🔥 Mês do Cliente: Receba 4 Revistas Impressas por apenas R$ 35,90/mês. Aproveite!
Imagem Blog

Balanço Social

Por Andréia Peres Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Um olhar diferente para as desigualdades do Brasil

Menos de 1% das emendas parlamentares vão para crianças e adolescentes

Entre 2024 e 2026, o Congresso Nacional destinou menos de 1% das emendas parlamentares federais para ações exclusivas para esse público, diz estudo

Por Andréia Peres 18 ago 2026, 08h00 | Atualizado em 18 ago 2026, 11h29
Menos de 1% das emendas parlamentares vão para crianças e adolescentes Priorizar nos meus resultados Google

“Um orçamento é mais do que apenas uma série de números em uma página; é a materialização de nossos valores.” A frase de Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos (2009-2017), em um discurso histórico sobre a política fiscal durante o seu governo, traduz muito bem a importância de se olhar para o orçamento para se compreender de fato o país.

Como diz um velho ditado popular, para descobrir a verdade ou as reais prioridades e motivações de alguém, siga o dinheiro. Não falha nunca. No caso do orçamento brasileiro, relatório do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), abordado pela coluna em maio deste ano, mostrou que, em 2025, o investimento com políticas voltadas a crianças e adolescentes representou 4,37% da execução do Orçamento Geral da União.

“A prioridade absoluta a crianças e adolescentes prevista no artigo 227 da Constituição ainda não se traduz em orçamento”, lamenta Gustavo Paiva, analista de Educação do Instituto Alana e integrante da equipe executiva da Agenda 227, um movimento apartidário da sociedade civil brasileira que reúne mais de 500 organizações, redes e coalizões. Entre as propostas do movimento para o governo federal (2027-2030), está fazer valer a prioridade constitucional desse público na política orçamentária.

Recém-lançado, novo relatório do Inesc mostra que a situação é ainda pior quando se analisa as emendas parlamentares para ações direcionadas exclusivamente para a infância e a adolescência.

Diante do que o relatório chama de “uma avalanche de propostas no Congresso Nacional que restringem direitos conquistados historicamente pela infância e pela adolescência brasileiras”, em 2026, a pesquisa “seguiu o dinheiro” – no caso, as emendas – para avaliar a prioridade dada a infância e adolescência pelos parlamentares.

Continua após a publicidade

O estudo foi elaborado a partir de dados do Siga Brasil, do Senado Federal, e analisou as Leis Orçamentárias Anuais (LOAS) de 2024 a 2026, considerando apenas ações classificadas pelo Ministério do Planejamentos e Orçamento como exclusivas para crianças e adolescentes.

Entre 2024 e 2026, o Congresso Nacional destinou menos de 1% das emendas parlamentares federais para ações exclusivas voltadas para esse público, aponta a análise. Em 2024, o percentual foi de 0,76%, em 2025, de 0,91% e, em 2026, o equivalente a 0,4% do total de R$ 51,5 bilhões em emendas parlamentares previstas para este ano; menos da metade do montante autorizado em 2025. Em nenhum dos anos o investimento alcançou 1% do total das emendas.

“Os números revelam um descompasso entre o discurso de defesa da infância e a destinação efetiva de recursos públicos”, afirma a assessora política no Inesc Thallita de Oliveira, responsável pelo estudo, em entrevista exclusiva à coluna.

Continua após a publicidade

Segundo ela, os recursos de emendas parlamentares têm representado algo por volta de 20% das despesas discricionárias, que são aquelas cujos recursos arrecadados o governo pode escolher quanto e onde vai aplicar.

As chamadas despesas discricionárias têm grande importância para as políticas da infância e da adolescência, pois boa parte das ações para garantir a proteção integral de meninas e meninos é definida nesses gastos, tais como de prevenção e proteção das violências em geral e do trabalho infantil, de construção e manutenção de creches e escolas e de melhoria da infraestrutura de conselhos tutelares, entre outras.

Mesmo somando-se os três anos analisados, os recursos da ação de promoção e defesa dos direitos de crianças e adolescentes, vinculada ao único programa do Plano Plurianual direcionado exclusivamente a esse público, não chegam nem ao valor que um deputado sozinho recebe anualmente para emendas parlamentares, que é de R$ 40 milhões.

Continua após a publicidade

Ou seja, considerando-se toda a legislatura atual (de 2024 a 2026), os recursos dessa ação não corresponderam nem a um real por criança e adolescente do país, calcula o estudo.

LÓGICA ELEITOREIRA

Com boa parte do orçamento hoje nas mãos dos parlamentares, o cenário é preocupante. “O problema das emendas parlamentares é que elas não dialogam com o planejamento maior, o Plano Plurianual (PPA), que define as diretrizes, os objetivos e as metas da administração pública federal considerando os principais problemas e também as desigualdades”, diz a especialista.

Continua após a publicidade

“É muito dinheiro para as escolhas seguirem os interesses políticos”, afirma, ressaltando que os parlamentares tendem a encaminhar as emendas para a sua jurisdição eleitoral e para políticas que, muitas vezes, não correspondem às prioridades definidas pelo planejamento do Poder Executivo.

Para se ter uma ideia do descompasso, na ação de promoção e defesa dos direitos de crianças e adolescentes, por exemplo, o maior volume de recursos para 2026 concentrou-se na região Sudeste, que recebeu o equivalente a 73,2% do total das emendas. Uma distribuição que não acompanha os indicadores de vulnerabilidade social.

Norte e Nordeste concentram as maiores incidências de trabalho infantil e as maiores taxas de homicídios de crianças, adolescentes e jovens. “Os poucos recursos, no entanto, estão indo para regiões com melhores indicadores, reproduzindo o padrão de desigualdade”, observa Thallita de Oliveira, do Inesc.

Continua após a publicidade

A MAIORIA DOS RECURSOS VAI PARA INFRAESTRUTURA DA EDUCAÇÃO BÁSICA

Além das emendas não dialogarem com o PPA e da distribuição dos recursos não acompanhar os indicadores de vulnerabilidade social, outro grande problema é o que é priorizado – ou não – pelos parlamentares.

Ações relacionadas a iniciativas de valorização da diversidade, de promoção dos direitos humanos e de inclusão, por exemplo, só receberam recursos de emendas parlamentares em 2026. Ainda assim, segundo o estudo, o montante autorizado foi de apenas R$ 1,29 milhão. Valor claramente insuficiente para dar conta de iniciativas relacionadas à proteção de crianças e adolescentes, à valorização da diversidade e ao enfrentamento da violência e de todas as formas de discriminação, entre outras.

“Politicamente, acaba sendo mais vantajoso apoiar a construção ou a compra de algum equipamento, tanto que a aquisição de transporte escolar é, dentre as ações exclusivas para a infância e a adolescência, a que tem mais recursos”, avalia Oliveira.

Segundo ela, o estudo não deixa dúvidas de que é necessário pautar a revisão da legislação relativa ao volume de gastos destinados às emendas parlamentares, de modo a possibilitar maiores recursos discricionários para políticas sociais. “A função do parlamentar é pensar na legislação, fiscalizar o governo e não executar o orçamento”, afirma.

Motivos para justificar essa revisão, aliás, não faltam. Só neste ano estão previstos um total de R$ 51,5 bilhões em emendas parlamentares. Dinheiro que poderia ser investido em políticas de enfrentamento às desigualdades, à prevenção da violência e aos principais problemas sociais do país que não são poucos e afetam, especialmente, nossas crianças e adolescentes.

*Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em verde-limão O MÊS É DO CLIENTE. e em branco A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua.. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos, e ao lado, uma árvore estilizada em verde-limãoMão segurando um smartphone com aplicativo de notícias exibindo manchetes e produtos, ao lado do texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua em fundo verde-escuro, com um ícone de árvore no canto superior direito
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).