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Alguém cometeu um crime. O país quer saber quem é o criminoso

A biografia do sociólogo César Benjamin proíbe que se tente enquadrá-lo em qualquer dos  figurinos impostos a quem não se submete ao presidente Lula. Não é louro, nem tem olhos azuis. Não é paulista, e portanto jamais será um granfino quatrocentão. E a trajetória desenhada desde a adolescência passou a distâncias cósmicas das paragens onde conspiram, segundo o serviço […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 16h20 - Publicado em 27 nov 2009, 22h49

A biografia do sociólogo César Benjamin proíbe que se tente enquadrá-lo em qualquer dos  figurinos impostos a quem não se submete ao presidente Lula. Não é louro, nem tem olhos azuis. Não é paulista, e portanto jamais será um granfino quatrocentão. E a trajetória desenhada desde a adolescência passou a distâncias cósmicas das paragens onde conspiram, segundo o serviço de desinteligência do PT, reacionários de alta periculosidade a serviço da elite golpista.

César Benjamin filiou-se a um grupo clandestino de extrema-esquerda aos 15 anos, atravessou os dois seguintes metido na luta armada, foi preso aos 17, torturado durante meses e expulso do país aos 22. Voltou do exílio aos 24, ajudou a fundar o PT aos 26 e foi um dos coordenadores das duas primeiras campanhas presidenciais de Lula. Rompeu com o partido em 1995, transferiu-se mais tarde para o PSOL e figurou como candidato a vice-presidente na chapa de Heloísa Helena.

Aos 55 anos, as semelhanças entre o editor da Contraponto e um direitista ortodoxo são tantas quanto as existentes entre a Amazônia e o sertão do Piauí. Mas também há a separá-lo da esquerda governista o fosso que começou a ser escavado em 1994 e aprofundou-se dramaticamente em 2005, quando César revelou, num programa da TV Bandeirantes, que deixara o PT por ter testemunhado a origem (e ter fracassado na tentativa de neutralizá-la) do escândalo do mensalão.

Em 1993, contou, Lula dispensou-se de consultas e conversas para indicar o representante da CUT no Conselho do Fundo de Assistência ao Trabalhador, o FAT. Cabe aos conselheiros decidirem onde, quando e como serão investidos os muitos milhões movimentados mensalmente pela entidade. O chefe resolveu deslocar do semianonimato para o empregão um companheiro goiano que dava aulas de aritmética a crianças do curso primário e lições de greve a marmanjos inexperientes. Chamava-se Delúbio Soares.

Ainda no início da campanha de 1994, César descobriu que Delúbio, com truques e artifícios ilegais, vinha transferindo do FAT para o PT quantias com dígitos suficientes para deixar excitado um banqueiro americano. Confiante na discurseira sobre valores éticos, relatou o que sabia aos mandarins do partido. Terminada a narrativa, espantou-se com a serenidade dos ouvintes. Ficou mais espantado ao ouvir de Lula e José Dirceu que, “em nome do partido”, deveria esquecer o assunto.

Ignorou a recomendação até render-se às evidências de que denunciara um delinquente aos mandantes do crime. Em 1995, despediu-se de Lula com um aperto de mãos e uma advertência: “Isso aí é o ovo da serpente”.  Era mesmo, soube-se dez anos mais tarde. A trama exposta por César nunca foi desmentida ou retocada pelos acusados. Todos submergiram no silêncio que consente, endossa ou autoriza.

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Nesta sexta-feira, num longo artigo publicado na Folha, César Benjamin surpreendeu o país com dois parágrafos extraordinariamente mais explosivos que a grave revelação sobre as primeiras anotações no prontuário de Delúbio. O cenário é uma sala na sede do PT em São Paulo:

Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: “Você esteve preso, não é Cesinha?” “Estive.” “Quanto tempo?” “Alguns anos…”, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: “Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta”.

Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o “menino do MEP”, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do “menino”, que frustrara a investida com cotoveladas e socos.

O artigo merece ser lido na íntegra, mas os dois parágrafos resumem a ópera assombrosa. “Coisa de psicopata”, revidou Gilberto Carvalho, secretário da Presidência. Quem o conhece  não tem motivos para duvidar da sanidade mental do articulista. Mentira!, berraram incontáveis devotos de Lula. O publicitário Paulo de Tarso, numa carta pouco afirmativa, confirmou o encontro, mas avisa, numa linguagem torturada, que não se recorda de ter visto César entre os presentes.

Em 2004, o correspondente do jornal The New York Times, Larry Rohter, quase foi expulso do Brasil por ter registrado que o presidente gosta de beber. Confrontados com as linhas publicadas pela Folha, 99 em 100 leitores previram que César, pela altíssima voltagem do relato, não se livraria de retaliações muito mais severas que as planejadas contra o repórter americano.

Erraram: até agora, Lula não emitiu qualquer sinal de quem pretende ao menos acionar judicialmente o acusador. Para Gilberto Carvalho, fazer isso seria “sujar-se”.  É certo que, com ou sem processo, o autor do artigo está obrigado a provar o que afirmou. Mas ninguém se suja lavando a honra. E não há como varrer para baixo do tapete uma interrogação de tais dimensões. O Brasil ─ e com mais ênfase o Brasil que presta ─ vai exercer o direito de conhecer a verdade.

Sabe-se que houve um crime. Falta saber quem é o criminoso. Se o acusador mentiu, é César. Se não mentiu,  é Lula. Seja quem for o culpado, não pode escapar do castigo.

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