Por que um vinho chileno passa por Bordeaux antes de chegar ao Brasil?
O promissor 2024 do Almaviva acaba de ser lançado pela Place de Bordeaux, tradicional ponto de partida para a comercialização de rótulos no mundo
Antes de chegar ao Brasil, o chileno Almaviva faz uma escala em Bordeaux. E, de lá, pode seguir para praticamente qualquer lugar do mundo. É por essa rota pouco convencional que a safra 2024 acaba de ser lançada pela Place de Bordeaux, um dos sistemas mais tradicionais e influentes de comercialização de grandes vinhos do planeta. Por aqui, ainda teremos de esperar alguns meses pela nova safra, mas sua trajetória internacional já começou na última quarta-feira.
Quem veio a São Paulo para apresentar a nova safra foi o francês Michel Friou, enólogo do Almaviva e radicado no Chile há três décadas. Desde o início do projeto, o vinho é comercializado pela Place de Bordeaux — e foi o primeiro de fora da região a entrar nesse sistema, em 1998, abrindo caminho para o ingresso de ícones de outras regiões como Argentina, Itália, Estados Unidos e África do Sul.
Funciona assim: todos os anos, uma determinada quantidade da nova safra é colocada à disposição dos négociants, os grandes comerciantes de Bordeaux que fazem a ponte entre produtores e compradores de diferentes mercados. É uma espécie de passarela internacional do vinho. O produtor apresenta a nova safra, os négociants a distribuem, e o mundo começa a prestar atenção.
No caso do Almaviva, essa escolha tem algo de simbólico. O vinho nasceu justamente do encontro entre duas das grandes tradições do mundo do vinho. Em 1997, a francesa Baron Philippe de Rothschild, proprietária do lendário Château Mouton Rothschild, uniu-se à chilena Concha y Toro para criar um grande vinho no Chile. A ambição era clara: unir o savoir-faire francês às condições excepcionais de Puente Alto, aos pés da Cordilheira dos Andes. Nascia ali um vinho chileno com alma francesa — e uma vocação assumidamente internacional. Quase três décadas depois, a parceria continua funcionando. E a safra 2024 é o capítulo mais recente dessa história.
O território é parte fundamental dela. É em Puente Alto que está a origem das uvas do Almaviva, tendo o Cabernet Sauvignon como protagonista, acompanhado por Carmenère, Cabernet Franc e Petit Verdot. A combinação é uma espécie de tradução líquida das duas culturas que deram origem ao projeto. O Cabernet Sauvignon oferece estrutura e capacidade de envelhecimento. A Carmenère, uva que praticamente desapareceu de Bordeaux e encontrou no Chile uma de suas grandes pátrias, entra com personalidade e ajuda a construir o perfil do corte.
Segundo Friou, a safra 2024 “é elegante, frutada, fresca e tem taninos mais suaves”. Um vinho que pode acompanhar tanto uma massa italiana quanto pratos mais elaborados à base de carne — e que não precisa ficar preso a uma única ideia de harmonização.
Por aqui, enquanto a 2024 não chega, ainda é possível encontrar a safra 2023 e algumas mais antigas. Entre elas, a 2017, que Friou faz questão de destacar, por ter recebido 100 pontos do crítico norte-americano James Suckling. Diante da crise de valores vivida em Bordeaux, a nova safra deve chegar ao mercado pelo valor da anterior (aproximadamente R$ 1800). Por cerca de R$ 600 é possível apreciar a proposta do enólogo com o Epu, o segundo vinho da marca.
É uma boa notícia para os brasileiros. O país é um mercado especialmente importante para o Almaviva. O Chile é a casa do vinho, mas o consumo brasileiro sempre teve peso significativo na trajetória da marca.
Nova grande aposta da vinícola, o Almaviva safra 2024 não parece ter pressa. Pode ser bebida jovem, quando mostra mais fruta e frescor, mas também pode acompanhar o tempo por dez, quinze ou vinte anos. No mundo acelerado dos lançamentos, é uma qualidade quase subversiva. Enquanto algumas garrafas chegam para matar a sede. Outras chegam já pensando no futuro.





