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Augusto Nunes

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‘Eleições de suspeitos’, por Ricardo Noblat

PUBLICADO NO GLOBO DESTA SEGUNDA-FEIRA RICARDO NOBLAT Nunca antes na história do Congresso a eleição para presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados reuniu, no mesmo ano, candidatos tão descaradamente suspeitos de corrupção ─ no caso, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Uma vez eleitos, o mais comum […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 06h59 - Publicado em 28 jan 2013, 15h39

PUBLICADO NO GLOBO DESTA SEGUNDA-FEIRA

RICARDO NOBLAT

Nunca antes na história do Congresso a eleição para presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados reuniu, no mesmo ano, candidatos tão descaradamente suspeitos de corrupção ─ no caso, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Uma vez eleitos, o mais comum é que os ocupantes dos dois cargos acabem acusados por crimes menores. Do tipo emprego de parentes.

Houve uma exceção recente: Severino Cavalcanti (PP -PE), conhecido, na época, como o Rei do Baixo Clero, renunciou à presidência da Câmara porque se tornou público, em 2005, que recebera um mensalinho de R$ 10 mil pago por um concessionário de restaurantes. Baixo Clero era a turma dos políticos fisiológicos dedicados a extrair vantagens financeiras do mandato.

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A turma cresceu tanto que a denominação perdeu o sentido. O Senado, que não tinha Baixo Clero, hoje tem. Algum culpado em especial? Bem, José Sarney estava destinado a passar à história como o presidente da redemocratização do país. Goste-se ou não dele, Sarney contribuiu para remover o entulho autoritário deixado por 21 anos de ditadura, e alargou o quanto pôde os limites da liberdade.

Não importa que assim tenha procedido mais por fraqueza do que por força. Poderia ter atrapalhado se quisesse. Não quis. Tinha direito a um mandato de seis anos, por exemplo. Tentaram subtrair-lhe dois anos. Cedeu um. Agora, Sarney parece conde-nado a passar à história como o presidente da desmoralização do Senado. Ninguém presidiu tanto o Senado e influenciou tanto o seu destino, nos últimos 17 anos, como Sarney.

O primeiro mandato dele como presidente do Senado transcorreu entre 1995 e 1997. Sarney fez seu sucessor ─ Antonio Carlos Magalhães, que presidiu o Senado por dois mandatos consecutivos. Renunciou ao segundo mandato para não ser cassado . Violara o sigilo dos votos durante uma sessão . Sarney votou em Jáder Barbalho, Ministro da Previdência Social do seu governo, para suceder a Antonio Carlos.

Acusado de ligação com o desvio de dinheiro do Banco do Estado do Pará, Jáder acabou obrigado a renunciar ao mandato para escapar de ser cassado por quebra de decoro. Edison Lobão, homem de confiança de Sarney, presidiu o Senado em seguida. E aí deu lugar novamente a Sarney entre 2003 e 2005. Renan Calheiros comandou o Senado de 2005 a 2007 apoiado por Sarney.

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Não chegou a completar o mandato: renunciou à presidência para driblar o risco de perder o manda-to de senador . Descobriu-se que o lobista de uma empreiteira pagava a pensão devida por Renan à mãe de um filho dele fora do casamento. Renan tentou provar que tinha gado suficiente para justificar seu patrimônio. A Polícia Federal constatou que não. Na última sexta-feira, o procurador-geral da República denunciou Renan ao Supremo Tribunal Federal por uso de notas fiscais frias.

Por mais duas vezes, Sarney presidiu o Senado – de 2009 até hoje. Renan está prontinho para sucedê-lo. Nada o ajudou mais a se eleger outra vez presidente do Senado do que a CPI do Cachoeira. Ali, ele se empenhou em salvar a pele dos governadores Marconi Perillo (PSDB-GO) e Agnelo Queiroz (PT-DF); de Fernando Cavendish, dono da construtora Delta ; de jornalistas e do próprio Cachoeira. E conseguiu.

A garantia da eleição de Renan para a presidência do Senado e a de Henrique para a presidência da Câmara repousa na identificação irretocável dos dois com a esmagadora maioria dos seus pares.

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