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Cidades sem Fronteiras Por Mariana Barros A cada mês, cinco milhões de pessoas trocam o campo pelo asfalto. Ao final do século seremos a única espécie totalmente urbana do planeta. Conheça aqui os desafios dessa histórica transformação.

“Só se favorece o novo, ainda que de péssima qualidade”, diz filha de Artigas sobre a preservação da obra do pai

No centenário de nascimento do arquiteto João Batista Vilanova Artigas, vencidos todos os desafios de projeto e de obra enfrentados durante a sua carreira, um ainda permanece: por que é tão difícil fazer a manutenção de casas, prédios e espaços de importância histórica para as cidades e o país? “Nós vivemos uma realidade que só […]

Por Mariana Barros Atualizado em 31 jul 2020, 01h06 - Publicado em 22 jun 2015, 10h40
Prédio da FAU USP, de autoria de Artigas, que há anos sofre com falta de manutenção

Prédio da FAU USP, de autoria de Artigas, que há anos sofre com falta de manutenção

No centenário de nascimento do arquiteto João Batista Vilanova Artigas, vencidos todos os desafios de projeto e de obra enfrentados durante a sua carreira, um ainda permanece: por que é tão difícil fazer a manutenção de casas, prédios e espaços de importância histórica para as cidades e o país? “Nós vivemos uma realidade que só favorece o novo, ainda que o novo seja de péssima qualidade”, afirma Rosa Artigas, sua filha e curadora da Ocupação Artigas do Itaú Cultural, em São Paulo, com abertura na terça-feira, dia 23, quando o arquiteto celebraria seu centésimo aniversário.

Muitas das obras de Artigas já completaram cinquenta, sessenta, setenta anos, e até agora não existe no país um mecanismo eficaz de preservação. “Há uma quantidade enorme de desculpas de todos os tipos [para não preservá-las]”, diz Rosa. O tombamento, pelo qual fica proibida qualquer alteração da edificação, acaba sendo a última etapa de um processo quando deveria marcar seu início. Afinal, o mais difícil é achar meios de custear a manutenção desses locais ao longo do tempo e sem que as despesas recaiam apenas sobre o proprietário. De outra forma, vira um jogo de sorte e azar em que pode haver ou faltar recursos, haver ou faltar boa vontade, haver ou faltar fiscalização, haver ou faltar bom senso de manter o essencial do projeto original etc.

O arquiteto Vilanova Artigas, que completaria 100 anos neste ano

O arquiteto Vilanova Artigas, que completaria 100 anos neste ano

No caso de Artigas, os dados estão sendo jogados. Duas de suas obras mais importantes, o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e o estádio do Morumbi, ambos em São Paulo, podem tanto ser melhoradas quanto degradadas nos próximos anos. Enquanto o primeiro sofre há anos com infiltrações e falta de manutenção, o segundo será reformado para ganhar uma cobertura. E torcer parece ser a única coisa possível a fazer para um bom desfecho das duas situações.

Preservar dessa maneira, ou seja, sem medidas que garantam verdadeiramente a preservação, não parece o melhor caminho para manter viva a memória das cidades e das pessoas que ajudaram a projetá-las e construí-las. Para relembrar a importância de manter viva e sadia a história urbana e arquitetônica, o Itaú Cultural inaugura a Ocupação Artigas na terça-feira, dia 23, quando o arquiteto celebraria seu centésimo aniversário. Fotos, desenhos, maquetes e cartas fazem parte da exposição, que mostra também seu papel de educador. Naquela época, os arquitetos eram graduados em engenharia que também projetavam. Artigas foi um dos responsáveis pela criação da profissão de arquiteto, em 1940, sendo um dos fundadores da Faculdade de Urbanismo e Arquitetura da USP e autor do prédio onde ela está até hoje localizada.

Rosa Artigas, filha dele, participa da curadoria da mostra e é autora do livro Vilanova Artigas (ed. Terceiro Nome), que será lançado no dia 1o de julho. O livro mostra projetos famosos e também dois não construídos, um plano piloto de Brasília e o de reurbanização do Vale do Anahngabaú, em São Paulo. No evento de lançamento, haverá debate com Paulo Mendes da Rocha, que foi discípulo de Artigas e levou adiante a Escola Paulista, como ficou conhecido seu estilo bruto, de estruturas e concreto aparentes. O documentário Vilanova Artigas: o arquiteto e a luz e o livro de desenhos A mão livre do vovô dão continuidade às comemorações.

A convite do blog, Rosa falou sobre a dificuldade de preservar as obras do pai e também sobre a personalidade dele e seu modo de trabalhar :

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1) Qual era a principal premissa do plano de Brasília proposto por Artigas e que não saiu do papel? Artigas liderava uma equipe com muitos arquitetos e especialistas em vários assuntos. De modo geral, o plano piloto o apresentava propostas de desenvolvimento regional, abordando as áreas de produção agrícola e industrial, abastecimento, saneamento e transporte. O que o júri considerou interessante no plano foram as considerações sobre os meios de financiamento, de posse e administração da terra e da definição das etapas de crescimento ordenado da cidade. O trabalho foi classificado, junto com outros escritórios participantes, em quinto lugar.

2) Como você imagina que seria a capital hoje se o projeto dele tivesse sido construído? Não tenho a menor ideia. Difícil trabalhar essa hipótese diante de uma Brasília real, que está lá com suas qualidades e defeitos e, principalmente, não sendo especialista em planejamento urbano. Há muitas teses universitárias e livros publicados sobre isso.

3) A FAU, uma de suas obras mais emblemáticas, há anos sofre com infiltrações e reformas intermináveis. O que poderia ser feito para que edifícios que são patrimônios públicos fossem conservados como deveriam? Não é só a obra do Artigas que sofre com deterioração e falta de atenção. Acredito que deveria haver discussões importantes sobre as políticas de tombamento, preservação e restauro. São Paulo talvez seja o único lugar do mundo onde um bem, após ser tombado, perde o valor, uma vez que o valor é determinado pelo mercado imobiliário. Os bens públicos, sejam palácios, monumentos ou uma pequena escola secundária, não recebem manutenção, há descontinuidade no interesse dos governos sobre o passado das cidades brasileiras, um pouco de ignorância e memória curta. Nós vivemos uma realidade que só favorece o novo, ainda que o novo seja de péssima qualidade. O que me indignou, particularmente no caso da FAU-USP, é que pelo fato de ser uma escola de arquitetura. Tinham obrigação de educar melhor os arquitetos nesse sentido. Felizmente está sendo restaurada e me parece, está ficando bem bonita de novo. Há também a falta de verbas, a indefinição das prioridades, interesses diversos, teorias novíssimas, a procrastinação. Uma quantidade enorme de desculpas de todos os tipos.

4) Em breve o estádio do Morumbi será reformado e ganhará uma nova cobertura. Quais devem ser as principais preocupações para que o projeto original não seja descaracterizado? Espero que contratem arquitetos com sensibilidade para isso, que conheçam a história do estádio, do bairro, da cidade e do significado de mantê-lo. Acho que os edifícios também precisam se modernizar e, em muitos casos, a preservação como é encarada hoje, quando restringe demais a mudança, acelera deterioração, porque é principalmente o uso que preserva e mantém os bens culturais.

5) Estruturas aparentes e uso do concreto, marcas da Escola Paulista, relevam a enorme influência da engenharia sobre os arquitetos paulistanos. Por que isso não se repetiu da mesma maneira em outros locais, como Rio de Janeiro ou sul do país? As escolas de arquitetura de São Paulo – tanto a FAU, quanto o Mackenzie – nasceram das escolas de engenharia e a arquitetura era muito ligada ao processo construtivo, porque originalmente o arquiteto não era um profissional liberal. O próprio Artigas, logo que se formou, abriu uma empresa construtora porque o projeto só existia como parte da construção. Como os clientes eram da iniciativa privada, compravam o pacote todo: projeto, execução, fiscalização, aprovação pelos órgãos reguladores etc. No caso do Rio de Janeiro, a escola de arquitetura nasceu de dentro da Escola de Belas Artes e, pelo fato de ser capital do pais, logo o Estado passou a financiar a construção dos edifícios modernos. O arquiteto era contratado pelo projeto e a obra, grande, realizada por construtoras. Também, há questões de lugar, de natureza, de disponibilidade técnica, de cultura e, principalmente de história que influenciam a linguagem do arquiteto.

6) As obras de Artigas conseguem ser, ao mesmo tempo, brutas e delicadas. Isso alguma forma reflete a personalidade dele? Acho que a obra sempre reflete (não sei bem se é a palavra) um pouco a personalidade do artista, mas também há, nesse caso, a influência de um período histórico caracterizado por uma polarização evidente na sociedade brasileira. Artigas afirmou algumas vezes, quando explicou a Casa Elza Berquó, por exemplo, que a estrutura de concreto (pesada) apoiava-se em troncos de madeira porque sua intenção era os “pilares/tronco” não serem percebidos como apoios da laje por quem a via. Ele queria dar a impressão de que aquilo era uma estrutura de concreto que flutuava, uma clara intenção de denunciar a contradição do momento em que vivia. Uma contraposição entre o pesado e o leve que só pode ser feita por quem tem o domínio da técnica e da arte, da linguagem da arquitetura. No concurso para professor titular, Artigas procurou explicar essa relação da seguinte maneira: “O que me encanta é usar formas pesadas e chegar perto da terra e, dialeticamente, negá-las, … como se fossem cair.”

Por Mariana Barros
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