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Augusto Nunes

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Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.
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Fabrício Carpinejar falou por nós sobre a tragédia anunciada pela passagem das bestas que precedem nossos apocalipses

Estava anestesiado para uma microcirurgia quando se consumou em Santa Maria a tragédia precedida pela passagem das bestas que já anunciaram tantos apocalipses brasileiros: de novo, a Corrupção, a Ganância, a Inépcia, a Incúria, a Insensatez e a Impunidade conspiraram para interromper tão prematuramente quase 250 vidas. Só algumas horas depois fui confrontado com a […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 06h59 - Publicado em 28 jan 2013, 13h43

Estava anestesiado para uma microcirurgia quando se consumou em Santa Maria a tragédia precedida pela passagem das bestas que já anunciaram tantos apocalipses brasileiros: de novo, a Corrupção, a Ganância, a Inépcia, a Incúria, a Insensatez e a Impunidade conspiraram para interromper tão prematuramente quase 250 vidas. Só algumas horas depois fui confrontado com a extensão do drama que terminou para centenas que se foram, apenas começou para milhares que ficaram e estará para sempre riscado a fogo na memória de milhões de brasileiros.

Sobre a madrugada de horror em Santa Maria, o poeta e cronista Fabrício Carpinejar, no texto abaixo reproduzido, falou por nós. Sobre o absurdo como rotina, falemos pelos mortos. Eles só poderão descansar quando forem definitivamente domadas as bestas dos nossos apocalipses.  (AN)

A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDAS

Fabrício Carpinejar

Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.

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A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.

Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.

A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.

As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.

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Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.

Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.

Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.

Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

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Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.

Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.

Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?

O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.

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A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos e quarenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.

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As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.

Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido.

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