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Radiografia de uma fraude (1): o histórico da guerrilheira tem mais codinomes do que tiroteios

“Senhora ministra Dilma Rousseff, minha camarada de armas”, assim José Dirceu saudou a herdeira do cargo na abertura da cerimônia do adeus à Casa Civil. “Ela é uma companheira de lutas e, como eu disse, uma camarada de armas”, reincidiu no meio do palavrório o figurão despejado do cargo por não saber ocultar direito as […]

Por Augusto Nunes 16 nov 2009, 14h41 | Atualizado em 31 jul 2020, 16h25
Radiografia de uma fraude (1): o histórico da guerrilheira tem mais codinomes do que tiroteios Priorizar nos meus resultados Google

Dilma

“Senhora ministra Dilma Rousseff, minha camarada de armas”, assim José Dirceu saudou a herdeira do cargo na abertura da cerimônia do adeus à Casa Civil. “Ela é uma companheira de lutas e, como eu disse, uma camarada de armas”, reincidiu no meio do palavrório o figurão despejado do cargo por não saber ocultar direito as provas do crime. ”Lutamos contra a ditadura militar de armas na mão. Lutamos pela redemocratização do Brasil de peito aberto”.

Animado com a salva de palmas, o orador caprichou na pose de primeiro da turma no cursinho intensivo de guerrilha em Cuba. Dilma manteve o semblante severo de quem entrou em Havana no primeiro dia de 1959 ao lado de Fidel Castro. Se esses dois tivessem escoltado Che Guevara na selva boliviana a história seria outra, emocionaram-se na plateia veteranos heróis da resistência que hoje lutam pela prosperidade alistados no exército dos bolsistas da anistia.

O País do Carnaval não estabelece limites nem prazos de validade para a fantasia, constatou outra vez o Brasil que vê as coisas como as coisas são. Na discurseira de junho de 2005, por exemplo, Dirceu travestiu de soldados da democracia dois devotos de seitas que pretendiam trocar a ditadura militar pela ditadura comunista, e tinham tanto apreço pela liberdade quanto um carcereiro nazista.

“A VAR- Palmares é uma organização político-militar de caráter partidário, marxista-leninista, que se propõe a cumprir todas as tarefas da guerra revolucionária e da construção do Partido da Classe Operária, com o objetivo de tomar o poder e construir o socialismo”, confessava já nas primeiras linhas o panfleto de apresentação de uma das quatro siglas frequentadas por Dilma em três anos de militância clandestina. Mas quem faz o que fez Dirceu não fica embaraçado por tão pouco, e o falatório seguiu seu curso.

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Sempre fantasiado de democrata, o capitão do time expulso de campo pelo mensalão aproveitou a troca de guarda no primeiro escalão para celebrar a troca de chumbo que não houve. O guerrilheiro diplomado com o codinome Daniel só foi visto de armas na mão nas aulas práticas do cursinho ─ para disparar balas de festim, porque não se desperdiça chumbo em combates imaginários. De volta ao Brasil, assustou-se com o tamanho da confusão e preferiu entrincheirar-se por trás do balcão do Magazine do Homem, em Cruzeiro do Oeste. Em vez de comprar brigas perigosas, esperou a anistia vendendo roupas masculinas.

O histórico da guerrilheira urbana registra mais codinomes que tiroteios. Entre meados de 1967 e janeiro de 1971, a mineira Dilma Vana Rousseff Linhares foi Estela, Vanda, Patrícia e Luiza. Nenhuma participou diretamente de ações armadas. Dilma aprendeu a montar e desmontar uma arma, mas jamais apertou um gatilho fora da aula. ”Ela não era uma figura de muito destaque”, disse Carlos Minc, que também se filiou à VAR-Palmares. Logo será convidado a retocar a frase: Dilma acha que fica melhor no retrato com um trabuco na mão.

“Não gosto de falar sobre isso”, diz com voz inconvincente quando ouve perguntas sobre os velhos tempos. Não há nenhum relato épico a fazer. Num filme inspirado no assalto ao cofre do governador Adhemar de Barros, por exemplo, a atriz escalada para o papel de Dilma jogaria no time dos coadjuvantes. Segundo relatórios da polícia, coube-lhe administrar a distribuição de dinheiro, providenciar esconderijos e comprar um Fusca. Dilma só admite a aquisição do carro. O tom de voz insinua que fez coisas de que até Deus duvida.

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“Ela é uma das molas mestras dos esquemas revolucionários”, decidiu o delegado Newton Fernandes na coleção de perfis deliberadamente superlativos de militantes da VAR-Palmares. Convinha valorizar a supressão de qualquer retrato nos cartazes dos procurados. O promotor militar, encarregado de denunciar a organização, venceu o festival da hipérbole ao enxergar na jovem de 22 anos ”a Joana d’Arc da subversão”, “a papisa da guerrilha”, “uma figura feminina de expressão tristemente notável”.

Presa em janeiro de 1970, Dilma foi submetida a torturas e ficou três anos na cadeia. Nesse período, mais de 100 presos políticos foram embarcados para o exílio em troca da libertação de embaixadores sequestrados. Ninguém considerado importante ficou fora das listas de prisioneiros a resgatar. Ela não entrou em nenhuma. A saga da guerrilheira capaz de ousadias assombrosas é tão veraz quanto o doutorado em economia na Unicamp.

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