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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

‘Paixão Oficial’, um artigo de J. R. Guzzo

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA VEJA DESTA SEMANA É provável que no futuro os historiadores interessados em estudar o Brasil desta nossa época dediquem boa parte dos seus esforços para entender um fenômeno singular: o fascínio das pessoas ligadas ao governo, e dos políticos em geral, pelo jatinho. Poucas coisas deixam essa gente toda tão excitada […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 10h56 - Publicado em 29 ago 2011, 18h12

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA VEJA DESTA SEMANA

É provável que no futuro os historiadores interessados em estudar o Brasil desta nossa época dediquem boa parte dos seus esforços para entender um fenômeno singular: o fascínio das pessoas ligadas ao governo, e dos políticos em geral, pelo jatinho. Poucas coisas deixam essa gente toda tão excitada quanto cruzar os céus brasileiros em avião particular, com embarque em separado, horários sob medida e outros confortos não disponíveis nos meios de transporte comuns. É uma atração perigosa, quando se considera quems ão os passageiros e quem são os donos dos jatinhos: os primeiros são homens públicos, que têm obrigação de cuidar dos interesses da população, e os segundos são donos de empresas com negócios junto ao governo, que têm como único propósito cuidar dos próprios interesses. As duas coisas raramente são compatíveis — e por isso mesmo os envolvidos deveriam ficar o mais longe possível uns dos outros. Pode o ocupante de um cargo oficial aceitar presentes de uma empreiteira de obras públicas ou de um fornecedor do governo? Está na cara que não pode. Mas o que acontece no momento é justamente isso.

É no que dá, talvez, sermos um país tão grande — no Brasil tudo é longe, e suas excelências não estão dispostos, em suas viagens, a enfrentar os tormentos do embarque em aeroportos que deveriam melhorar e não melhoram, ou a passar horas socando os rins dentro de um carro ou ônibus em estradas que deveriam conservar e não conservam. Essas coisas são para o “cidadão comum”, categoria de brasileiros criada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que não tem o direito de fazer as coisas que os políticos fazem, desde que sejam do governo ou da “base aliada”. O fato é que, seja lá qual for a razão, viajar em jatinho privado transformou-se numa paixão para o mundo oficial. Os casos pipocam o tempo todo, na crônica política do Brasil petista, popular e governável — algo muito natural, levando-se em conta que o santo padroeiro de todos os jatinhos é o chefe político número 1 do país, o ex-presidente da República. Depois de comprar e usar sem descanso um jatão quando estava na Presidência, medida que ele descreve como patriótica, corajosa e incentivadora do orgulho nacional, Lula não quis mais saber de avião de carreira. Seu meio de transporte habitual, agora, são os jatinhos de empreiteiros e outros colossos do grande capital — ou, na falta deles, como aconteceu há pouco, do deputado Sandro Mabel, veterano do mensalão, sobrevivente de processos por quebra de decoro e réu em ação penal por fraudes fiscais. Atrás de Lula vem um batalhão.

Ainda outro dia, o recém-demitido ministro da Agricultura, Wagner Rossi, foi descoberto como passageiro da Ourofino, empresa que tem negócios diversos junto ao governo. Messe caso, a atraçãoa cabou sendo fatal — o homem já estava cercado pleos quatro cantos, com os mais sombrios tipos de denúncia feitas por VEJA, e a história da carona serviu para encerrar de vez sua carreira ministerial. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, viaja no jatinho do bilionário mundial Eike Batista, e o governador do Ceará, Cid Gomes, no do industrial de calçados Alexandre Grendene. Na semana passada, a revista Época revelou que o casal de ministros Paulo Bernardo, das Comunicações, e Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, está entre os passageiros da construtora Sanches Tripoloni, do Paraná, que no ano passado recebeu mais de 250 milhões de reais em pagamentos do governo. (Essa Tripoloni vem de longe. É acusada de superfaturamento no Tribunal de Contas, está metida em um complicado “anel viário” em Maringá e foi apontada como inidônea pelo que fez em outro contorno rodoviário, em Foz do Iguaçu). Também na semana passada, a Folha de S. Paulo informou que o ex-presidente José Sarney, herói da “base aliada”, faz parte do mesmo clube — foi pego usando para lazer pessoal um helicóptero do estado do Maranhão. No caso, o inevitável empreiteiro estava dentro, e não fora, da aeronave; aliás, ele tem contratos de 70 milhões de reais com o governo do estado.

É melhor ir parando por aqui; quem acha que algo está errado nisso tudo é acusado de “moralismo”, ou de armar um “golpe” contra o governo democrático do PT e seus amigos. Na sentença de Lula, sempre repetida, é coisa de gente que não se conforma com a eleição de um operário para a Presidência da República, não aceita que o povo compre carro ou viaje de avião, não quer que o pobre melhore de vida etc. O mundo dos jatinhos, encantado, concorda e bate palmas.

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