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AL VINO

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As novidades, tendências e delícias do mundo do vinho sem um gole de “enochatismo”. Marianne Piemonte é jornalista, sommelière e empresária do mercado de vinhos.

Vinhos: quem é o enólogo da Catena Zapata cobiçado globalmente

Alejandro Vigil é o responsável pela fama atual dos produtos da vinícola, vários deles premiados com 100 pontos

Por Marianne Piemonte 16 abr 2026, 11h35
Vinhos: quem é o enólogo da Catena Zapata cobiçado globalmente Priorizar nos meus resultados Google

Os brasileiros conhecem bem a Catena Zapata, vinícola argentina que faz grande sucesso por aqui. Nem todos, porém, sabem quem é o responsável por ter elevado às alturas o prestígio da empresa, que alcançou um posição de destaque no disputado mercado internacional. O profissional em questão, Alejandro Vigil, figura no dream team dos enólogos mundiais (uma posição que ele refuta, por pura modéstia). Vigil assumiu no início dos anos 2000 o posto de enólogo da companhia e, desde então, multiplicaram-se os vinhos da Catena com a pontuação máxima (100) nas avaliações de especialistas, feito raro dentre os rótulos produzidos na América do Sul. Por esse motivo, já foi abordado por donos de vinícolas de todo mundo, inclusive brasileiras, pedindo que ele produzisse vinhos com essa pontuação para eles.

Há algo de quase provocador em ouvi-lo falar sobre a razão da fama de suas criações. Ele poderia se acomodar no discurso clássico da excelência, aquele que gira em torno de terroir, precisão e silêncio reverente. Mas faz justamente o contrário. Quando perguntei sobre a dificuldade de fazer um vinho perfeito em um encontro recente em São Paulo, ele desmontou a expectativa de uma resposta padrão com uma naturalidade desconcertante. “Mais difícil do que um rótulo de 100 pontos é fazer um Alamos”, disse. Sim, aquele mesmo, mais acessível, comercial e mais presente nas mesas do dia a dia. Por que produzir um Alamos, que é encontrado por aqui na faixa de 100 reais, representa um desafio maior que os Catena Zapata de 100 pontos, cujos valores superam a casa de 3 000 reais? A explicação vem sem rodeios: “Um grande vinho pode nascer de um lugar excepcional, quase pronto, enquanto os rótulos de maior volume exigem consistência obsessiva, ano após ano, como um quebra-cabeça que precisa encaixar sempre do mesmo jeito. É menos glamour e mais cérebro”. Confira aqui trechos da conversa da AL VINO com o famoso enólogo:

Num mundo em que sobram certezas — e opiniões —, Vigil parece apostar no contrário: menos regra, menos discurso pronto, mais curiosidade. Talvez por isso transite com tanta facilidade entre extremos, dos vinhos que alcançam o topo das listas aos que sustentam o negócio no dia a dia. E, curiosamente, é aí que tudo fica mais difícil — e interessante.

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Talvez venha daí sua pouca paciência para o esnobismo. O enólogo já foi criticado por receber jogadores de futebol e gente sem intimidade com o vinho na vinícola — um pecado, ao que parece, para parte do universo mais sisudo da bebida. Ele rebate com pragmatismo: se alguém com alcance popular descobre o vinho e leva isso adiante, está ajudando mais do que atrapalhando. “Quem compra uma garrafa não é tonto”, me disse, sem muita cerimônia. No fundo, sua defesa é simples: o vinho não precisa de mais barreiras e, sim, de mais alcance e disponibilidade. Por falar em simplicidade, a imagem de Alejandro é um perfeito cartão de visitas para a filosofia que defende. Seu look, composto por cabelo desorganizado, camiseta, bermudas e tênis, contrasta com o perfil dos enochatos mais clássicos e típicos de salão.

Esse estilo despojado é coerente com a trajetória de quem nasceu distante da realeza do mundo dos vinhos. Neto de avós sevilhanos, bascos e libaneses, antes de se tornar um dos nomes mais influentes do mundo do vinho, Vigil era, acima de tudo, curioso — quase obsessivo. “Quando trabalhava no Inta, a Embrapa de Mendoza, gastava metade do meu salário em vinhos e escondia o valor da minha mulher”, contou-me. Em uma de suas histórias favoritas, ele lembra que em 2002, quando ainda não tinha todo esse reconhecimento, bateu a Domaine de la Romanée-Conti, na Borgonha, para tentar entender de perto um dos vinhos mais míticos do planeta. O que aconteceu? “Eles abriram”, lembrou, rindo. Atualmente, a cada dois anos, ele visita a vinícola e é recebido por Aubert de Villaine, coproprietário conhecido mundialmente como “guardião do terroir”. No próximo mês, Vigil deve passar uma temporada em Barbaresco, no Piemonte, a convite de outra lenda do vinho italiano, Angelo Gaja. “Vamos falar sobre os vinhos brancos”, explicou.

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É curioso perceber que, no meio de tanta sofisticação, sua proposta mais radical talvez seja a mais simples: devolver às pessoas o direito de decidir. Em seu restaurante, em Mendoza, prefere servir os vinhos antes da comida, invertendo a lógica clássica da harmonização. “A ideia é que cada um encontre seu próprio caminho, sem manual”, justificou. O almoço na Casa Vigil (El Enemigo) em Mendoza, com menu de três passos e tour, custa de R$ 615 a R$ 800 por pessoa. Mais de 80% do público nas mesas costuma ser brasileiro.

Por falar no Brasil, quando perguntei a Vigil se também achava a produção nacional de vinhos exótica, imagem corrente no restante do mundo, o enólogo fez um interessante paralelo. “A Argentina também já foi considerada assim um dia. Quando eu ia pra Europa e me perguntavam como eu fazia Cabernet Sauvignon na selva, explicava como era o Vale do Uco“, contou-me, referindo-se à região do país aos pés da Cordilheira dos Andes que hoje abriga boa parte da produção de qualidade por lá. “Já estivemos nesse lugar de sermos considerados exóticos e é uma transformação que leva tempo. O Brasil precisa de trabalho para ter identidade, essa é a missão das vinícolas brasileiras hoje”, completou.

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Como se vê, o integrante do dream team dos enólogos mundiais é também craque na diplomacia.

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