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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Deonísio da Silva: Toma que o filho é teu

A expressão pode ser aplicada também para parlamentares que não querem assumir a paternidade de votações que tragam embutidos prejuízos ao público

Por Augusto Nunes Atualizado em 8 out 2017, 15h45 - Publicado em 8 out 2017, 11h22

Todo filho bastardo nasceu de esforços extraordinários de seu pai e de sua mãe na vivência de amores tidos por ilícitos. Mas, se a mãe quase sempre o assume, não se dá o mesmo com o pai.

As classes sociais ilustram um caminho que logo se bifurca para filhos bastardos de ricos e filhos bastardos de pobres. Dá muito trabalho e inspira cuidados o filho bastardo do rico, por ameaçar a herança dos legítimos. O filho do pobre às vezes deixa de dar trabalho até mesmo para a sua mãe.

Ele se transforma logo no que está dito na expressão “menor abandonado”, que é de uma crueldade ímpar, pois que, como lembrou Darcy Ribeiro, não existe bezerro abandonado, cordeiro abandonado, cavalo abandonado etc. Provavelmente não exista nem mesmo galinha abandonada, pato abandonado e, mais recentemente, nem cachorro, gato ou outros animais domésticos abandonados.

Mas desde o século XVI, há brasileiros abandonados, menores ou maiores.

A maior evidência do abandono é um mecanismo de madeira conhecido por “roda dos expostos”. Tal como o confessionário, inventado por um carpinteiro medieval para que confessor e confidente não se vissem nem se tocassem porque poderiam nascer da solidariedade do abraço pecados ainda maiores do que aqueles que eram cochichados e acolhidos para o perdão, a peça giratória embutida em parede lateral de hospitais, de igrejas e de conventos era instalada de tal modo que não eram vistos nem a mãe ou o pai que abandonava a criança, nem a monja ou o frade que a recebia. Ao lado havia um pequeno sino para anunciar que havia um berço, uma caixa ou outro recipiente com uma criança, em geral um recém-nascido.

Entre os motivos de a criança ser abandonada ali estavam os seguintes: pobreza dos pais, mães solteiras, crianças nascidas com deformidades, filhos nascidos da união fugaz de filhas ricas com empregados da família etc.

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Alguns pais, mormente as mães, certamente vivendo tragédias interiores de destripar a alma inteira, deixavam bilhetes onde prometiam resgatar os abandonados e informavam nome, data de batismo, baldas, manhas ou outras peculiaridades.

Apesar de haver registros do cuidado das crianças sem lar na Roma Antiga desde o século XII, as primeiras rodas de expostos do Brasil foram instaladas apenas no século XVIII, havendo registro delas em Santa Catarina e na Bahia.

As crianças abandonadas eram negras ou descendentes de negros, na maioria dos casos. Não somente “Mateus” não tomou os filhos que eram seus – a rima serviu apenas para memorizar a recomendação do ditado – como também suas esposas não quiseram saber deles.

Apenas na década de 90 do século passado foi que o Brasil criou o Estatuto da Criança e do Adolescente, ensejando o surgimento de instituições que às vezes não servem aos menores, mas aos graúdos que ganham dinheiro, poder ou prestígio com eles, usando-os para perpetuar ganhos, privilégios e posições políticas tidas por avançadas.

“Toma que o filho é teu”, “Quem pariu Mateus que o embale”, “Mateus, primeiro os teus” e outras expressões de domínio conexo migraram rapidamente para o rico terreno das metáforas, existindo até mesmo no tenebroso reino da política, onde são aplicadas a iniciativas de parlamentares que não querem assumir a paternidade de votações, projetos ou ações que tragam embutidos prejuízos ao distinto público.

Nestes casos, entra outra expressão muito cara ao fabulário brasileiro: filho feio não tem pai. Se não têm pai nem os bonitos, como atestam as rodas dos expostos, imagine os feios!

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