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Os vendedores de nuvens tentam esconder a falência do sistema de ensino público

PUBLICADO EM 14 DE SETEMBRO DE 2011 Em setembro de 2010, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) comprovou que o Brasil tem 14,1 milhões de analfabetos com mais de 15 anos de idade. A imensidão de gente que sequer distingue uma vogal de uma consoante aumenta perturbadoramente quando somados os que só conseguem […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 10h47 - Publicado em 14 set 2011, 01h05

PUBLICADO EM 14 DE SETEMBRO DE 2011

Em setembro de 2010, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) comprovou que o Brasil tem 14,1 milhões de analfabetos com mais de 15 anos de idade. A imensidão de gente que sequer distingue uma vogal de uma consoante aumenta perturbadoramente quando somados os que só conseguem rabiscar a assinatura. Em agosto, a Prova ABC constatou que mais de 50% dos alunos matriculados na terceira série do fundamental não são alfabetizados. Nesta semana, os resultados do Enem-2010 revelaram que 53% dos estudantes das escolas públicas estão abaixo da média. Em cada dez unidades da rede oficial, oito foram reprovadas.

Um trecho da crônica de Lya Luft na mais recente edição de VEJA, reproduzida na seção Feira Livre, escancara a falência do sistema educacional.  “Metade das crianças brasileiras na terceira série do elementar não sabe ler nem escrever. Não entende para o que serve a pontuação num texto. Não sabe ler horas e minutos num relógio, não sabe que centímetro é uma medida de comprimento. Quase a metade dos mais adiantados escreve mal, lê mal, quase 60% têm dificuldades graves com números. Grande contingente de jovens chega às universidades sem saber redigir um texto simples, pois não sabem pensar, muito menos expressar-se por escrito. Parafraseando um especialista, estamos produzindo estudantes analfabetos”.

Atropelados pelo país real, os vendedores de nuvens refugiaram-se no Brasil Maravilha registrado em cartório. “A presidente não está insatisfeita com as notas”, declamou Cândido Vaccarezza, líder do governo no Congresso e confidente de Jaqueline Roriz. “Nós atingimos a meta, é um dado positivo”. Só se a meta for a criação do maior viveiro de analfabetos funcionais do planeta. “Não há uma iniciativa, uma bala de prata que vai ferir de morte a baixa qualidade”, caprichou no palavrório o ministro Fernando Haddad. “Existem ações articuladas voltadas para a qualificação da escola”. Com embalagens variadas, a mesma discurseira se repete há oito anos e meio. “Cansei de falas grandiloquentes sobre educação, enquanto não se faz quase nada”, escreveu Lya Luft. “Falar já gastou, já cansou, já desiludiu, já perdeu a graça”. A grande escritora falou por todos os brasileiros que já não suportam a conversa fiada dos camelôs de si próprios.

“É praticamente impossível ter piorado a qualidade da educação na escola pública”, anda choramingando Fernando Haddad. A frase mal costurada confirma que, como tudo no sistema de ensino, também os ministros ficaram bem piores. Só estudei em escolas públicas. Haddad se formou em escolas particulares. Passei quatro anos no velho Grupo Escolar Domingues da Silva em companhia de dezenas de alunos pobres. Ou paupérrimos, como os que vinham caminhando, descalços, dos sítios e fazendas onde sobreviviam. No fim do segundo ano, como os filhos da classe média de Taquaritinga, também os meninos da roça sabiam ler, escrever e falar. Todos sabíamos.

Nenhum professor nos ensinou que falar errado está certo. Nunca fomos autorizados por livros supostamente didáticos a espancar a língua culta. No terceiro ano do curso primário, nós não pegava os peixe. Nós pegávamos peixes. E assim acabamos aprendendo a pescar as palavras corretas, caçar conhecimentos e escapar das sombras da ignorância.

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