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Se ainda é de Cabral, por que Vaccarezza não visita o parceiro condenado à prisão domiciliar pelas manifestações de rua?

O SMS enviado por Cândido Vaccarezza a Sérgio Cabral, reproduzido acima, foi mais que uma prova de amizade: foi um caso de polícia. Naquele 17 de maio de 2012, durante a sessão no Congresso, o deputado federal do PT prometeu ao parceiro do PMDB que o empreiteiro Fernando Cavendish não seria interpelado na CPI do […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 05h46 - Publicado em 18 jul 2013, 19h56

O SMS enviado por Cândido Vaccarezza a Sérgio Cabral, reproduzido acima, foi mais que uma prova de amizade: foi um caso de polícia. Naquele 17 de maio de 2012, durante a sessão no Congresso, o deputado federal do PT prometeu ao parceiro do PMDB que o empreiteiro Fernando Cavendish não seria interpelado na CPI do Cachoeira sobre as relações perigosíssimas entre a Delta e o governador do Rio. Consumado no mesmo dia, o cambalacho permitiu a Cabral seguir sonhando com noitadas em Paris. A Turma do Guardanapo escapara de mais uma.

A prova material do crime não se limitou a reiterar que o parlamentar do PT paulista trata a pontapés os valores morais, as normas éticas, os bons costumes e o Código Penal. O recado cafajeste também desmascarou um feroz inimigo da língua portuguesa. O sumiço dos dois pontos entre preocupe e você, somado ao uso simultâneo de tu e você, desnuda um torturador da gramática. E a amputação do s na última palavra do “nós somos teu” avisa que Vaccarezza se juntou ao chefe Lula na guerra de extermínio movida contra o plural.

Não é pouca coisa. E não foi tudo. A mensagem revelou também que o cruzamento do PT com o PMDB atravessava outra zona de turbulência. E reiterou que, para o partido que no século passado vivia reivindicando o monopólio da ética, o casamento consanguíneo deixou de ser obrigatório. Até a descoberta do mensalão, devotos da seita só podiam relacionar-se intimamente com gente do rebanho. Transferida do templo das vestais de araque para o bordel da base alugada, a companheirada foi liberada para cair na farra com qualquer parceiro.

Antes do escândalo do mensalão, Vaccarezza não escaparia da expulsão sumária por ter cometido dois crimes hediondos: adultério interpartidário e violação do primeiro dos mandamentos instituídos no dia da fundação do partido em 1980 ─ e declamado de meia em meia hora por José Dirceu: “O PT não róba e não deixa robá”. Agora rouba e deixa roubar. Defeito virou virtude. Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Só é feio perder eleição.

Vaccarezza nem ficou ruborizado com a descoberta de que no peito da bandidagem também batia um coração. Com a placidez dos que se consideram condenados à impunidade, acariciou o PMDB com uma imaginosa reinterpretação da mensagem. “Vai azedar, podia azedar… ali foi um momento de irritação meu”, fantasiou. E se negou a discutir a relação com Cabral. “Eu não quero declarar”, espancou a gramática de novo. “Isso é uma correspondência privada. Eu não vou contribuir para mostrar a outra parte da conversa. É uma correspondência privada entre duas pessoas”.

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“Bonito, o amor”, resumiria o grande Zózimo Barroso do Amaral na legenda sob a foto da dupla. Os velhos jornais sensacionalistas repetiriam a manchete politicamente incorretíssima: PACTO DE MORTE ENTRE ANORMAIS. Num Brasil que já não se surpreendia com nada, o único castigo imposto a Vaccarezza por editores de jornais e revistas foi a infiltração de um sic depois de teu.

A brandura da punição animou o deputado a celebrar o assassinato da CPI do Cachoeira com outro afago no melhor amigo do governador fluminense. “Aquela foto foi editada, a dos lenços na cabeça”, mentiu. “Aparece uma mão que ninguém sabe de quem é. Eu sei o que tem nas fotos inteiras, mas não vou falar também”.

Um ano e dois meses depois do derramamento digital, a dupla continua oferecendo provas sucessivas de que delinquentes de nascença não têm cura. Vaccarezza (sempre em companhia de um bando escalado pelo PMDB) faz o que pode para piorar o Brasil na comissão incumbida pelo presidente da Câmara, Henrique Alves, de cuidar da “reforma política”. Nesta semana, por exemplo, gastou a voz explicando que a doação eleitoral sem recibo ajuda a combater a corrupção. Continua o mesmo.

O governador do Rio também. Tanto que resolveu atribuir aos partidos de oposição a contagiosa novidade do inverno carioca: acampar diante do prédio no Leblon onde mora  e passar a maior parte do dia contando em voz alta quem é Sérgio Cabral, o que fez, o que faz e o que fará se a polícia e a Justiça deixarem. Nenhum dos dois mudou. O que mudou foi a paisagem política, dramaticamente subvertida pela revolta da rua.

Condenado à prisão domiciliar por manifestações de protesto reprisadas diariamente, o governador está proibido até de aparecer no Antiquarius, logo ao lado, pendurar no pescoço o babador com o distintivo do Vasco e engordar mais um pouco com outro prato de bacalhau. Se ainda é de Cabral, por que Vaccarezza ainda não apareceu para uma visita, sobraçando uma quentinha do restaurante preferido do encarcerado?

Talvez por desconfiar que até o bacalhau daria um jeito de ressuscitar para sugerir a Cabral, aos berros, que use como esconderijo o porão de algum palácio e deixe os vizinhos em paz.

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