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Mundo corporativo é mais difícil do que o esportivo, analisa psicóloga

Especialista em performance, Aline Wolff usa suas experiências junto a atletas olímpicos para orientar como se chega ao pódio na carreira sem adoecer

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 4 Maio 2026, 16h02 | Atualizado em 4 Maio 2026, 16h05
Mundo corporativo é mais difícil do que o esportivo, analisa psicóloga Priorizar nos meus resultados Google

Entre o corredor olímpico e os corredores das empresas existem mais semelhanças do que se julga em um primeiro olhar. Tanto atletas profissionais como funcionários e executivos perseguem metas – e, sob pressão, podem adoecer pelo caminho.

Aline Wolff conhece bem esses dois universos que compartilham premissas, aspirações e desafios. Especialista na área esportiva, a psicóloga acompanhou os integrantes do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), entre eles medalhistas como a ginasta Rebeca Andrade, e hoje busca levar seus insights e aprendizados sobre alto desempenho para outros campos, sobretudo o corporativo.

O resultado dessa ponte construída à base de estudos e experiências está no livro Alta Performance Sustentável, recém-publicado pela editora Planeta. Para a psicóloga, muitos de nós vivemos em uma espécie de gangorra, que opõe o sucesso profissional ao bem-estar mental – um ambiente propício para quedas na forma de estresse, ansiedade e burnout. 

Alta performance sustentável

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Escapar dessa falsa dicotomia, portanto, é um dos primeiros passos que ela orienta para alcançar uma performance digna de medalha – e que pode ser sustentada. E existem outros, como o estabelecimento de valores capazes de conferir propósito, resiliência e felicidade durante a jornada.

Um assunto que só se esquenta com a implementação da NR-1, a Norma Regulamentadora nº 1, que, a partir deste mês, torna obrigatória a gestão de riscos psicossociais nas empresas.

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Com a palavra, Aline Wolff.

O que aprendeu ao trabalhar junto ao COB e a atletas de ponta como Rebeca Andrade? A convivência com atletas de altíssimo rendimento ensina muito sobre o que realmente sustenta uma grande performance. Do lado de fora, as pessoas enxergam a medalha, o pódio, o resultado e muitas vezes colocam o atleta em um lugar sobre-humano. Mas o que sustenta aquele momento é uma construção longa, feita de repetição, frustração, pequenas conquistas, erros, acertos e recomeços e, principalmente, de capacidade emocional para continuar. Talvez o maior aprendizado tenha sido perceber que o talento leva o atleta até certo ponto, a disciplina leva um pouco além, mas o que sustenta uma trajetória é a mente, e uma mente saudável, que recebe atenção e cuidados, é o que torna o atleta mais forte.

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Isso vale para outras profissões também, certo? O esporte deixa muito evidente uma coisa que vale para a vida: resultado não se constrói apenas quando estamos bem, motivados e confiantes. Resultado se constrói, principalmente, naqueles dias em que a pessoa está cansada, insegura, frustrada e mesmo assim encontra uma maneira de seguir para buscar seu desejo. E, para continuar nesses dias, ela precisa estar emocionalmente estruturada.

Onde é mais difícil atuar como psicóloga hoje: no mundo esportivo ou no corporativo? Hoje, eu diria que é mais difícil no mundo corporativo. No esporte, existe uma relação muito clara entre mente e resultado. O atleta sabe que, se não estiver bem emocionalmente, ele não performa. Ele perde, ele erra, ele não atinge o tempo, ele não acerta a série. A consequência é objetiva e imediata. Então existe uma abertura maior para esse trabalho. No mundo corporativo, ainda existe muita confusão. As empresas começaram a falar de saúde mental, o que é importante, mas muitas vezes ainda tratam isso como algo à parte do trabalho. Como se saúde mental fosse um benefício, uma palestra, um aplicativo, uma terapia oferecida… Mas a saúde mental está dentro do trabalho. Está na fundação, não pode ser tratada como perfumaria.

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Por que vivemos tão reféns dessa gangorra entre performance e saúde mental? A gangorra é uma imagem para explicar uma confusão que se tornou muito comum. Como se saúde mental e performance fossem coisas opostas. Esse pensamento cria uma vida em ciclos. A pessoa vai muito bem, trabalha demais, entrega demais, se esgota, adoece. Aí ela para, se recupera, volta. Depois se esgota de novo. Ela vive entre picos de performance e quedas de exaustão. Isso não é alta performance, é uma montanha-russa emocional e profissional. O que eu proponho no livro é uma mudança de lógica. A saúde mental não pode estar em um dos lados da gangorra. Ela precisa ser a base.

Você elege alguns pilares indissociáveis de uma alta performance sustentável. Qual estaria mais fragilizado entre as pessoas hoje? Eu acredito que seja a autoliderança. Hoje as pessoas têm muita informação, muitos estímulos, muitas referências, muitas possibilidades. Mas, ao mesmo tempo, têm pouca clareza sobre quem são, o que querem e por que estão fazendo o que estão fazendo. Sem autoliderança, a pessoa vive reagindo. Reage ao que o mercado pede, ao que a empresa pede, ao que as redes sociais mostram, ao que os outros estão fazendo. E uma vida baseada apenas em reação cansa muito, porque a pessoa nunca sente que está conduzindo a própria vida, apenas respondendo ao mundo. Autoliderança tem a ver com responsabilidade, com fazer escolhas, com sustentar escolhas difíceis, com abrir mão de algumas coisas para construir outras. E isso exige maturidade emocional e paciência. Talvez por isso seja um dos pilares mais frágeis hoje.

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Acredita que, com a chegada da NR-1, o cuidado com a saúde mental no trabalho realmente vá sair da teoria e virar uma prática? A NR-1 é um movimento importante porque, pela primeira vez, a saúde mental entra de forma mais clara como responsabilidade também das organizações. Isso muda a conversa, porque deixa de ser apenas uma questão individual e passa a ser também uma questão de ambiente, de gestão e de cultura. Mas lei nenhuma muda a realidade sozinha. O que muda a realidade é a forma como as empresas vão interpretar e aplicar isso. Se a saúde mental continuar sendo tratada como um benefício, como algo que a empresa oferece quando a pessoa já está mal, pouca coisa muda. A mudança verdadeira não é jurídica, é cultural.

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