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Claudio Lottenberg

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Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente institucional do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Einstein Hospital Israelita

Surto de sarampo reforça necessidade de investir em saúde antes da doença

Prevenção, vacinação e atenção primária são fundamentais para preservar conquistas sanitárias e tornar o sistema de saúde mais sustentável

Por Claudio Lottenberg 20 ago 2026, 10h30 | Atualizado em 20 ago 2026, 10h46
Surto de sarampo reforça necessidade de investir em saúde antes da doença Priorizar nos meus resultados Google

O retorno do sarampo ao noticiário brasileiro é mais do que um alerta epidemiológico. É uma oportunidade para refletirmos sobre uma questão que deveria estar no centro das políticas de saúde: quanto estamos dispostos a investir para evitar que as pessoas adoeçam?

O Brasil voltou a registrar casos de sarampo em 2026, em um momento em que o país ainda preserva a certificação de eliminação da circulação endêmica da doença. O alerta é maior em São Paulo, diante do registro de casos na capital e em municípios como Guarulhos e São Bernardo do Campo.

O sarampo está entre as doenças infecciosas mais transmissíveis do mundo e, por isso, conter a propagação do vírus exige respostas rápidas, com medidas de vigilância epidemiológica e reforço da vacinação. A recomendação do Ministério da Saúde de intensificar a vacinação de pessoas entre 6 meses e 59 anos nos municípios com surto ativo segue essa lógica.

Esse tipo de ação é fundamental. Mas o episódio também nos obriga a fazer uma pergunta: por que a doença voltou a preocupar?

Parte da resposta está na queda da cobertura vacinal, associada ao crescimento do movimento antivacina, fenômeno que ultrapassa as fronteiras brasileiras. Mas esse não é o único fator. Há diferentes razões que levam famílias a não manter a carteira de vacinação dos filhos em dia, entre elas a disseminação de fake news, a politização do tema, especialmente nas redes sociais e aplicativos de mensagens, a vulnerabilidade social, as desigualdades regionais e dificuldades de acesso e logística.

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O cenário se torna ainda mais complexo quando olhamos para a comunicação. As ferramentas utilizadas no passado para conscientizar a população sobre a importância da vacinação já não são suficientes para enfrentar os desafios atuais. É preciso desenvolver estratégias mais consistentes e adequadas aos novos canais de informação, capazes de dialogar com diferentes públicos, combater a desinformação e reforçar, de maneira clara, a segurança e a importância das vacinas para a proteção individual e coletiva.

Portanto, o aprendizado vai além da vacinação. O Brasil precisa compreender que cuidar da saúde significa agir antes que a doença chegue. Precisamos fortalecer uma cultura de prevenção e de cuidado contínuo, na qual a atenção primária à saúde ocupe um papel central.

A atenção primária é, por definição, a porta de entrada do sistema e reúne ações de promoção e proteção da saúde, prevenção de doenças, diagnóstico, tratamento e acompanhamento. É nesse nível que podemos estar mais próximos das pessoas, compreender as necessidades de cada território e atuar antes que problemas aparentemente simples se transformem em situações de maior gravidade. Quanto mais tarde chegamos ao diagnóstico, maior tende a ser a complexidade do tratamento e o impacto sobre a vida do paciente e sobre o sistema de saúde. Isso vale para todas as doenças, especialmente as mais graves.

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Uma criança vacinada é uma criança protegida de uma doença que pode causar complicações graves. Um paciente hipertenso acompanhado regularmente tem mais chances de evitar um evento cardiovascular. Uma pessoa com fatores de risco identificados precocemente pode receber orientação e tratamento antes que a doença avance.

Em todos esses casos, o melhor resultado para o sistema é aquele que muitas vezes não aparece nas estatísticas: a internação que não aconteceu, a complicação que foi evitada, o tratamento de alta complexidade que não precisou ser realizado.

Essa lógica também nos obriga a repensar a forma como medimos eficiência em saúde. Um sistema não deve ser avaliado apenas pela sua capacidade de realizar procedimentos sofisticados ou atender casos complexos. É preciso avaliar também sua capacidade de manter as pessoas saudáveis e identificar precocemente quem precisa de cuidado.

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Há ainda uma dimensão econômica nessa discussão que não pode ser ignorada.

Os recursos destinados à saúde são finitos. Ao mesmo tempo, as necessidades são crescentes e os avanços da medicina ampliam continuamente as possibilidades de diagnóstico e tratamento. Ou seja, precisamos utilizar melhor os recursos disponíveis.

E utilizar melhor não significa necessariamente gastar menos. Significa investir onde o impacto é maior. Significa direcionar recursos para ações que evitem desperdícios, reduzam complicações e permitam que o paciente receba o cuidado adequado no momento certo.

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O Brasil tem uma vantagem importante nessa construção: uma rede de atenção primária ampla e um sistema público com capacidade de alcançar populações em diferentes territórios. O desafio é garantir que essa estrutura tenha recursos, profissionais, informação e tecnologia suficientes para cumprir plenamente seu papel.

O episódio do sarampo deveria ser encarado justamente dessa maneira. Não como motivo para alarmismo, mas como um lembrete de que a prevenção precisa ser permanente.

Não podemos esperar o aumento das internações para discutir prevenção de doenças cardiovasculares. Não podemos esperar o diagnóstico em estágios avançados para falar sobre rastreamento e diagnóstico precoce. Não podemos esperar um surto para lembrar da importância da vacinação.

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A melhor resposta para uma doença evitável não é apenas tratar quem adoeceu. É garantir que o maior número possível de pessoas não adoeça.

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