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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

O autoteste de Covid-19 pode ajudar no combate à pandemia?

Esse tipo de exame pode favorecer a triagem, desde que a implementação seja realizada sob a coordenação de autoridades e serviços médicos

Por Claudio Lottenberg 25 jan 2022, 12h00

A ideia de que qualquer pessoa possa aplicar testes em si mesma para aferir seu estado de saúde não é algo sem precedentes no Brasil. O autoteste de diabetes, por exemplo, utilizado com sucesso para acompanhamento da glicemia, já é bastante conhecido. Representa uma forma de descentralizar serviços médicos e laboratoriais, e de aliviar um pouco da pressão sobre as redes pública e privada. Mas há um elemento que dá validade e mesmo coerência ao processo todo: o acompanhamento profissional, por médicos e técnicos especializados, para a interpretação correta dos resultados e para o aprendizado por parte do paciente, e portanto sem afetar a segurança.

Aqui entra em cena a discussão sobre autoteste de covid-19 – defendo que este também só é verdadeiramente eficaz se for parte de uma política sanitária, com notificação. Não pode ser uma iniciativa isolada, em que a pessoa compra o teste para fazer em casa e não sabe como interpretar o resultado ali obtido. Isso seria desperdiçar a oportunidade de organizar o combate à Covid-19.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda discute se o autoteste para Covid-19 será autorizado no Brasil. O Ministério da Saúde já enviou nota técnica à agência declarando que a autotestagem seria uma estratégia de triagem: com ela, diz a nota, será possível identificar com antecedência e isolar pessoas infectadas que estão assintomáticas, pré-sintomáticas ou com apenas sintomas leves e que podem estar transmitindo vírus sem saber. Dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), divulgados neste domingo (23), mostraram que o Brasil registrou mais de 135 mil novos casos confirmados, e a média móvel de sete dias passou de 149 mil — sexto recorde seguido.

Como consequência desse aumento, existe um risco considerável (e próximo) de faltar testes, não só no Brasil, como no mundo. Segundo a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a transmissão acelerada da variante ômicron “vem demandando significativo aumento da capacidade produtiva global de testes”. O que muitas vezes faz com que a testagem seja reservada para casos mais graves. Por aqui, ainda de acordo com a associação, entre os dias 10 e 16 deste mês, foram realizados em farmácias nada menos que 558 mil testes rápidos – outro recorde. Paralelamente, as dificuldades de transporte e armazenamento no país também dificultam os procedimentos em algumas localidades. Diante de um contexto como este, a autotestagem poderia ser um fator benéfico para triar os casos – desde que com alguns cuidados e considerações.

A primeira delas, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) diz respeito ao resultado. Caso o reagente seja detectado (o que significa que o resultado é positivo), testes adicionais devem ser realizados com um profissional capacitado. Até porque existem algumas limitações. Com um resultado positivo de autotestagem, o paciente provavelmente daria início aos procedimentos adequados, a começar pelo distanciamento social. Mas um falso-negativo (que é um resultado possível em 30% dos autotestes de covid-19) poderia induzir a pessoa a relaxar nos cuidados, a dispensar equipamentos de proteção e, assim, expor todos os que com ela tivessem contato ao contágio.

Se é assim, ele de fato traz algum benefício? Sim, sem dúvida. Afinal, um resultado positivo já levaria a que já se procedesse aos cuidados. O resultado negativo é que não bastaria de imediato para desfazer a suspeita: seria preciso haver um entendimento mais completo deste, e até mesmo um exame de PCR (de custo mais alto) para os casos ainda suspeitos. Mas fica com isso demonstrada a necessidade de acompanhamento médico para interpretar o resultado, qualquer que seja ele.

O autoteste, se assim podemos chamar para o caso do diabetes (mas não só), evoluiu ao longo dos anos, e hoje já permite que não precise necessariamente ser feita nas condições de laboratório – embora em nenhum caso possa ser desacompanhado de monitoramento profissional e médico. A pessoa pode fazer a aferição de sua glicemia com instrumentos práticos e algum treino. Tudo a partir daí, claro, é coordenado com autoridades e serviços médicos. O autoteste de Covid-19, desde que implementado com a mesma sintonia, também pode trazer benefícios à sociedade, ao ajudar a identificar casos e desafogar os sistemas público e privado.

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