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“2005, o ano que não existiu”, reportagem publicada na edição impressa de Veja

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA “Nós não herdamos nada, nós construímos”, discursou a presidente Dilma Rousseff, no palanque da festa organizada pelo PT, em São  Paulo, para celebrar os dez anos do partido no poder. Foi o “decênio que mudou o Brasil”, o “decênio glorioso”, nas palavras da cartilha propagandística distribuída no evento, trazendo o balanço dos avanços econômicos e sociais obtidos nos anos petistas. […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 06h48 - Publicado em 24 fev 2013, 14h07

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA

“Nós não herdamos nada, nós construímos”, discursou a presidente Dilma Rousseff, no palanque da festa organizada pelo PT, em São  Paulo, para celebrar os dez anos do partido no poder. Foi o “decênio que mudou o Brasil”, o “decênio glorioso”, nas palavras da cartilha propagandística distribuída no evento, trazendo o balanço dos avanços econômicos e sociais obtidos nos anos petistas. Na figura de  presidente da República, Dilma soube ser magnânima. Em 2011, em carta enviada ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que  completava 80 anos, ela afirmou que o tucano foi “o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade  econômica” e “essencial para a consolidação da democracia brasileira”. No palanque de candidata à reeleição, Dilma fez ecoar o  discurso de seus partidários: antes do PT, eram o caos e o abismo.

O PT atribui a si conquistas para as quais seu governo pouco contribuiu (veja o quadro abaixo), num típico embaralhamento entre  causas e consequências. O grande feito econômico dos petistas foi preservar a essência da política econômica herdada por eles. Na  verdade, na condução da economia o PT sempre foi mais bem-sucedido quando se manteve longe de suas antigas ideias. É inegável o  avanço do país em inúmeras áreas desde 2003, entre elas a redução contínua da desigualdade e o aumento na renda dos mais pobres.  Mas, em seu discurso no palco da celebração petista, o próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva confidenciou,  inadvertidamente, que precisou assumir uma rota diferente da original para comandar o país. “Passei dez dias sem querer aceitar a  carta, porque tinha de mudar parte da minha história”, afirmou Lula, ao se referir à histórica Carta ao Povo Brasileiro, documento  apresentado durante a campanha eleitoral de 2002 no qual o PT assumia, caso saísse vitorioso, o compromisso de manter os fundamentos econômicos do país, como a estabilidade dos preços, o equilíbrio fiscal e o respeito aos contratos. O PT construiu a partir  daquilo que herdara, colheu os resultados e ganhou as duas eleições seguintes.

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Na economia, o PT acertou ao negar os seus princípios anteriores. Na política, eu-se o inverso. “No exercício do  governo, o PT passou  a compor amplas alianças políticas e sem critério”, afirma o historiador Marco Antonio Villa. “A ética foi jogada na lata do lixo para  priorizar o projeto de assumir o governo e se manter no poder por um longo período. O PT percebeu que isso era possível  estabelecendo alianças com velhos coronéis da política e entregando a eles parcelas do aparelho de estado”, completa Villa. O partido  que se vendia como a última vestal na política brasileira criou o mensalão, o maior caso de corrupção da história brasileira. “O PT  inovou na corrupção”, afirma o sociólogo Demétrio Magnoli. “Antes da chegada do partido ao poder, a corrupção era uma operação fragmentária, não obedecia a um comando central. Com ele aparece uma quadrilha organizada dentro do partido e dentro do governo.  Outra novidade é que, com o mensalão, se procura legitimar o ato de desvio de recursos públicos em nome do progresso do país, pois  é realizado pelo partido que encarna essa ideia.” Sem um pingo de autocrítica, os petistas ignoraram completamente o mensalão nas  comemorações da semana passada. No palanque da festa em São Paulo, Lula discursava que o partido “não tem medo de comparação,  inclusive comparação em debate sobre corrupção”. Na plateia, a atestar o destemor dos petistas diante da Justiça e da opinião pública, os recém-condenados José Dirceu (ex-ministro da Casa Civil), João Paulo Cunha (ex-presidente da Câmara) e José Genoino  (ex-presidente do PT) circulavam pela festa, sempre assediados pela militância. O desejo de reescrever a história ficou explícito em um  mural colocado no Senado, celebrando o decênio petista. O ano de 2005, quando foi revelado o mensalão, foi simplesmente suprimido. Compreende-se a ânsia de sublimar aquele ano — a cada novo depoimento, a cada nova prova, ficava mais nítida a  dimensão do maior escândalo de corrupção da história do Brasil. No fim do ano passado, o Supremo Tribunal Federal condenou 25  envolvidos e selou o veredicto definitivo sobre o mensalão. Para os petistas, 2005 é mesmo um ano para esquecer. Mas os brasileiros  não se olvidam.

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