‘Ela conversa com os gregos como se fossem contemporâneos nossos’
Candidata ao Nobel, a canadense Anne Carson ganha novo livro no Brasil. A escritora e tradutora Adriana Lisboa explica a força de sua obra
Heitor de Troia, Sócrates, Safo, Gerião, Héracles… Eles estão no meio de nós. Nos domínios singulares de Anne Carson, heróis, seres lendários, pensadores e poetas da Grécia Antiga ganham nova encarnação. Não só eles. Ao festim meditativo dessa autora canadense difícil de classificar, além dos helenos míticos ou reais de mais de 2 000 anos atrás, são convidados o profeta Isaías, a escritora Emily Brontë, de Morro dos Ventos Uivantes, sua própria mãe… Carson bota até Deus (e os deuses) no meio.
É uma subversiva com método. Conjura e mistura o tempo, o espaço e os estilos literários até implodir os muros entre poesia, romance e ensaio. Suas sentenças, aliás, me parecem impossíveis de prever ou completar… Carson é uma espécie de vulcão (para usar uma imagem que tanto a fascina), cujas lavas fermentam, irrompem e transformam tradições, memórias e palavras. É assim que ela cria uma “coisa” tocante e surpreendente.
Vidro, Ironia e Deus, originalmente publicado em 1995, é seu mais recente título nas livrarias brasileiras. Lançado pela Relicário Edições, foi vertido para o português por outra escritora premiada, Adriana Lisboa. Não deve ter sido fácil encaixar as peças entre o inglês e o português, respeitando o ritmo, a pontuação peculiar, as inúmeras referências… Adriana teve de incorporar o “registro” de Carson.
Se em Autobiografia do Vermelho (Editora 34), provavelmente sua obra mais famosa no país, a canadense cotada ao Prêmio Nobel converte um dos monstros dos doze trabalhos de Hércules em um doce menino que protagoniza a via épica do amadurecimento e do descobrimento sexual em tempos modernos, em Vidro, Ironia e Deus, sua pena nos lança a um ciclo de paisagens, personagens, sensações e insights que tocam em outras angústias e epifanias atemporais – percurso que culmina em um artigo original sobre o gênero dos sons e seu impacto social desde a velha Grécia.
No trabalho artesanal que ela herda dos gregos que também estuda – é helenista reconhecida, diga-se -, essa mulher de 75 anos opera alguma mágica (por falta de um termo mais apropriado) capaz de nos colocar em outra dimensão naquele transe do poema. Alguma coisa acontece ali – catarse, cravarão alguns. Saímos de lá com um sentimento difícil de definir, tal qual sua autora. É ler para crer.
Mas deixemos quem se enredou muito mais nos versos de Carson nos ajudar a traduzir tudo isso. Com a palavra, Adriana Lisboa.
Se pudesse sintetizar, como definiria a obra de Anne Carson? Sua escrita é impossível de categorizar. Em Vidro, Ironia e Deus, por exemplo, o poema de abertura leva o título de ensaio. Ela desmancha fronteiras entre gêneros, disciplinas, épocas e identidades, numa obra radicalmente inventiva, erudita, fragmentada, que se vale de um léxico ao mesmo tempo simples e que opera o tempo todo numa espécie de tensão entre o íntimo e o impessoal. Certa vez Carson disse numa entrevista para a revista Poetry que sua necessidade era a de “fazer coisas” (“I know I have to make things”). Ela fala do livro como uma forma conveniente para “fazer coisas”, mas para ela cada vez menos satisfatória.
Essa é uma autora que conversa diretamente com gregos de mais de 2 mil anos atrás… A quebra das fronteiras formais e temporais, à medida que ela convida personagens e mitos antigos a dialogarem com o momento presente, é um dos sustentáculos de sua obra? Sem dúvida. Ela conversa com autores gregos clássicos como se fossem contemporâneos nossos. O passado não é um lugar distante, mas um interlocutor vivo. É também dessa tensão entre tempos que nasce a força singular de sua literatura. Mas há uma ressalva importante: ela não idealiza a Antiguidade. Em “O gênero do som”, por exemplo, ela expõe como os gregos construíram uma misoginia da voz feminina, o som da mulher como ameaça, como excesso. Então, ela convoca os antigos como interlocutores, mas também os interroga de modo crítico.
Houve algum desafio em particular ao verter para o português o livro? O professor e poeta Rafael Zacca mencionou, com relação a essa minha tradução, que acreditava que eu tinha encontrado o registro de Carson. Traduzi-la foi, fundamentalmente, realizar uma leitura atenta para habitar esse registro, e ver o que era possível fazer a partir daí, em português. O ritmo, as ambiguidades, os cortes polissêmicos, a densidade conceitual e os silêncios que ela cultiva, tudo isso precisava ser respeitado.
Qual é a peça ou passagem mais sublime do livro, na sua perspectiva? Difícil não eleger o ciclo “O ensaio de vidro”, que é uma reflexão sobre a passagem do tempo, um rompimento amoroso, o envelhecimento, a solidão, a dor, e é também um estudo magistral de Emily Brontë.
Em que medida os ofícios de escritora e tradutora convergem e divergem em seu trabalho literário? A escritora não se mete muito. Penso que escrever apurou minha sensibilidade diante das palavras, e esse preciosismo é útil no momento de traduzir, não para impor o meu léxico ou as minhas preferências pessoais, mas para estar afinada ao que faz o autor que estou traduzindo.
Carson leva o Prêmio Nobel neste ano? Minhas apostas estão sempre erradas, então prefiro não apostar nela, porque assim talvez dê mais sorte.







