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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

Aids, uma pandemia de 40 anos

Até 2030, a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem a expectativa de finalmente acabar com essa epidemia global

Por Claudio Lottenberg Atualizado em 10 dez 2021, 16h47 - Publicado em 7 dez 2021, 10h01

A Covid-19 se tornou uma crise sanitária de tão ampla proporção, tão presente em nosso cotidiano, que a sociedade pouco lembra que a aids também continua a ser um risco de saúde a afetar um número considerável de pessoas. O dia 1º de dezembro foi a data escolhida, em 1988, para lembrar dos esforços combinados de diversas entidades para combater a doença – cuja descoberta completa 40 anos em 2021. Até 2030, a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem a expectativa de finalmente acabar com essa epidemia global.

A campanha da UNAids (agência da ONU que atua no enfrentamento da doença) tem como tema deste ano “Acabe com as desigualdades. Acabe com a aids. Acabe com as pandemias”. O slogan não poderia ser mais oportuno, uma vez que enfatiza o papel central que mudanças políticas, econômicas e sociais têm para proteger direitos de comunidades desfavorecidas – entre eles, o direito à saúde.

Relatório da agência mostra que, em 2020, pelo menos 1,5 milhão de novas infecções por HIV foram registradas em âmbito global. No Brasil, foram pouco menos de 33 mil novos casos (o que, apesar de ser um dado negativo, representa uma redução de 25% sobre 2019). Desde que a aids se tornou uma epidemia, na década de 1980, mais de 79 milhões de pessoas foram infectadas, e mais de 36 milhões morreram de doenças a ela relacionadas no período. Segundo a UNAids, o avanço da doença segue linhas de desigualdade e discriminação. Por exemplo: a África subsaariana foi responsável por 89% das 300 mil novas infecções pediátricas por HIV ocorridas no ano passado.

A luta contra o novo coronavírus e suas muitas variantes também teve um peso no combate à aids. A realocação de recursos materiais e humanos para o combate à pandemia de Covid-19 fez com que o ritmo de testagem para o HIV caísse (o que pode estar por trás da redução de casos no Brasil) e menos pessoas começassem a se tratar no ano passado em 40 dos 50 países que se reportaram à UNAids. Os serviços de redução de danos para pessoas que usam drogas injetáveis foram interrompidos em 65% de 130 países pesquisados. São apenas alguns indicadores negativos na luta contra o HIV. Não são números que se possa desconsiderar. A avaliação da agência da ONU é que a meta de acabar com a epidemia global de aids até 2030 é alcançável, mas as desigualdades precisam ser reduzidas. Do contrário, o combate a futuras pandemias pode ficar desde já comprometido.

Mas, se a situação da aids no mundo ainda é grave, também há boas notícias. A doença vem registrando uma queda desde 2012 no Brasil, de 21,9 por 100 mil habitantes para cerca de 18 por 100 mil atualmente. São cerca de 920 mil as pessoas que hoje no país vivem com HIV; destas, mais de três em cada quatro (77%) recebem tratamento com antivirais (e destas, 94% não transmitem mais a doença, devido à carga viral reduzida).

Na frente do combate à doença em escala global, o avanço em medicamentos mais eficazes continua. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou recentemente um tratamento que combina lamivudina e dolutegravir sódico (dois antirretrovirais) em um único comprimido. E quanto mais simples o tratamento, menor o risco de que o paciente o abandone. O novo medicamento reduz a carga de HIV no organismo, mantendo-a baixa. Com o tratamento adequado, é possível que o paciente viva anos, com qualidade, mesmo com o vírus.

A notícia mais recente a respeito da aids foi a revelação, no mês passado, do caso de uma mulher argentina, de 30 anos (cujo nome não foi divulgado), que se viu livre do vírus sem qualquer tratamento com remédios (exceto por um período de seis meses, em 2013, em que estava grávida). Ela apresenta níveis indetectáveis de carga de HIV. Pesquisadores dizem ser um indicador de que, sim, pode haver esperança de uma cura, em algum momento no futuro.

A melhor estratégia contra o HIV é a mesma válida para pacientes com praticamente qualquer doença: informação. Contar com tratamentos avançados e eficazes sem dúvida é e continuará a ser necessário. Mas saber como prevenir o contágio é o caminho para que, até 2030, vejamos os números desta doença diminuírem ao ponto de não ser mais uma ameaça. Lutar contra a Covid-19 e a aids, simultaneamente, não é de modo algum algo favorável para os serviços de saúde de qualquer país.

Se posso deixar uma sugestão para quem quiser conhecer um pouco do que foi o início da história da aids e do esforço realizado por pesquisadores para entendê-la e começar a luta contra ela, vale assistir o filme “E a Vida Continua” (“And the Band Played On”), de 1993, baseado no livro homônimo do jornalista Randy Shilts (que morreu em 1994 em decorrência de doenças relacionadas à aids). Informação, reforço aqui, ainda é a ferramenta estratégica não apenas contra a aids, mas contra qualquer pandemia.

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