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Celso Arnaldo volta em grande forma e captura um manuscrito do neurônio solitário

DILMA, DE VOLTA DAS FÉRIAS: ENTRE A VIDA E A MORTE Celso Arnaldo Araújo “Meu caro Ivan, a vida, como você escreveu, é pior que a morte; acreditar nisso nos dá força para compartilhar cultura e construir um país melhor…” Revelada por Ancelmo Gois, em sua coluna em O Globo deste domingo, parece ser esta […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 09h48 - Publicado em 8 jan 2012, 22h51

DILMA, DE VOLTA DAS FÉRIAS: ENTRE A VIDA E A MORTE

Celso Arnaldo Araújo

“Meu caro Ivan, a vida, como você escreveu, é pior que a morte; acreditar nisso nos dá força para compartilhar cultura e construir um país melhor…”

Revelada por Ancelmo Gois, em sua coluna em O Globo deste domingo, parece ser esta a segunda amostra escrita do dilmês, único idioma da história do homem (e da mulher, diria Dilma) falado por um único usuário ─ a primeira fora descoberta, no ano passado, no livro de ouro do Parque do Exército de Terracota, em Xian, na China, e ainda aguarda a formação de um conselho multinacional de experientes protolinguistas para ser devidamente decifrada.

Trata-se, segundo Ancelmo, de cartão manuscrito enviado por Dilma ao acadêmico Ivan Junqueira, após a leitura entusiasmada de seu livro “Poesia Reunida”, aliás publicado em 2005, premiado com o Jabuti em 2006 e aparentemente só agora, durante as férias na praia de Inema, degustado pela presidente que já devorou mais livros que os cupins da biblioteca do Palácio do Planalto durante os oito anos de Lula.

Uma leitura ainda superficial da “Mensagem a Ivan”, como a peça vem sendo denominada pelos filólogos que dela já tomaram conhecimento com grande espanto, certamente exigirá uma exegese (com o perdão do trava-língua) muito mais rigorosa do que o “Protocolo de Xian” em dilmês, que culminava com o triunfal “O povo brasileiro e o governo brasileiro dão seu apreço e sua homenagem a essa grande realização da humanidade pelo povo chines”, assim mesmo, sem circunflexo, o chapeuzinho chinês.

A dificuldade adicional de interpretação dessa segunda manifestação do dilmês rupestre começa pelo próprio teor do pensamento que inspirou a mensagem presidencial, atribuído por Dilma a Ivan Junqueira, a menos que Ancelmo Gois tenha se equivocado na transcrição: “A vida é pior que a morte”.

Isso pode ser verdade plena em diversas circunstâncias – como para o exército de noias-zumbis de São Paulo ou para os sobreviventes que perderam tudo, de novo, na segunda edição do Temporal Cabral na região serrana do Rio.

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Mas, como poesia, “A vida é pior que a morte”, além de sua eufonia canhestra, imperdoável aos bardos de ofício, soa como máxima de um niilismo rudimentar, ainda mais grotesco se vindo da pena de um poeta magnífico como Junqueira ─  mas, conceda-se o benefício da dúvida, pode até ter sido “escrito” por ele, quem sabe num bilhete respingado de spleen à la Baudelaire enviado a Dilma por ocasião do primeiro aniversário de seu trágico governo. Receio, porém, não encontrar esse verso em “Poesia Reunida” ou em toda a vasta obra desse poeta maior e tradutor de T. S. Eliot, ocupante da cadeira 37 da ABL, como sucessor de João Cabral de Melo Neto.

Ok, Junqueira é um escritor obcecado por temas como a morte, a eternidade e o absoluto. Ele afirma inclusive se dedicar particularmente a um “estar-para-a-morte”, na busca acadêmica da compreensão sobre nossa finitude. Mas, no fim das contas, é tudo para consagrar a vida, como se vê nestes versos de “A Sagração dos Ossos”, que integram “Poesia Reunida”:

“Sagro estes ossos que, póstumos,

recusam-se à própria sorte,

como a dizer-me nos olhos:

a vida é maior que a morte”.

Espere! Junqueira então escreveu que a vida é “maior” que a morte, não pior. Agora, sim, há poesia. Será que Dilma, leitora voraz, sempre atenta e incapaz de errar uma citação, se confundiu pela primeira vez? Ou foi Ancelmo quem trocou as bolas? Mas isso não encerraria o caso. Se Dilma saudou Junqueira por escrever que viver é pior que morrer, e concorda com ele, como sugere seu cartão, por que voltou a Brasília? Se, na verdade, ela quis escrever (ou escreveu no cartão, vá lá) “maior”, em vez de “pior”, por que diabos “acreditar” que a vida, sendo maior que a morte, “nos dá força para compartilhar cultura e construir um país melhor”? Será que foi a Ana de Hollanda que escreveu o cartão? Provavelmente, não: pior ou maior, soa Dilma mesmo.

Ainda dizem que Dilma lê tudo o que lhe cai às mãos ─ mas tudo indica que tudo lhe cai das mãos antes da leitura.

Presidente: nunca discuta a morte com um imortal que a senhora nunca leu. Ele fala de cadeira ─ a 37, no caso.

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