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Balanço Social

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Um olhar diferente para as desigualdades do Brasil

Educação sob ataque: cresce a violência contra professores no Brasil

Agressões físicas, xingamentos e intimidações crescem desde 2010; 74% dos professores dizem não se sentirem seguros na escola

Por Andréia Peres 4 ago 2026, 08h00 | Atualizado em 4 ago 2026, 08h57
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No final de junho, a professora Michele Ramos registrou um boletim de ocorrência depois que um aluno colocou uma lâmina de vidro em seu copo de água durante uma aula de Ciências para uma turma do 8º ano, em uma escola municipal de São José dos Campos (SP).  Longe de ser um fato isolado, o caso da professora, que chocou o país e cujo desabafo foi noticiado por VEJA, trouxe à tona um debate urgente e necessário: a violência contra educadores.

Segundo pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP), de 2025, com 1.144 professores, 65% dos entrevistados afirmam já ter sofrido algum tipo de agressão no ambiente escolar e 74% não se sentiam seguros em sala de aula. A violência verbal é a mais frequente (71% das agressões), seguida pela psicológica e moral (58%), institucional (27%) e física (19%).

Pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 2024, corrobora esses dados. Quase a metade dos professores brasileiros (47%) disseram que sofrer intimidação ou abuso verbal por alunos era uma fonte relevante de estresse, ante uma média global de 18%.

A violência contra professores não é um fenômeno novo, mas vem aumentando nos últimos anos. “A partir de 2010, os casos de violência contra educadores só crescem”, diz Fernando de Araújo Penna, coordenador do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (Onve), da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista exclusiva à coluna.

Diretor da Faculdade de Educação da UFF, Penna considera como principais marcos históricos dessa violência a controvérsia do kit Escola sem Homofobia, em 2011, o ativismo religioso conservador para proibir abordagens da temática de gênero e sexualidade nas discussões sobre os planos nacional, estaduais e municipais de educação, a partir de 2014, e a onda de projetos “Escola sem Partido”, entre 2014 e 2018.

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O AVANÇO DA PERSEGUIÇÃO

Criado em 2023, o Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es,  da UFF, tem acompanhado o avanço da perseguição contra professores, uma forma de violência que se expressa em práticas como tentativas de intimidação, censura, exposição nas redes sociais e assédio jurídico.

Segundo estudo publicado pelo grupo, em 2025, nove em cada dez educadores já tiveram contato direto ou indireto com atos desse tipo. O questionário foi respondido por 3.012 professores de todos os níveis e etapas da educação em todo o país.

Entre os casos de contato direto, 58% dos educadores relataram tentativas de intimidação, 41% sofreram questionamentos agressivos sobre seus métodos de trabalho e 35% enfrentaram proibições explícitas de conteúdo. Os respondentes também relataram agressões verbais e xingamentos (25%), mudança forçada do local de trabalho (12%), remoção do cargo ou função (11%) e mesmo agressões físicas (10%).

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OS PROFESSORES FAZEM SEU TRABALHO COM MEDO

De acordo com o pesquisador, esse fenômeno envolve tanto escolas públicas quanto particulares e parece estar muito vinculado a momentos de tensão política em âmbito nacional, como o impeachment e as eleições presidenciais, uma tendência preocupante que acende um alerta para os pleitos deste ano.

 “Os professores estão ensinando com medo de fazer o seu trabalho de acordo com as diretrizes curriculares, com a legislação vigente no Brasil”, lamenta, citando um caso que aconteceu recentemente em São Paulo.

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Sancionada há mais de 20 anos, a lei 10.639 e, mais tarde, a lei 11.645 tornaram obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena nas escolas de ensino fundamental e médio de todo o país. Cumprindo a legislação, uma professora dos anos iniciais do ensino fundamental abordou em sala de aula a mitologia iorubá, presente nas religiões afro-brasileiras, e foi ameaçada pelo pai de uma das alunas, um policial. Ao ver o desenho que a sua filha fez de uma divindade iorubá (orixá), o homem alegou imposição religiosa e chamou viaturas e agentes armados à instituição de ensino.

“A professora só estava fazendo o que é obrigada por lei a fazer”, reforça o coordenador do Observatório, ressaltando o impacto negativo dessas violências no ensino e na aprendizagem. “Isso impacta não apenas a liberdade de ensinar, mas também a de aprender”, avalia.

Outro tema importante que vem sofrendo repressão nas escolas é a orientação sexual. “No Brasil, a maior parte dos casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes acontece dentro do espaço privado e, muitas vezes, é graças à discussão sobre temáticas vinculadas a essa violência que esses casos são denunciados”, alerta Fernando Penna. “Ao discutir esse assunto nas escolas, não se quer destruir a família tradicional. Falar sobre isso é justamente desnaturalizar e combater a violência contra as mulheres, que é outra temática obrigatória.”

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Desde a sua criação em 2006, a Lei Maria da Penha já previa, em seu Artigo 8º, a promoção de conteúdos relativos aos direitos humanos, à equidade de gênero e de raça ou etnia e à violência contra a mulher.

Mesmo discussões sobre a importância das vacinas já sofreram censura na sala de aula. “Uma professora entrevistada contou que, no interior do Rio de Janeiro, a diretora de um colégio tentou impedir um de seus colegas de falar sobre o assunto, justificando que não haveria doutrinação ideológica de vacinação na sua escola”, conta.

“Esse é o tamanho da loucura”, desabafa o coordenador do Observatório. “Quando o professor não tem segurança de fazer o seu trabalho, que é o que a pesquisa revelou, o principal prejudicado é o estudante que vai deixar de ter acesso a conhecimentos científicos e a outras culturas”, alerta.

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Para o pesquisador, o quadro hoje é “bastante desafiador” e frequentemente ignorado. “O desconhecimento de que isso é uma realidade nas escolas e nas universidades é muito grande”, afirma. “Muitas pessoas, inclusive do Judiciário, olham para mim e dizem: ‘isso realmente está acontecendo? Na minha época os professores eram tão respeitados’.”

O ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA CONTRA OS PROFESSORES

O coordenador do Onve-UFF acredita que são necessárias redes de acolhimento e políticas de valorização docente para enfrentar esse cenário de violência crescente.

Segundo o estudo, quase um terço dos educadores (32%) indicou não ter tido qualquer acolhimento na escola. Também sugere que o Disque 100, canal oficial do governo federal para receber, analisar e encaminhar denúncias de violações de direitos humanos, tenha um protocolo específico para atender esse tipo de denúncia.

No início deste mês, o MEC publicou uma portaria instituindo a Política Nacional de Educação em Direitos Humanos nas Instituições de Ensino. Um dos principais eixos da portaria é justamente o de proteção e defesa dos profissionais da educação.

Como as pesquisas apontam que a violência contra os professores cresce no período eleitoral, a partir do mês que vem, já estarão em funcionamento um Observatório Regional da Violência contra Educadoras/es em cada região do país. Criado em parceria com o MEC, o Observatório Regional será focado no acolhimento de professores e professoras que passaram por situações de violência. A metodologia foi desenvolvida pelo Observatório Nacional e prevê um acolhimento interdisciplinar, com profissionais de Educação, Direito e Psicologia.

Nos últimos anos, os educadores se transformaram em alvo, afetando não apenas o direito de ensinar, mas também o de aprender. A recente Política Nacional de Educação em Direitos Humanos é necessária e precisa ser implementada com urgência, como mostram os números preocupantes dos estudos. Para melhorar a educação no país, é preciso, antes de mais nada, respeitar e valorizar os professores.

*Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.

 

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