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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

Brasil precisa de um setor industrial robusto na área da saúde

A pandemia deixou claro que o país está em posição desfavorável no que se refere à produção de vacinas

Por Claudio Lottenberg Atualizado em 6 set 2021, 11h56 - Publicado em 6 set 2021, 11h54

A pandemia de Covid-19 deixou claro que o Brasil está em posição desfavorável no que se refere à produção de vacinas. Não foram poucos os obstáculos e contratempos a superar, entre outros motivos, por atrasos na entrega ou a falta de insumos básicos para produzir imunizantes. Saúde, no entanto, talvez seja a área em que a dependência de fornecedores externos tenha de ser a menor possível. Reduzir essa dependência passa pela discussão acerca de ampliar a capacidade industrial do setor no país.

Não será uma tarefa simples, uma vez que nos Estados Unidos, por exemplo, o governo trabalha por um pacote de US$ 1,2 trilhão a ser investido em infraestrutura – o que, sem dúvida, viabilizará avanços na capacidade industrial norte-americana, incluindo o setor da saúde. A China, por sua vez, em 2020 foi responsável por nada menos que 26,7% das exportações de produtos essenciais para combate à Covid-19, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC). As vendas chinesas apenas desses itens chegaram no ano passado a US$ 105 bilhões. São dois casos de setores industriais altamente eficientes e que já têm atuação bastante consolidada na produção de medicamentos e insumos e em equipamentos. No Brasil, na contramão, a indústria de transformação representava 11% do Produto Interno Bruto (PIB) no 1o. trimestre deste ano.

Mas o setor da saúde responde por 9% do PIB brasileiro. São mais de 9 milhões de pessoas empregadas na área. O Brasil, além disso, tem excelência em inovações e pesquisas em diversos ramos da medicina. A pandemia mostrou que há amplo espaço para que toda essa capacidade do setor possa gerar ainda mais empregos, renda, tecnologia, ciência e qualidade de vida para a população.

Para dar um exemplo, o Sistema Único de Saúde (SUS), que se mostrou um recurso valioso para combater a disseminação do novo coronavírus, carece de aparelhos – como respiradores, mas não só – e mesmo de recursos básicos, como os equipamentos de proteção individual (EPIs), aventais, luvas e máscaras, que estão com custos hiperinflacionados desde o início da pandemia. Tudo isso teve de ser importado em volumes consideráveis, principalmente da China. Tais itens poderiam ser produzidos aqui, abrindo postos de trabalho e impulsionando a economia brasileira.

Tornar isso uma realidade, no entanto, passa por discutir a redução do Custo Brasil – a carga tributária que dificulta o investimento produtivo, o cipoal de regras trabalhistas, a insegurança jurídica e o papel do Estado. A iniciativa privada precisa ser incluída nessa discussão, pois teria muito a contribuir na expansão dos serviços de saúde no Brasil. Basta pensar que os beneficiários de planos não são muito mais de 47 milhões no país, ao mesmo tempo em que se verifica que ter um plano de saúde é uma das metas mais relevantes para as famílias.

A pandemia ainda exigirá cuidados da parte de todos por algum tempo. A capacidade de atendimento dos hospitais, como vimos, foi levada em muitas ocasiões ao limite por falta de recursos básicos. O país já se prepara para oferecer a terceira dose de vacina e a imunização terá de prosseguir para além de 2022.

O Brasil tem diante de si uma oportunidade para desenvolver suas capacidades de produção de insumos, vacinas e demais itens para não apenas conter a Covid-19, mas para fazer do setor da saúde um dos motores de sua recuperação. Mas para isso, debate e planejamento têm de começar. A indústria brasileira, em especial a voltada ao setor da saúde, tem que estar preparada. Não se pode esperar que uma próxima crise se instale para que só então se perceba que o Brasil depende de outros países para garantir o direito de sua população à assistência médica. Entre as muitas lições deixadas pela pandemia de Covid-19, esta é uma das mais claras.

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