Macallan, o uísque símbolo de luxo servido por Vorcaro a autoridades
As bocas-livres promovidas pelo ex-banqueiro expuseram a Macallan, bicentenária marca escocesa apontada como uma das melhores do gênero
Poucas companhias traduzem tão bem a ideia de luxo no universo do uísque quanto a escocesa The Macallan. A fabricante de single malt, fundada em 1824, construiu sua reputação em torno de três elementos: território, história e qualidade da madeira dos barris. A marca também se revelou a preferida do ex-banqueiro, atualmente preso, Daniel Vorcaro, que oferecia degustações, promovia festas regadas à bebida e presenteava interlocutores com garrafas, segundo documentos que estão em poder da Polícia Federal. No Brasil, o rótulo esteve no centro das atenções depois que o então controlador do Banco Master custeou em Londres, em abril de 2024, uma experiência avaliada em 3,3 milhões de reais, com a participação do ministro do Supremo Federal Alexandre de Moraes, e pouco tempo depois, em Nova York, distribuiu a convidados de um evento 25 garrafas ao custo total de 625 000 reais. Procurada pela reportagem de VEJA NEGÓCIOS após ter sua marca mencionada nas notícias sobre a relação entre o membro da Corte e o financista, a destilaria não se manifestou.
O cenário da degustação na capital britânica foi dos mais exclusivos para proporcionar esse tipo de privilégio. O George é um clube do bairro londrino de Mayfair, privativo de sócios e seus convidados e fechado ao público. Segundo a imprensa especializada, entrar ali não é apenas uma questão de dinheiro: é preciso candidatar-se com a recomendação de um membro. A anuidade é de 2 250 libras (cerca de 16 000 reais), além de uma taxa de adesão de 1 250 libras (algo como 9 000 reais).
Entre os nomes já associados anteriormente ao George estão o magnata da mídia James Murdoch e o ex-premiê britânico David Cameron, que se encontraram no clube em 2009 para uma conversa que entrou para a história da política. O endereço também é frequentado por executivos do mercado financeiro, empresários e figuras do entretenimento. A própria imprensa londrina o descreve como um lugar de power breakfasts e longos almoços, em vez de um espaço voltado à vida noturna. Foi nesse endereço de acesso restrito que Vorcaro recebeu convidados para a agora notória degustação de Macallan com representantes do poder no Brasil.
Os preços da bebida ajudam a delimitar esse universo: no site original da marca, o Sherry Oak 12 Years Old aparece por perto de 113 euros (cerca de 678 reais), enquanto o The Macallan Double Cask 30 Years Old, 2025 Release chega a 4 758 euros (o equivalente a 28 600 reais). No mercado de colecionadores, a escala é outra: em 2023, uma garrafa do The Macallan 1926 Valerio Adami 60 Years Old foi arrematada na casa de leilões Sotheby’s, em Londres, por perto de 2,2 milhões de libras, quase 14 milhões de reais na época. Foi o maior valor já pago em leilão por uma garrafa de destilado ou vinho.
Muito antes da polêmica, porém, o Macallan já havia construído uma posição de destaque entre os uísques mais desejados do mundo. A história começa na Easter Elchies House, no nordeste da Escócia, uma casa construída nos anos 1700, com desenho impresso nos rótulos até hoje. Recentemente, uma nova destilaria foi erguida em um terreno de 485 acres e passou a receber visitantes para experiências que combinam produção, gastronomia e degustação. Projetada pelo escritório britânico RSHP, foi concebida para se integrar à paisagem da região chamada de Speyside (às margens do Rio Spey), que se tornou uma das mais pródigas na fabricação de uísque. A inspiração do projeto veio do conceito de “mistério revelado”. O visitante percorre a antiga estrada da propriedade até chegar a uma construção quase escondida sob uma cobertura verde ondulante, que acompanha as colinas denominadas Highlands. As formas circulares remetem aos brochs, construções da Idade do Ferro, e aos cairns, antigos marcos de pedra escoceses. As “terras altas” reúnem condições favoráveis à produção de uísque, com clima frio e úmido, abundância de água e solos adequados ao cultivo de cevada.
“A ambição era criar um lugar onde os visitantes pudessem experimentar a fabricação do The Macallan em primeira mão, entendendo também sua relação com a paisagem e a história da propriedade”, afirma Graham Stirk, diretor de design do RSHP. Uma parede de vidro de 10 metros de altura permite observar diretamente as quatro casas de alambiques. A arquitetura também incorpora uma das etapas mais importantes: a maturação. Uma adega circular de pé-direito duplo, chamada cave privée, permite observar os barris e compreender a transformação do destilado. O projeto foi premiado: recebeu o RIAS Andrew Doolan Award e foi finalista do RIBA Stirling Prize em 2019.
Na The Macallan, a madeira tem papel central. A empresa é conhecida pelo uso de barris de carvalho europeu que armazenaram jerez, vinho fortificado espanhol que contribui para a cor, os aromas e a textura da bebida. Mais do que a idade, a seleção e a qualidade dos barris são parte fundamental da identidade da empresa.
“Nós somos uma marca de valor, não de volume”, afirma Gianpaolo Morselli, embaixador da The Macallan no Brasil. A estratégia aparece nas edições limitadas, nas experiências e no colecionismo. Na propriedade escocesa, é possível, por exemplo, participar de uma pesca de salmão selvagem durante oito horas, por 1 574 reais. A fabricante tem capacidade para produzir 15 milhões de litros por ano e mantém cerca de 400 000 barris em estoque. A marca desde 1999 pertence à Edrington, grupo escocês de bebidas destiladas, e tem a japonesa Suntory como acionista minoritária. O apelo é extremamente sedutor. “James Bond bebe The Macallan nos filmes. Ele é bom no que faz, é bonito, elegante e low profile. Isso explica tudo”, completa Morselli.
O interesse brasileiro tem superado a média de crescimento do mercado. Em 2025, o país importou 54 milhões de garrafas de scotch whisky de 700 mililitros, com alta de 3,3% sobre 2024. Com esse consumo, tornou-se o quinto maior destino mundial em volume, segundo a Scotch Whisky Association. No mesmo período, as exportações globais de scotch caíram 4,3%. A imagem glamorosa alimenta o aumento da demanda. “O consumidor compra, consome, posta nas redes, participa de degustações e ainda presenteia para causar impacto”, afirma Fernando Gurgel, consultor de uísque.
No novo mercado de luxo, o primeiro gole faz parte de algo maior. O que se vende é também o lugar, a história, a raridade e a arquitetura. Poucas marcas souberam transformar esses elementos em desejo como a The Macallan. E já se viu que não importa quem seja o cliente.
Da Escócia a Minas Gerais: o novo mapa do uísque
Das frias Highlands ao clima tropical brasileiro, marcas do destilado procuram explorar muito mais do que os goles
O uísque está deixando de ser apenas uma bebida para se tornar uma atração de programas de turismo. Visitas a destilarias, com gastronomia, degustações especiais e contato com responsáveis pela produção, passaram a fazer parte da estratégia das marcas premium. Na Escócia, a Glenmorangie, fundada em 1843 nas Highlands, oferece experiências para visitantes e aposta na experimentação da bebida com diferentes madeiras. À frente dos roteiros está o bioquímico Bill Lumsden, mestre responsável por explorar barris de diferentes origens e o cask finish, técnica que consiste em finalizar a maturação do uísque em um segundo barril. “Cada madeira que já recebeu vinho um dia proporciona características diferentes: o francês Sauternes traz notas de confeitaria, enquanto o Porto oferece outra textura”, afirma Bruna Soares, gerente de marcas da Moët Hennessy no Brasil.
A Johnnie Walker se destaca pelo volume. Em 2025, vendeu 20 milhões de caixas de 9 litros, segundo o ranking Brand Champions. Em Edimburgo, um antigo prédio de banco na Princes Street foi transformado em espaço para o apreciador visitar as destilarias Glenkinchie, Clynelish, Caol Ila e Cardhu. No topo da linha está o Blue Label, que custa cerca de 2 700 reais no Brasil. “Podemos comparar a um Rolex ou a uma Montblanc”, diz Nicola Pietroluongo, embaixador da marca no Brasil.
Se a Escócia representa tradição, Taiwan encontrou na surpresa seu diferencial. A Kavalan nasceu na ilha asiática a partir do projeto do empresário Tien-Tsai Lee, fundador do grupo King Car, e de seu filho, Yu-Ting Lee. Aberta ao público em 2008, a destilaria já recebeu mais de 10 milhões de visitantes. “O nosso clima subtropical molda o caráter do nosso produto”, afirma Wendy Wang, responsável global sênior por relações públicas da Kavalan. A destilaria mira o consumidor brasileiro e seu interesse crescente por rótulos premium.
No Brasil, a mineira Lamas busca construir uma identidade própria. A destilaria usa madeiras nacionais como amburana, bálsamo, pau-brasil, putumuju, angico e sassafrás para criar perfis diferentes dos tradicionais escoceses e americanos. A empresa é gerida por Luciana Lamas e seus irmãos e está investindo 50 milhões de reais em um novo complexo em Pedro Leopoldo. A intenção também é transformar a destilaria em destino de lazer e explorar o conceito de “uísqueturismo”.
Publicado em VEJA, setembro de 2026, edição VEJA Negócios nº 30






