O pensador de quase 2 mil anos que veio nos prestar socorro
É Marco Aurélio, o imperador e filósofo romano que protagoniza novo livro do francês Frédéric Lenoir. A VEJA, ele explica o poder de suas 'Meditações'
Poucos pensadores dialogam tanto com as demandas psíquicas e espirituais dos nossos tempos como um homem que nasceu há quase dois milênios e deixou um diário pessoal com reflexões e máximas para lidar com os desafios impostos pela vida.
Marco Aurélio (121-180 d.C.), um dos principais nomes da escola estoica, continua atraindo leitores e seguidores não só por tocar nas feridas atemporais da existência e fornecer certo bálsamo a elas como também por ser prático e assertivo. Suas Meditações caem como uma luva a quem procura uma bússola existencial, mas, acostumado à dinâmica acelerada das redes sociais, não se vê com tempo e paciência para encarar calhamaços e conceitos pesados.
“O pensamento estoico permite que indivíduos que se afastaram da religião e não se identificam com o materialismo consumista se nutram de uma forma de pensar que é ao mesmo tempo racional e espiritual, dando sentido à vida e oferecendo um guia na busca pela paz interior”, diz o filósofo francês Frédéric Lenoir, autor de uma oportuna obra que sintetiza a biografia, o legado e a atualidade dos escritos do líder e pensador romano.
Em Marco Aurélio e o Estoicismo (Editora Objetiva), o professor, que já havia nos brindado com um livro para compreender outro luminar, Baruch Spinoza, mostra como um governante que encarou pestes, guerras e a morte dos filhos conversou consigo mesmo para encontrar propósito e harmonia em um mundo por vezes tão adverso – conversa esta que, registrada, virou as Meditações que chegaram até nós e, provavelmente, sempre terão um leitor à procura de orientação e sabedoria.
Com a palavra, Frédéric Lenoir.
A que o senhor atribui o ressurgimento do interesse pelo pensamento estoico? Vivemos tempos conturbados e sem referências. O pensamento estoico permite que indivíduos que se afastaram da religião e não se identificam com o materialismo consumista se nutram de uma forma de pensar que é ao mesmo tempo racional e espiritual, dando sentido à vida e um guia na busca pela paz interior. Os estoicos afirmam que tudo tem um significado, que o acaso não existe, que todos temos um destino e que o mundo é ordenado por uma Razão universal (o Logos), que é boa. Isso ecoa diversos princípios das religiões monoteístas (um Deus bom, providência, destino), mas talvez seja percebido como mais racional e menos dogmático, já que se baseia na observação da harmonia do cosmos e o “Deus” estoico é inteiramente imanente ao mundo (semelhante ao Deus de Spinoza). Além disso, os estoicos demonstram que nossa felicidade depende menos de eventos externos do que de como os percebemos, e explicam isso por meio de máximas simples e eficazes.
Qual é a principal mensagem de Marco Aurélio para nossa era conturbada e dominada pelos meios digitais? Marco Aurélio disse: “Viva cada dia como se fosse o último”. Esta é uma forma de nos encorajar a estarmos presentes no que fazemos e a nos concentrarmos no essencial. Se aplicássemos esse preceito, não estaríamos tentando ser multitarefas nem desperdiçando tanto tempo em frente às telas, mas dedicaríamos mais tempo a nos conectar com as pessoas que amamos, contemplar a natureza e nos envolver em atividades significativas que nos trazem alegria. Isso pode levar algumas pessoas a mudarem suas vidas, carreiras, e assim por diante.
Mas os preceitos de Marco Aurélio também são compartilhados nas redes sociais. O senhor se preocupa com a simplificação ou a má interpretação do pensamento do filósofo? Não, porque podemos colocar em prática preceitos muito simples que nos ajudam a viver melhor, sem necessariamente compreender toda a coerência do sistema estoico. Muitas vezes ouvi pessoas dizerem qual máxima específica as ajudou a superar o luto ou um evento difícil da vida.
Existe alguma passagem de Meditações que o senhor faz questão de recomendar ao mundo? “Hoje, renunciei a todo constrangimento, pois ele não estava fora de mim, mas dentro de mim, em meus pensamentos” (Meditações, 9, 13). Essa frase resume a essência da filosofia prática estoica, que afirma que a felicidade e a infelicidade residem dentro de nós, nas opiniões que temos sobre as coisas, e não em circunstâncias externas. O mesmo revés ou provação pode atingir duas pessoas: uma pode sucumbir e a outra pode crescer com essa dificuldade. Em outras palavras, cada pessoa carrega o mundo em sua própria perspectiva. Esta é uma chave crucial para a compreensão que ajuda a superar muitos obstáculos.







