As novas evidências de que a musculação gera benefícios para o cérebro
Neurociência encontra provas de que exercícios são positivos inclusive a prevenção de doenças
Mens sana in corpore sano, ou seja, “mente sã em corpo são”. A expressão em latim do poeta romano Juvenal, escrita no século II a.C., era uma exaltação ao bem maior do ser humano: a saúde, em todos os seus aspectos. Com o tempo, a frase passou a ser associada à busca do equilíbrio entre atividades físicas e intelectuais. O que está cada vez mais claro para a ciência é que, além de exercer funções complementares, a movimentação do corpo melhora o desempenho do cérebro. E, em anos recentes, surgiram evidências de que não só os exercícios aeróbicos (correr, nadar, andar de bicicleta, pular corda etc.) mas também a musculação estimulam positivamente a saúde mental.
O ponto focal dessa ligação músculo-cérebro é uma proteína chamada BDNF (sigla em inglês de fator neurotrófico derivado do cérebro), que cumpre papel essencial na regulação do humor, na cognição e na capacidade de memória. O BDNF, produzido principalmente no sistema nervoso central, funciona como um “fertilizante” cerebral, estimulando o crescimento de novos neurônios e conexões e protegendo os existentes. É a chamada neuroplasticidade — capacidade do cérebro de se adaptar, modificar e reorganizar sua estrutura ao longo da vida. Já se sabia que a atividade física, especialmente a aeróbica, pode estimular a produção de BDNF. O que foi descoberto só mais recentemente é que o treino de força também promove a produção de BDNF. O processo é o seguinte: a irisina e o lactato, substâncias liberadas pela contração dos músculos, pegam carona na corrente sanguínea e sinalizam ao cérebro para aumentar a produção de BDNF, o que resulta em vigoroso efeito neuroprotetor.
Segundo o neurologista Conrado Borges, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, os exercícios aeróbicos podem contribuir diretamente para a melhora de processos cognitivos e trazer benefícios estruturais para o cérebro. “A atividade física em geral está associada à redução da incidência de depressão e ansiedade, além de contribuir para a melhora dos transtornos do sono”, diz Borges. A dinâmica é a seguinte: a atividade física atua na neuroquímica cerebral liberando neurotransmissores do bem-estar — mensageiros químicos produzidos pelos neurônios. São eles: a serotonina, a dopamina, a ocitocina e a endorfina. Já os exercícios resistidos (de força) ajudam a preservar a capacidade funcional, especialmente em pessoas mais velhas.
A neurociência aposta que os exercícios impactam não só a saúde mental, mas, por meio do BDNF, o campo neurológico, ou seja, protegendo os neurônios (a célula central) e combatendo doenças. A proteína BDNF protege da morte celular, por exemplo, prevenindo o Alzheimer e o Parkinson. Da mesma forma, a mesma proteína melhora as conexões entre os neurônios (sinapses), facilitando a captura e a solidificação de novas informações. Para quem achava que o fortão do outro lado da mesa tinha um cérebro de vento, é bom repensar a definição de vento. Corpo saudável gera mente saudável.
Publicado em VEJA, junho de 2026, edição VEJA Negócios nº 27








