos que eu tinha também. Sei que posso me sentir muito sozinha no meu próprio país; já tive pesadelos com isso. Mas sonho em ir, morro de vontade de ir. Sonho com o clichê de chegar e beijar o solo do meu país, comer sua terra, só que não sei se um dia conseguirei fazer isso. Quero levar meu filho, quero que ele veja as cores, prove os sabores, conheça as pessoas maravilhosas do seu país. Aceito tudo o que ele quiser me dar – e também aceito se quiser me criticar.
Em tempo: depois da entrevista, pensando em sua última resposta para este espaço, Arianna de Sousa-García nos conta que colocou seu Spotify para tocar no modo aleatório enquanto tomava banho. De lá saiu a música A Mi Ciudad, do grupo chileno Santiago del Nuevo Extremo. “Acho que minha última resposta tem a ver com isso: com a certeza de que fazemos falta lá e que é melhor se um dia todos formos…”







