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O brasileiro com 5 milhões de seguidores que combate a ansiedade nas redes

Fenômeno nas plataformas, Rafael Gratta busca oferecer um antídoto para a saúde mental em suas postagens - e agora lança um livro

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 12 Maio 2026, 07h00
O brasileiro com 5 milhões de seguidores que combate a ansiedade nas redes Priorizar nos meus resultados Google

Os gregos legaram um conceito à filosofia e à medicina que nunca caducou. Trata-se do Phármakon, termo que significa tanto veneno como remédio e traduz a ambiguidade intrinsecamente encontrada em algumas substâncias naturais ou criações culturais. Em tempos dominados pelas viciantes e às vezes tóxicas redes sociais, podemos dizer que Rafael Gratta se vale dessa mesma lógica para oferecer um antídoto contra o estresse, a tensão e a fadiga mental. 

Com mais de 5 milhões de seguidores em seus perfis no Instagram, no TikTok e no YouTube, o brasileiro graduado em medicina e criador de conteúdo de 32 anos distribui mensagens terapêuticas em meio a um mar de ruídos e estímulos potencialmente perniciosos.

Suas postagens falam da erosão da atenção, de gatilhos para dependência, de descargas de dopamina – tudo o que as plataformas digitais podem disparar. Sua proposta, contudo, é “como usar o sistema contra ele mesmo”. E Gratta a condensa, escorado na neurociência, no livro Mais Foco, Menos Ansiedade, recém-publicado pela Editora Intrínseca.

Mais foco, menos ansiedade

mais foco-menos ansiedade

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Nas páginas (ou na tela), o “influencer”, que também lutou contra a dependência e a ansiedade, explica como nosso cérebro pode se tornar refém de um círculo vicioso alimentado pelo estresse – numa encruzilhada biológica e existencial – e oferece caminhos factíveis para romper com essa forma de pensar e agir. Como um Phármakon para o nosso acelerado século XXI.

Com a palavra, Rafael Gratta.

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Considerando tudo o que ela alimenta do ponto de vista psíquico e social, dá para afirmar que a ansiedade é o grande desafio do ser humano hoje? Sem dúvida, mas eu iria um pouco além. A ansiedade não é o problema em si — ela é o sintoma mais visível de um desalinhamento entre o cérebro humano e o ambiente moderno. Do ponto de vista neurobiológico, nós temos um sistema nervoso desenhado para responder a ameaças agudas e raras. Hoje, ele é exposto a estímulos crônicos e difusos: excesso de informação, comparação social constante, hiperestimulação e ausência de pausas reais. Isso mantém estruturas cerebrais como a amígdala hiperativadas e reduz a capacidade regulatória do córtex pré-frontal. Mas o ponto central não é só biológico — é existencial. O ser humano perdeu previsibilidade, sentido e pertencimento. E o cérebro interpreta falta de controle como ameaça. Então, sim, a ansiedade é provavelmente o maior desafio atual — não porque ela surgiu agora, mas porque o mundo moderno cria, pela primeira vez na história, um estado quase contínuo de alerta.

Um tribunal americano condenou as redes sociais por seus impactos à saúde mental. Você usa as redes para disseminar informação e orientação. Em que medida seu trabalho pode ser um antídoto ao próprio lado “patológico” das plataformas? As redes sociais não são neutras — elas são desenhadas para capturar atenção, e não para promover saúde mental. Elas exploram exatamente os mesmos circuitos neuronais envolvidos em vício e reforço comportamental. O problema não é o conteúdo em si, mas o design: recompensa intermitente, comparação social e estímulo constante. O que eu busco fazer é usar essa mesma estrutura como vetor de consciência. Mas, em vez de gerar mais estímulo, eu tento criar interrupções — momentos de reflexão que ativam o córtex pré-frontal e reduzem a reatividade automática. É quase como usar o sistema contra ele mesmo.

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O problema está na tecnologia então? No fundo, não se trata de demonizar a tecnologia, mas de restaurar a capacidade de agir. A diferença entre adoecimento e crescimento, hoje, muitas vezes está menos na ferramenta e mais na forma como ela é utilizada. Se a plataforma foi feita para capturar atenção, eu uso essa atenção para devolver autonomia.

A partir de qual momento a ansiedade e o cansaço fisiológicos se tornam quadros patológicos? Ansiedade e cansaço são respostas fisiológicas normais — e necessárias. Eles se tornam patológicos quando deixam de ser adaptativos. Existem três critérios principais que eu considero. O primeiro é a desproporcionalidade: quando a intensidade da resposta não corresponde ao estímulo.  O segundo é a cronicidade: quando o estado de alerta ou exaustão se mantém mesmo na ausência de ameaça real. E o terceiro — talvez o mais importante — é a perda de funcionalidade. Do ponto de vista neurobiológico, vemos uma combinação de hiperatividade em circuitos de ameaça com redução da capacidade regulatória do córtex pré-frontal. O organismo entra em um estado de “modo sobrevivência crônico”. E aí o corpo começa a pagar o preço: sono fragmentado, inflamação, dificuldade de concentração, alterações de humor. Não é mais uma resposta — é um estado.

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No livro, você menciona pesquisas com os chamados psicodélicos. Eles poderiam abrir uma nova frente terapêutica, até mesmo considerando as eventuais falhas das medicações atuais? Acredita nesse potencial? Sim, com responsabilidade e contexto adequado. Os psicodélicos têm mostrado, em estudos recentes, a capacidade de aumentar a neuroplasticidade e reduzir a rigidez de padrões mentais — especialmente em condições como depressão e estresse pós-traumático. Eles parecem atuar diminuindo a hiperatividade de redes como a do modo padrão, que está associada à ruminação e ao senso rígido de identidade. Mas é fundamental entender: eles não são a cura. Eles são ferramentas. Sem preparação, integração e contexto terapêutico, o efeito pode ser superficial ou até desorganizador. Quando bem utilizados, porém, podem abrir uma janela de reorganização profunda, permitindo que a pessoa acesse perspectivas que estavam inacessíveis. Mas a mudança real acontece na vida cotidiana, não na experiência em si.

Se tivesse que aconselhar um hábito ou atitude para ser adotada desde já em prol da saúde mental de qualquer cidadão, qual seria? Eu diria: aprenda a criar pausas. Parece simples, mas é profundamente transformador. O cérebro moderno vive em um estado de input constante — e sem pausa não existe processamento, apenas reação. Momentos intencionais de silêncio, respiração ou simplesmente ausência de estímulo permitem a reativação de circuitos regulatórios. Do ponto de vista neurocientífico, isso reduz a hiperatividade da amígdala, melhora a função do córtex pré-frontal e reorganiza padrões de pensamento. Mas, para além da biologia, existe algo mais profundo: é na pausa que você volta a ter contato com você mesmo. Em um mundo que te empurra o tempo todo para fora, a capacidade de parar é um ato de autonomia. E talvez, hoje, isso seja uma das formas mais potentes de saúde mental.

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