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‘Ela conversa com os gregos como se fossem contemporâneos nossos’

Candidata ao Nobel, a canadense Anne Carson ganha novo livro no Brasil. A escritora e tradutora Adriana Lisboa explica a força de sua obra

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 abr 2026, 16h05 | Atualizado em 23 abr 2026, 16h14
‘Ela conversa com os gregos como se fossem contemporâneos nossos’ Priorizar nos meus resultados Google

Heitor de Troia, Sócrates, Safo, Gerião, Héracles… Eles estão no meio de nós. Nos domínios singulares de Anne Carson, heróis, seres lendários, pensadores e poetas da Grécia Antiga ganham nova encarnação. Não só eles. Ao festim meditativo dessa autora canadense difícil de classificar, além dos helenos míticos ou reais de mais de 2 000 anos atrás, são convidados o profeta Isaías, a escritora Emily Brontë, de Morro dos Ventos Uivantes, sua própria mãe… Carson bota até Deus (e os deuses) no meio.

É uma subversiva com método. Conjura e mistura o tempo, o espaço e os estilos literários até implodir os muros entre poesia, romance e ensaio. Suas sentenças, aliás, me parecem impossíveis de prever ou completar… Carson é uma espécie de vulcão (para usar uma imagem que tanto a fascina), cujas lavas fermentam, irrompem e transformam tradições, memórias e palavras. É assim que ela cria uma “coisa” tocante e surpreendente.

Vidro, Ironia e Deus, originalmente publicado em 1995, é seu mais recente título nas livrarias brasileiras. Lançado pela Relicário Edições, foi vertido para o português por outra escritora premiada, Adriana Lisboa. Não deve ter sido fácil encaixar as peças entre o inglês e o português, respeitando o ritmo, a pontuação peculiar, as inúmeras referências… Adriana teve de incorporar o “registro” de Carson.

Vidro, Ironia e Deus

vidro-ironia-deus

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Se em Autobiografia do Vermelho (Editora 34), provavelmente sua obra mais famosa no país, a canadense cotada ao Prêmio Nobel converte um dos monstros dos doze trabalhos de Hércules em um doce menino que protagoniza a via épica do amadurecimento e do descobrimento sexual em tempos modernos, em Vidro, Ironia e Deus, sua pena nos lança a um ciclo de paisagens, personagens, sensações e insights que tocam em outras angústias e epifanias atemporais – percurso que culmina em um artigo original sobre o gênero dos sons e seu impacto social desde a velha Grécia.

No trabalho artesanal que ela herda dos gregos que também estuda – é helenista reconhecida, diga-se -, essa mulher de 75 anos opera alguma mágica (por falta de um termo mais apropriado) capaz de nos colocar em outra dimensão naquele transe do poema. Alguma coisa acontece ali – catarse, cravarão alguns. Saímos de lá com um sentimento difícil de definir, tal qual sua autora. É ler para crer.

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Mas deixemos quem se enredou muito mais nos versos de Carson nos ajudar a traduzir tudo isso. Com a palavra, Adriana Lisboa.

Adriana LIsboa DIVULGAÇÃO
Adriana Lisboa, tradutora de ‘Vidro, Ironia e Deus’ (Foto: Acervo pessoal/Divulgação)
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Se pudesse sintetizar, como definiria a obra de Anne Carson? Sua escrita é impossível de categorizar. Em Vidro, Ironia e Deus, por exemplo, o poema de abertura leva o título de ensaio. Ela desmancha fronteiras entre gêneros, disciplinas, épocas e identidades, numa obra radicalmente inventiva, erudita, fragmentada, que se vale de um léxico ao mesmo tempo simples e que opera o tempo todo numa espécie de tensão entre o íntimo e o impessoal. Certa vez Carson disse numa entrevista para a revista Poetry que sua necessidade era a de “fazer coisas” (“I know I have to make things”). Ela fala do livro como uma forma conveniente para “fazer coisas”, mas para ela cada vez menos satisfatória.

Essa é uma autora que conversa diretamente com gregos de mais de 2 mil anos atrás… A quebra das fronteiras formais e temporais, à medida que ela convida personagens e mitos antigos a dialogarem com o momento presente, é um dos sustentáculos de sua obra? Sem dúvida. Ela conversa com autores gregos clássicos como se fossem contemporâneos nossos. O passado não é um lugar distante, mas um interlocutor vivo. É também dessa tensão entre tempos que nasce a força singular de sua literatura. Mas há uma ressalva importante: ela não idealiza a Antiguidade. Em “O gênero do som”, por exemplo, ela expõe como os gregos construíram uma misoginia da voz feminina, o som da mulher como ameaça, como excesso. Então, ela convoca os antigos como interlocutores, mas também os interroga de modo crítico.

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Houve algum desafio em particular ao verter para o português o livro? O professor e poeta Rafael Zacca mencionou, com relação a essa minha tradução, que acreditava que eu tinha encontrado o registro de Carson. Traduzi-la foi, fundamentalmente, realizar uma leitura atenta para habitar esse registro, e ver o que era possível fazer a partir daí, em português. O ritmo, as ambiguidades, os cortes polissêmicos, a densidade conceitual e os silêncios que ela cultiva, tudo isso precisava ser respeitado.

Qual é a peça ou passagem mais sublime do livro, na sua perspectiva? Difícil não eleger o ciclo “O ensaio de vidro”, que é uma reflexão sobre a passagem do tempo, um rompimento amoroso, o envelhecimento, a solidão, a dor, e é também um estudo magistral de Emily Brontë.

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Em que medida os ofícios de escritora e tradutora convergem e divergem em seu trabalho literário? A escritora não se mete muito. Penso que escrever apurou minha sensibilidade diante das palavras, e esse preciosismo é útil no momento de traduzir, não para impor o meu léxico ou as minhas preferências pessoais, mas para estar afinada ao que faz o autor que estou traduzindo.

Carson leva o Prêmio Nobel neste ano? Minhas apostas estão sempre erradas, então prefiro não apostar nela, porque assim talvez dê mais sorte.

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