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AL VINO

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As novidades, tendências e delícias do mundo do vinho sem um gole de “enochatismo”. Marianne Piemonte é jornalista, sommelière e empresária do mercado de vinhos.

Por que os vinhos entraram no radar de preocupações da ONU

Evento promovido pela entidade em São Paulo vai mostrar o potencial econômico da bebida para fomentar o turismo e toda uma grande cadeia de outros negócios

Por Marianne Piemonte 24 jul 2026, 08h30 | Atualizado em 24 jul 2026, 17h18
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Uma taça de vinho raramente termina na última gota. Ela continua no quarto de hotel, na mesa do restaurante, na padaria da cidade, na loja de artesanato, no café da manhã da pousada e até no posto de gasolina da estrada. É por isso que, cada vez mais, o vinho deixou de ser visto apenas como um produto agrícola para entrar na agenda do turismo, da economia e do desenvolvimento regional.

Essa é a ideia que está por trás do I Fórum de Enoturismo e Gastronomia das Américas, que reunirá, nos dias 12 e 13 de agosto, em São Paulo, governos, produtores, especialistas e representantes da ONU Turismo para discutir como uma vinícola pode transformar muito mais do que uvas em vinho. “O objetivo é colocar todos os agentes da cadeia na mesma mesa”, explicou Daniel Nepomuceno, diretor de Novos Negócios e Parcerias Público-Privadas da ONU Turismo, em entrevista à coluna AL VINO.

Quando uma rota do vinho se consolida, ela impulsiona hotéis, restaurantes, pousadas, agências de turismo, transportadoras, pequenos produtores rurais, bancos de fomento, companhias aéreas e até atividades aparentemente distantes da viticultura. “O prefeito enxerga uma parte. O produtor enxerga outra. A operadora de turismo, outra. Nosso papel é estruturar essa cadeia como um todo”, completou Nepomuceno.

Quem visita uma vinícola raramente consome apenas vinho. Dorme na região. Almoça em um restaurante local. Compra queijos, azeites, doces, cafés, artesanato. Contrata passeios. Abastece o carro. Gera renda para dezenas de negócios que, muitas vezes, sequer produzem uma única garrafa. Não por acaso, cerca de 80% dos empregos gerados pelo enoturismo permanecem na própria comunidade, segundo dados apresentados pela ONU Turismo durante a preparação do Fórum.

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Outro dado que chama atenção: a maior parte das viagens turísticas no mundo acontece em um raio aproximado de 500 quilômetros da residência do viajante. Isso muda completamente a forma de olhar para o mapa brasileiro. Há poucos anos, falar em enoturismo era quase sinônimo de Serra Gaúcha. Hoje, basta percorrer algumas horas de estrada para encontrar vinícolas em São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Pernambuco, Bahia, Paraná ou Santa Catarina. São projetos que nasceram próximos dos grandes centros consumidores e ajudam a distribuir o fluxo turístico para além dos destinos tradicionais.

Christian Burgos, publisher da revista ADEGA e um dos idealizadores do Fórum, acredita que esse seja justamente o momento de organizar esse crescimento. “O enoturismo representa hoje uma parte importante da estratégia de sustentabilidade das vinícolas. Ele gera receita, fortalece a marca, fideliza consumidores e impulsiona o desenvolvimento das regiões produtoras”, afirmou durante o encerramento do terceiro episódio do Al Vino, na Veja+ TV, que vai ao ar na próxima terça-feira, 28, às 21h.

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O próprio Fórum já nasceu maior do que o vinho. A proposta inicial era discutir rotas vitivinícolas do Mercosul. Mas rapidamente surgiram novos temas. Por que não pensar em rotas do café, conectando Brasil, Colômbia e Costa Rica? Ou do azeite, dos queijos, do chocolate e do cacau? Daniel cita o Peru como um exemplo inspirador. Ao transformar sua gastronomia em um ativo turístico internacional, o país fez do ceviche um símbolo nacional capaz de atrair visitantes do mundo inteiro. A ideia agora é aplicar essa mesma lógica aos territórios produtores das Américas, integrando vinho, gastronomia e identidade cultural.

O Fórum também marcará o lançamento do Guia ADEGA de Rotas de Vinhos das Américas, produzido em parceria com a ONU Turismo. A publicação reunirá roteiros, vinícolas e experiências em diferentes países e será distribuída em português, espanhol e inglês.

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Obviamente, o vinho continua sendo o protagonista de toda essa movimentação, mas já não viaja sozinho. O que está em discussão, afinal, não é apenas turismo. É a capacidade que uma taça de vinho tem de movimentar uma economia inteira. Como resumiu Daniel Nepomuceno durante nossa conversa: “Uma vinícola nunca desenvolve apenas uma vinícola. Ela desenvolve todo o território ao seu redor”. Uma boa definição para o enoturismo. Não se trata apenas de uma viagem para conhecer vinhos, mas uma forma de transformar paisagens, gerar empregos, preservar identidades culturais e criar oportunidades para quem vive da terra.

No fim das contas, uma boa taça nunca conta apenas a história de um vinho. Ela conta a história de um lugar inteiro. Mais do que nunca, vale o convite para essa grande e deliciosa viagem.

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