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Dilma acabou poupada do naufrágio numa noite em que foi mais Dilma que nunca

No primeiro bloco do debate, Dilma Rousseff não conseguiu completar uma única resposta no prazo combinado nem formular uma só frase sem espancar a gramática. Talvez por falta do que dizer, o desrespeito ao tempo diminuiu nos quatro blocos restantes. Em contrapartida, aumentou extraordinariamente o desrespeito ao português, associado à sequência impiedosa de atentados à […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 14h37 - Publicado em 6 ago 2010, 03h12

No primeiro bloco do debate, Dilma Rousseff não conseguiu completar uma única resposta no prazo combinado nem formular uma só frase sem espancar a gramática. Talvez por falta do que dizer, o desrespeito ao tempo diminuiu nos quatro blocos restantes. Em contrapartida, aumentou extraordinariamente o desrespeito ao português, associado à sequência impiedosa de atentados à lógica, à inteligência e à verdade. Na noite da estreia , a debatedora Dilma Rousseff foi o que tem sido Dilma Rousseff em comícios, entrevistas ou recados pelo twitter: um barco à deriva na iminência do naufrágio.

A performance confirmou que uma esquadra de sumidades que agrupa marqueteiros, consultores políticos, figurinistas, fonoaudiólogos, cabeleireiros, dermatologistas e outras modernidades pode até traçar a rota certa, mas não consegue levar a algum porto seguro embarcações irremediavelmente avariadas. Entre o “sem sombra de dúvidas” que abre a frase e a sílaba parada no ar que a encerra sem conseguir completá-la há um deserto onde só florescem sopas de letras insossas —  “isso é muito importante”, “eu considero isso fundamental” — e rapapés ao amo e senhor. Não é possível reescrever um discurso sobre o nada. Em política não existem milagres.

Sem nada a perder, veterano de muitas derrotas, Plínio de Arruda Sampaio foi dispensado pela extensa milhagem eleitoral da apresentação de sintomas de nervosismo ─ e de ideias plausíveis. Órfã do PT e pouco à vontade na nova família ideológica igualmente em busca de identidade, Marina Silva tornou-se mais confusa. Bastou a José Serra um desempenho sofrível para ser melhor que os outros. Surpreendentemente tenso no início do debate, não demorou a recuperar a serenidade. Mas faltou o ânimo combatente sem o qual nenhuma performance será brilhante.

Serra deveria ter encurtado a procissão de estatísticas, buscado o confronto com Dilma mais energicamente e com mais frequência. Claramente superior à adversária, passou ao largo de temas que teriam dilatado a diferença. Permanentemente à beira do colapso verbal, Dilma esqueceu frases que tentou decorar, consultou papeis de 20 em 20 segundos, estacionou em vírgulas à procura da palavra que, repentinamente, sumira dali. Poderia ter afundado na mudez se instada a discorrer sobre as ligações incestuosas com as Farc, o casamento indecoroso com o Irã, os escorregões na mitomania, a parceria obscena com corruptos juramentados, o convívio promíscuo com a esquerda psicótica, a cumplicidade bandida com os mensaleiros, a usina de dossiês cafajestes, a opção preferencial pela mentira. Fora o resto.

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Talvez não se deva esperar muito de um debate emparedado por regras e ritos que imploram pela aposentadoria. Quem ligou a TV no meio de algum bloco pode ter chegado ao intervalo sem descobrir que assistia a um debate. É preciso modernizar a fórmula ─ e, para tanto, é preciso remover com urgência o bolor e as teias de aranha que se acumulam na legislação eleitoral. O eleitorado merece o direito de acompanhar um duelo real entre os principais concorrentes.

Os poucos momentos que lembraram algo parecido com um debate, de todo modo, permitiram vislumbrar o que acontecerá quando Serra e Dilma travarem um duelo genuíno, com tempo suficiente para réplicas e tréplicas, livres de tantas amarras que proíbem o bom combate. A amostra desta quinta-feira confirmou que Dilma não escapará do nocaute. Basta que o oponente esteja disposto a desfechar o golpe que encerra a luta.

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