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Para Japi, com um beijo e uma lágrima

Moacir Japiassu ─ grande jornalista, romancista de finíssima linhagem e meu amigo do peito ─ morreu na manhã desta quarta-feira. Para que os leitores conheçam um pouco da figura admirável que o país perdeu, reproduzo o prefácio que tive o privilégio de escrever para Quando Alegre Partiste, seu terceiro livro de ficção. Adeus, querido Japi. […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 00h10 - Publicado em 4 nov 2015, 22h15

moacir japiassu

Moacir Japiassu ─ grande jornalista, romancista de finíssima linhagem e meu amigo do peito ─ morreu na manhã desta quarta-feira. Para que os leitores conheçam um pouco da figura admirável que o país perdeu, reproduzo o prefácio que tive o privilégio de escrever para Quando Alegre Partiste, seu terceiro livro de ficção.

Adeus, querido Japi. Um beijo e uma lágrima. (AN) 

A conquista da cidade começa pela vitória no campo. A tese moldada por grupos comunistas e vitoriosa na China em 1949 nunca vingara no Brasil. Sabe-se agora que pode dar certo caso seja utilizada por guerrilheiros da literatura com a têmpera e o talento do escritor Moacir Japiassu.

O país constatou há pouco tempo que o jornalista brilhante era um romancista na clandestinidade. Paraibano confiscado pelas metrópoles do Sul quando mal saíra da adolescência, não demorou a ganhar fama e respeito entre craques da imprensa. O Nordeste produzira um repórter de seleção brasileira, admirável domador de letras, capaz de capturar a palavra exata com a naturalidade certeira do sertanejo que laça a rês fugidia. Poucos aprendem a enxergar a fronteira difusa que separa a mordacidade do deboche, o sarcasmo da grosseria sem graça. Japiassu nasceu sabendo onde fica.

Desde sempre fez bonito nas redações. Como saber que aquele muito ainda era pouco? Como perceber o truque, a patranha, o disfarce do estrategista na preparação da guerra marcada para a virada do milênio? Até que Japiassu, entrincheirado no lado paulista da Serra da Bocaina, senhor da fortaleza batizada de Sítio Maravalha, lançou A Santa do Cabaré. E os barulhos no sertão começaram.

A multidão de personagens concebidos pelo extraordinário inventor de tipos foi posta em movimento no fim de 2002, mas transferida para os tempos do Estado Novo de Getúlio Vargas e para um universo visceralmente rural. Até cego de feira entendeu que por trás daquilo havia um comandante singular. Havia. O guerrilheiro homiziado no Maravalha tem cabelos de fogo, fogo nas ventas e virtudes tão raras quanto as marcas de nascença.

O escritor Moacir Japiassu cavalga o idioma com a destreza de amansador de potros. Reproduz diálogos exatamente como fala a gente do lugar, com regionalismos que incorporam incorreções gramaticais sem jamais escorregar na caricatura. Conta histórias no ritmo veloz do cantador de emboladas, com a dicção perfeita que permite a qualquer ouvinte tudo entender.

O enredo do romance se apoia na saga de uma bela jovem que, nascida em berço esplêndido, vira prostituta. Ao longo da narrativa, surgem no caminho da quenga ilustre, em tramas costuradas paralelamente, esquisitices e exotismos que só imaginações poderosas conseguiriam produzir. O fotógrafo que abandona o emprego na prefeitura e se transforma em perigoso cangaceiro. O prefeito da cidadezinha que é tão doido de pedra que aciona um canhão antigo só para ver se funciona. O beato que, para evitar tanta sangueira na guerra iminente entre a polícia e o cangaço, escava um providencial desfiladeiro usando apenas os poderes que Deus lhe deu. Fora o resto.

Tanta gente inventada parece insuficiente para Japiassu: ele expropria da vida real personagens que, com a alma redesenhada, aumentam a confusão ao reencarnarem no mundo delirante cuja capital é o cabaré do lugarejo e se estende por imensidões calcinadas. Nesse cenário se consuma a conquista da caatinga, consolida-se o domínio do sertão. Anexadas tais paragens, o senhor do Maravalha partirá para a invasão de cidades maiores, para incursões por terras distantes. Mas sabe que a guerra no campo não terminou.

Esse momento veio no crepúsculo de 2003, com o lançamento de Concerto para Paixão e Desatino. Para adonar-se do campo e preparar o avanço sobre as cidades, Japiassu empreendeu um movimento de causar inveja ao mais audacioso tenente da Coluna Prestes. Em vez de seguir além do Estado Novo aprisionado nas páginas de A Santa do Cabaré, preferiu recuar no tempo. E, simultaneamente, avançar no espaço.

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Ele rege o Concerto… seguindo partituras montadas sobre episódios verídicos ocorridos no prelúdio da Revolução de 1930. Mantém sob estreita vigilância os coronéis do açúcar e o cotidiano nos engenhos. Mas agora, sempre a bordo de personagens reais ou imaginários, Japiassu circula pela capital da Paraíba (que ainda não se chama João Pessoa), cruza a divisa de Pernambuco, explora ruas ou becos do Recife. E vai adicionando armas ao diversificado arsenal exibido nos combates do livro anterior.

Constata-se, por exemplo, que ninguém sabe xingar tão vigorosamente quanto as criaturas de Moacir Japiassu. Que poucos casais literários conseguem amar-se com tamanha sensualidade. Que cabe na palma da mão a lista de escritores brasileiros capazes de reapresentar com tanta nitidez atores da história brasileira quase desconhecidos pela maioria dos leitores.

Especialmente impressionante é o retrato, pleno de matizes, que ressuscita José Américo de Almeida, escritor dos bons, chefe político admirado e temido, além de secretário de Segurança do governo de João Pessoa ─ o João Pessoa cujo assassinato assinala o clímax do romance. Pode-se captar o tom autoritário da voz do Doutor Zé Américo, mirar-lhe os olhos míopes camuflados por lentes grossas, acompanhá-lo na movimentação que precede a cilada, seguir-lhe os passos no último trecho do caminho.

Nesse Nordeste conflagrado, movem-se personagens que compõem o riquíssimo painel humano enxergado pelo autor. Há os canalhas absolutos, mas quase todos os tipos reiteram que, para Japiassu, não existem heróis sem pecados, pois mesmo seres detestáveis são capazes de gestos generosos.

Não há como catalogar, baseado em códigos simplificadores, o menino sertanejo filho de padre, que assovia como se abrigasse uma orquestra no peito, absorve partituras enormes depois de ouvi-las uma única vez, gosta de ler relíquias bibliográficas, seduz a professora protegida do coronel e, quando necessário, tortura com incomparável selvageria e mata com injeções de conteúdo apavorante, valendo-se de conhecimentos assimilados como farmacêutico aprendiz.

Japiassu não procura decifrá-lo, como não tenta explicar os mistérios do mundo. Ele é um contador de coisas. Mostra João Pessoa ou João Dantas, como todos os outros, com a nitidez que a compaixão relativiza. O ponto final do romance é a senha para o encerramento dos barulhos no campo. A próxima etapa da guerra será travada em frentes urbanas, e no Brasil de 1964.

O alvo principal é o Rio de Janeiro, que deixara de ser capital mas se mantinha como centro político do país. Naquele universo circulam, expressando-se sempre com naturalidade no português acariocado da classe média nativa, nos dialetos dos migrantes, no jargão dos jornalistas ou na linguagem da caserna, tanto a coluna avançada da guerrilha quanto os encarregados de neutralizá-la. Terminada a leitura de Quando Alegre Partiste, fica evidente que o romancista agora domina a cidade.

Paradoxalmente, o triunfo deve ser creditado a um exército de vencidos. Ou grupo, porque nesta obra há menos atores em cena. Eles vão desembarcando nas páginas com método e minúcia, liderados por figuras que, como o Tutu Caramujo de Drummond, cismam na derrota incomparável, ou logo estarão cismando. Inspirado no golpe militar de 1964, e em torno dele costurado, o romance inclui didáticos recuos no tempo. Flashes precisos, por exemplo, revisitam a morte da jovem Aída Cúri. Assim reproduz a tragédia que agitou o Brasil em 1958 e, simultaneamente, exibe uma das faces do Rio ainda capital da República.

As tramas envolvem personagens fictícios e reais, recurso utilizado com notável habilidade nos romances anteriores. Mas desta vez Japiassu foi bem mais longe. Ele se valeu do artifício para implodir limites, cruzar divisas demarcadas pela tradição, fundir territórios ou figuras. Fica difícil até saber se a principal figura, a quem Japiassu dedica o livro, existiu de verdade ou foi inventada.

Nem é fácil acreditar, quarenta anos depois, que aquele Brasil perturbador e inquietante, aquele país tão estranho de fato existiu. Quando tudo parece fantasioso demais – quando se contempla um general que subjuga adversários indefesos ou conquista objetos do desejo ainda nas fímbrias da adolescência –, Japiassu devolve o leitor à realidade com transcrições de notícias divulgadas nas edições de jornais da época. Aquilo aconteceu.

Ou não? Ou apenas em parte? Ou de modo um pouco diferente? Induzir leitores a esse tipo de flutuação é uma graça concedida só a grandes escritores. Com ela Japiassu foi contemplado pelos deuses da literatura.

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