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‘A complexa divisão entre espaço público e espaço privado não consegue vingar no Brasil’, um texto de Antonio Vieira

ANTONIO VIEIRA Maria Antonieta ─ a decapitada ─ se abespinhou com o estranho pedido do populacho faminto: “Ora bolas, se não tem pão, comam brioches”, disse ela com soberba mas com sabedoria. Os mal agradecidos com tão lúcido conselho, no entanto, reagiram com profundo ressentimento e, envenenados pela raiva, levaram a madame à guilhotina. Gente […]

Por Augusto Nunes
Atualizado em 31 jul 2020, 05h50 - Publicado em 4 jul 2013, 18h59

ANTONIO VIEIRA

Maria Antonieta ─ a decapitada ─ se abespinhou com o estranho pedido do populacho faminto: “Ora bolas, se não tem pão, comam brioches”, disse ela com soberba mas com sabedoria. Os mal agradecidos com tão lúcido conselho, no entanto, reagiram com profundo ressentimento e, envenenados pela raiva, levaram a madame à guilhotina. Gente mais sábia teria acatado a recomendação; brioches são muito mais saborosos que o pão imemorial dos ancestrais.

Este exemplo clássico, provindo dos tempos conturbados da Revolução Francesa, mostra que a plebe rude costuma não respeitar devidamente os mandarins governantes. A menos que ela se transforme em um igual a eles. Na versão brasileira talvez fosse melhor dizer malandrins, em vez de mandarins (“os que mandam”), palavra derivada do castiço verbo português mandar, a se crer no relato de Eça de Queirós, em seu delicioso romance homônimo.

Mandarins têm um quê de ritualístico nos gestos e atos. É alguma coisa de intangível, assimilada ao longo de décadas de aprimorado treinamento. Ninguém nasce mandarim. Entretanto, é possível aprender a ser. Não bastam os sinais exteriores que revestem o cargo; eles devem guardar correspondência com a alma, com o sentimento de mundo do personagem. Uma besta de carga, mesmo que revestida de ouro e sedas continuará sendo uma besta com seus zurros, coices e mordidas nos incautos (há exemplares que chegam a dar pontapés, numa incrível demonstração de mau gênio das referidas alimárias).

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Enquanto escrevo observo ali, no canto à direita da página, a imagem de Luiz Inácio fazendo careta, encapuzado com aquele esquisito barrete vermelho cheio de franjas. Malandro velho, ele tem consciência, no fundo, no fundo, de que a toga rubra cobre um corpo e espírito pútridos. O miolo da criatura ─ ele sabe, tem consciência de si ─ é postiço. Luiz Inácio é um farsante e um predador, também nós sabemos, que não tem a embocadura para ser mandarim. Falta-lhe a finesse necessária.

O deputado Henrique Alves, ao contrário, vestido no conforme dos costumes, transitaria com naturalidade por entre os rapapés cerimoniosos de uma velha corte chinesa se, acaso, fosse para lá enviado numa máquina do tempo. Outros mais, similares ao parlamentar potiguar, preenchem da mesma forma os requisitos do mandarinato. Henrique Alves só é exemplificativo; o rol é extenso. O recente caso de uso de avião da FAB para transportar familiares e amigos, de Natal ao Rio de Janeiro, para assistirem ao jogo do Brasil é simplesmente sensacional.

A naturalidade com a qual se serviu dos recursos alheios só encontra similar na China Imperial. Ser, pois, um mandarim nordestino faz parte da personalidade, do complexo de ações que configuram seu cotidiano; algo tão óbvio como o barbear-se diariamente, o levar o bocado à boca, o sentar-se para descansar, o vergar a espinha em saudação a Sua Majestade, o declarar aberta a seção no início dos trabalhos parlamentares, o sentar-se ao vaso para defecar etc., etc., etc.

Mandar vir um avião militar para buscá-lo em Brasília e passar, primeiro, em Natal rumando, em seguida ao Rio de Janeiro onde irá exercitar o patriotismo de torcedor da seleção brasileira (junto com os entes mais queridos, dado que a família vem em primeiro lugar), é somente parte dos inumeráveis etc. É notável. Exercitar-se no papel de mandarim dá ao felizardo o mais puro e absoluto sentimento de onipotência. Ousaria dizer: da própria eternidade! Até o amor é favorecido. O mandarinato, meu amigo, é afrodisíaco (Tancredo ou Ulisses, não me lembro qual, talvez ambos, disseram isso em outras palavras). Tudo a ver: poder e phoder! E, nessas horas, o tempo parece parar; é um dos sortilégios do amor, à semelhança com a música.

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Para aquele vivenciando, no mais profundo do ser, o sentimento da eternidade, é banal, é trivial, fazer a requisição de um bem público para uso particular. Talvez até tenham algum desconforto; mas não pelos motivos que assolariam um homem comum e, sim, por ainda ter que solicitar algo que indubitavelmente tem o natural direito de gozar como queira. Afinal, não é ele um mandarim? A complexa divisão entre espaço público e espaço privado não consegue vingar no Brasil. Há um jogo de sedução promovido pelas estruturas cristalizadas de uma burocracia secular, uma espécie de gafieira de malandro degenerada onde quem está fora, entra, e quem está dentro, não sai.

Você já observou a fantástica movimentação em torno da disputa de cargos públicos na atualidade (obtidos em eleição ou concursos)? Envolve milhões de pessoas e bilhões de reais. Um mercado em que o desejo de ser como Henrique Alves, como algum burocrata nas empresas públicas ou na administração direta do executivo(municipal, estadual ou federal), do legislativo ou do judiciário, em todos os recantos do Brasil não fazem mais que explicitar o comum e secreto sonho: eu quero ser um mandarim! Poucos resistem a tal tentação.

Desconfio que também os clientes das inumeráveis bolsas, inclusive a irrisória bolsa família, consideram as dádivas recebidas dos governos uma obrigação tão natural quanto o considera Henrique Alves o uso de avião da FAB para seu turismo particular: uma bolsa-jato, ou bolsa-gasolina ou bolsa-querosene, sei lá qual o melhor nome. Não me surpreenderia se surgissem por aí, no bojo das manifestações a respeito do trânsito e da mobilidade urbana, reivindicações de bolsa-Mercedes Benz, ou bolsa-BMW.

Chega de Fiat UNO ou Golzinho básico de mil cilindradas. A classe média também quer um pedaço do paraíso.

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