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Editorial do Estadão: O caso Marielle Franco

A polícia diz que o caso é complexo e, até que haja certeza sobre a autoria do crime, é provável que continuem a abundar teorias das mais diversas

Por Augusto Nunes 13 mar 2019, 17h56 | Atualizado em 30 jul 2020, 19h54
Editorial do Estadão: O caso Marielle Franco Priorizar nos meus resultados Google

A prisão de dois suspeitos do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco é importante desdobramento numa investigação que já se arrasta há um ano e que, por todo seu simbolismo, acirra os já crispados ânimos políticos do País. A solução desse rumoroso caso, que chocou e ainda choca os brasileiros, é imperiosa não apenas para esclarecer o crime em si, mas pela necessidade de desarmar os oportunistas que dele se aproveitam para seu proselitismo ideológico.

Contudo, até que haja certeza sobre a autoria do crime ─ e sobre quem mandou executá-lo ─, é provável que continuem a abundar teorias das mais diversas, alimentando toda sorte de denúncias destinadas a comprometer este ou aquele adversário político, considerando que a vítima era vereadora do PSOL e ativista de direitos humanos. É preciso que haja tranquilidade e firmeza, por parte das autoridades, para conduzir as investigações a salvo dessas pressões.

O próprio perfil dos suspeitos presos ontem certamente será suficiente para alimentar muitas especulações sobre suas reais motivações. Segundo a Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), ligado ao Ministério Público, o autor dos disparos que mataram a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foi o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, de 48 anos. O outro detido é o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, que estaria dirigindo o carro usado para emboscar Marielle.

A participação de dois policiais, conforme a denúncia, sugere ligação com as chamadas milícias ─ organizações criminosas formadas por policiais que aterrorizam favelas cariocas e que vêm ganhando poder político no Rio de Janeiro.

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As milícias tiveram súbita notoriedade nacional de uns tempos para cá não somente pela suspeita de ligação com o assassinato da vereadora Marielle, mas pela descoberta de que um de seus integrantes mais perigosos, Adriano Nogueira, foi empregado no gabinete de um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, quando este era deputado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Nogueira é um dos chefes da milícia Escritório do Crime, de onde se suspeita que tenha partido a ordem para matar a vereadora Marielle. O País ficou sabendo também que essas milícias haviam sido objeto de seguidas homenagens tanto de Flávio como de Jair Bolsonaro ao longo de suas carreiras como parlamentares.

Um dia antes da prisão dos dois suspeitos do assassinato da vereadora Marielle, o presidente Jair Bolsonaro foi às redes sociais para atacar ferozmente a imprensa em razão da cobertura do escândalo envolvendo as movimentações suspeitas na conta bancária de outro ex-funcionário de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz ─ que teria sido o responsável pela contratação do miliciano Adriano Nogueira. Para o presidente Jair Bolsonaro, os jornalistas ─ ele citou em particular a repórter do Estado Constança Rezende e também o pai da jornalista, o repórter de O Globo Chico Otávio, especializado na cobertura das milícias cariocas ─ querem derrubar seu governo.

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Ao presidente da República recomenda-se um pouco mais de prudência, a mesma que é requerida das autoridades policiais que investigam o caso da vereadora Marielle Franco. É preciso ir a fundo antes de tirar quaisquer conclusões. É preciso, por exemplo, explicar como um policial reformado como Ronnie Lessa, um dos suspeitos da morte de Marielle, era dono de uma confortável casa num condomínio de classe média alta na Barra da Tijuca ─ o mesmo condomínio onde o presidente Jair Bolsonaro também tem casa ─, ganhando apenas R$ 8 mil mensais.

São muitas perguntas ainda por responder. Após um ano de investigação, que incluiu a análise de milhares de dados telefônicos e centenas de ligações, a polícia diz que o crime foi “muito complexo” e que tudo está apenas no começo ─ especialmente no que diz respeito aos possíveis mandantes do crime. “A segunda fase será mais difícil”, disse o delegado do caso. Ou seja, ainda não é possível afirmar nada, razão pela qual é preciso serenidade por parte de todos ─ a começar pelo presidente da República.

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