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Augusto Nunes

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Roberto Pompeu de Toledo: À espera

Com pensamentos soltos no ar, em vez de fumaça, esta coluna espera ─ o quê?, quando? Em todo caso, espera

Por Augusto Nunes Atualizado em 30 jul 2020, 20h51 - Publicado em 4 jun 2017, 19h08

Publicado na edição impressa de VEJA

A grandeza da renúncia ofereceu-se pela primeira vez a Michel Temer no dia do impeachment de Dilma Rousseff. Se abdicasse de seus direitos de vice naquela ocasião, teria aberto caminho para eleições das quais surgiria um presidente aben­çoa­do pelo voto popular e com um mandato de mais de dois anos pela frente. A grandeza da renúncia surgiu-lhe pela segunda vez no dia em que foram divulgadas suas conversas com Joesley, um dos dois “fabulous Batista boys“, como os chamou a revista The Economist. Os benefícios, tanto para o Brasil como para ele próprio, não seriam amplos como da vez anterior ─ para mal do país o sucessor já não viria por eleição direta, e para mal dele próprio o gesto não lhe apagaria fatídica conversa da biografia. Seria um gesto de grandeza, de todo modo. Como as ofertas de grandeza não costumam aparecer a toda hora, e como Temer já desperdiçou duas, vai ficar sem elas.

Ponto da conversa entre Temer e Joes­ley que tem sido pouco enfatizado é o do “Henrique”. “Como você está com o Henrique?”, pergunta Joes­ley. “Tá muito bem. Tranquilo”, responde Temer. “Henrique” é o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que Joes­ley trata com a sem-cerimônia de quem o teve por quatro anos a serviço de suas empresas. Os dois o elogiam, ele seria “trabalhador”, “disciplinado”, para em seguida Joes­ley ir ao que interessa. Diz que falou com Henrique sobre o Banco Central e Henrique se esquivou (“Ah, no Banco Central o Ilan [Goldfajn] faz as coisas”); falou sobre o BNDES, e de novo Henrique se esquivou (“Lá é do Planejamento”). Abordou mudanças no Cade (“Eu falei pro Henrique, é importantíssimo ter um presidente do Cade ponta firme”) e na CVM (“o presidente tá troca e não troca)” – e também foi em vão. Eis os órgãos de controle econômico e financeiro do Estado brasileiro expostos como num frigorífico, e Joesley reclamando que queria a picanha e não lhe deram, queria a maminha e não o ouviram. Para remediar a situação, pede um “alinhamento”; quer que Henrique saiba que suas demandas estão alinhadas com o desejo do presidente. “Pode fazer isso”, diz Temer.

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É difícil avaliar a quantas um homem público é movido pela preocupação com o papel na história. Em Getúlio Vargas, o mais radical renunciante da história brasileira, tão radical que à renúncia do poder acrescentou a da vida, é de adivinhar que o papel na história pesou, além do cálculo de encurralar os adversários. A grandeza da renúncia enfrenta, na mente do político, adversários tenazes — a volúpia de mandar, o gozo sensual de ser adulado, a comodidade da vida nos palácios, o prazer inebriante de ter um mundo a seus pés. Isso para falar só na mente dos políticos honestos. Os desonestos ainda têm como adversário da grandeza da renúncia grandeza da fortuna que a posição lhes permite acumular. No cálculo de Temer a renúncia seria uma confissão de culpa, e ele não se sente culpado. Claro, há o caso de Rodrigo Rocha Loures, o emissário de Temer flagrado com uma mala contendo 500 000 reais. Mas Rodrigo, explicou o presidente, é um moço “de boa índole”.

Procura-se um presidente. Na hipótese de, à falta de renúncia, Temer ser renunciado, o país depara com um caso extremo, “nunca visto na história”, de dificuldade de achar alguém para o papel. “Olhem para minha cara, minha idade”, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na semana passada, ao incluir-se fora da lista. “Não contem comigo”, disse o ex-muitas coisas Nelson Jobim. O jornalista Ricardo Kotscho sugeriu contratar Barack Obama, ora desempregado. Se para seleção de futebol nada impede contratar técnico estrangeiro, por que não para uma função quase tão importante, como a Presidência da República? Outro desempregado de bom currículo é o uruguaio José Mujica, que entrou e saiu do governo morando na velha casa e dirigindo o velho Fusca. O problema é que anda aproveitando o ócio para vir prestigiar reuniões do PT.

“Fumando espero”, diz uma velha canção. Com pensamentos soltos no ar, em vez de fumaça, esta coluna espera ─ o quê?, quando? Em todo caso, espera. Para terminar, se continuasse valendo a proibição que por uns dias interditou o Instituto Lula, sob a alegação de que ali tiveram lugar tenebrosas transações, agora seria hora de interditar o Palácio do Jaburu

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