🔥 Esquenta Black Friday com PREÇO BAIXO! Assine Revista Impressa + Digital Premium e aproveite! 🤑
Imagem Blog

AL VINO

Por Marianne Piemonte Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
As novidades, tendências e delícias do mundo do vinho sem um gole de “enochatismo”. Marianne Piemonte é jornalista, sommelière e empresária do mercado de vinhos.

Família que escondeu seus vinhos dos nazistas enfrenta hoje outro inimigo

Como uma das mais tradicionais casas produtoras da Borgonha, a Maison Joseph Drouhin, está se reinventando para fazer frente aos novos desafios

Por Marianne Piemonte 19 set 2026, 09h38 | Atualizado em 19 set 2026, 09h38
Família que escondeu seus vinhos dos nazistas enfrenta hoje outro inimigo Priorize VEJA no Google

Há histórias de vinho que começam na vinha. A da família Drouhin passa por uma guerra, paredes falsas, túneis subterrâneos e até algumas aranhas. Durante a ocupação nazista da França, Maurice Drouhin, filho de Joseph Drouhin, fundador da Maison Joseph Drouhin, precisou esconder parte dos vinhos mais valiosos da família para impedir que fossem saqueados pelo exército alemão.

Nas antigas adegas da família, em Beaune, na Borgonha, foram erguidas paredes falsas para esconder garrafas raras, entre elas, segundo o relato do livro Vinho e Guerra, de Don e Petie Kladstrup, exemplares de Romanée-Conti. O detalhe que parece saído de um filme é que as novas paredes precisavam parecer antigas. Para isso, a família colocou aranhas sobre elas. As teias ajudariam a dar aos muros recém-construídos a aparência de abandono.

Maurice Drouhin não estava apenas protegendo garrafas, o que já seria bastante nobre. Membro da Resistência Francesa, ele também usou o labirinto de túneis e adegas subterrâneas para esconder combatentes, judeus e refugiados perseguidos pelos nazistas. Quando a Gestapo chegou perto de capturá-lo, escapou por uma passagem secreta e encontrou abrigo no Hospices de Beaune, onde permaneceu escondido até a libertação.

Quase oito décadas depois, a Maison Joseph Drouhin continua sendo uma das grandes referências da Borgonha. E, no recente jantar que tive no começo da semana com Christophe Thomas, diretor de exportação da casa, ficou claro que preservar esse patrimônio hoje exige outro tipo de resistência. “Se não adapta, você desaparece”, resumiu ele, com um leve chacoalhar de cabeça tipicamente francês. A frase vale para uma região em que tradição e mudança climática passaram a dividir a mesma mesa.

Fundada em 1880, a Maison Joseph Drouhin está hoje na quarta geração da família e é uma das poucas casas da Borgonha que reúnem, ao mesmo tempo, a atividade de négociant — eles já compraram vinho no passado, hoje compram apenas uvas — e uma área expressiva de vinhedos próprios: mais de 100 hectares, distribuídos por cerca de 70 appellations. São 15 Grands Crus. Entre os vinhedos mais cobiçados está Montrachet, onde a família tem uma participação importante. É justamente essa diversidade que ajuda a explicar a filosofia da casa.

Continua após a publicidade
Quatro pessoas, três homens e uma mulher, sorriem em frente a uma porta de madeira e uma parede de pedra antiga. O homem à esquerda veste suéter azul e calça preta. A mulher, ao centro, usa camisa estampada, jaqueta creme e calça preta. Os outros dois homens vestem suéteres, um cinza com calça mostarda e outro azul-marinho com calça escura. Todos estão relaxados, alguns com as mãos nos bolsos, em um ambiente rústico com piso de paralelepípedos e janelas gradeadas acima da porta
Laurent, Véronique, Frédéric & Philippe Drouhin: membros da quarta geração da família (Reprodução/VEJA)

Na Borgonha, simplificar demais é quase sempre uma forma de errar. As pequenas parcelas, os solos, as exposições e as diferenças entre as appellations fazem com que poucos quilômetros — às vezes poucos metros — possam produzir vinhos completamente diferentes. A resposta dos Drouhin é um estilo baseado em duas palavras que Christophe Thomas repete como princípios: elegância e precisão.

No entanto, a família não parece muito interessada em transformar tradição em peça de museu. “Não se faz dinheiro com uma colheita, mas com cem colheitas”, disse Thomas. A frase ganhou um exemplo particularmente eloquente durante a nossa conversa. Em 2011, uma safra de uma parcela de Montrachet chegou a ser degustada por alguns Masters of Wine em Londres. Mas a própria família decidiu desclassificá-la.

Continua após a publicidade

O motivo era simples — e, para uma casa da Borgonha, decisivo: os aromas e sabores não pareciam representar aquele Grand Cru. Thomas contou o episódio com uma certa provocação e chamou os Masters of Wine de “new kids on the block”. Diante do conhecimento da família sobre aquele pedaço de terra, os tais mestres do vinho são “os garotos novos do pedaço”, ou seja, uma turma que precisa de muito mais experiência para fazer avaliações definitivas.

A história também ajuda a entender como a família transmite esse conhecimento de geração em geração. Segundo Otávio Lilla, da Mistral, importadora que representa a vinícola no Brasil, as crianças da família Drouhin são treinadas desde cedo a degustar e a reconhecer os diferentes Crus da Borgonha. É quase uma escola dentro de casa. Antes de aprender a vender vinho, aprende-se a reconhecer o que há dentro da taça. Não há certificado internacional que ofereça esse tipo de treinamento.

Na viticultura, os Drouhin trabalham com biodinâmica desde 1988. Mas existe uma curiosa recusa em transformar isso em argumento de marketing. A ideia, segundo Thomas, é não querer estar na prateleira dos “vinhos orgânicos”, mas na prateleira dos bons vinhos. Na Borgonha, cerca de 30% dos vinhedos são cultivados organicamente e 8% seguem princípios biodinâmicos, segundo os dados apresentados durante o jantar. A questão, para a família, é menos ostentar um selo e mais manter uma filosofia de trabalho consistente ao longo das gerações.

Continua após a publicidade

Só que a mudança climática não respeita tradição. Thomas conta que a casa já enfrentou uma safra em que perdeu 90% da produção. O Pinot Noir, paradoxalmente, pode até se beneficiar de temperaturas mais altas. Para os vinhos brancos, porém, o cenário é mais complicado: o aumento das temperaturas pode significar perda de acidez. E isso muda tudo.

A colheita pode precisar acontecer mais cedo. O trabalho no vinhedo muda. As decisões na adega também. Os Drouhin, por exemplo, deixaram de fazer pigeage, a técnica que submerge o chapéu de cascas durante a fermentação, e passaram a privilegiar a remontagem, movimentando o vinho de maneira mais delicada para evitar que ele ganhe potência em excesso.

É uma pequena mudança técnica que diz muito sobre o momento da Borgonha. Até as regras, tão cuidadosamente construídas ao longo do tempo, começam a ser revistas. A possibilidade de permitir novas castas na região está entre os assuntos que ganham espaço diante das transformações climáticas. Para uma das regiões mais classificadas e compartimentadas do mundo do vinho, é quase uma revolução.

Continua após a publicidade

A família Drouhin conhece bem o valor de olhar além da própria fronteira. Foi uma das pioneiras a investir em Chablis, ainda em 1968, quando a região estava longe do prestígio atual. Hoje também está presente em Mâcon e Beaujolais.

E há outra curiosidade: os Drouhin também apostaram no Oregon, nos Estados Unidos, onde ajudaram a construir uma reputação internacional para o Pinot Noir da região. “Nem os americanos sabiam que se produzia uva no Oregon, foi preciso o filme Sideways mostrar isso a eles”, disse Thomas, referindo-se ao famoso longa de 2004.

No Brasil, essa história tem ainda um capítulo particular. A relação entre a Maison Joseph Drouhin e a Mistral começou há 53 anos, praticamente junto com a fundação da importadora. É uma das relações mais longevas da distribuição de vinhos franceses no país.

Continua após a publicidade

E os vinhos da casa não são encontrados em supermercados. A distribuição é concentrada em hotéis e restaurantes pelo mundo, uma escolha coerente com o posicionamento de uma Maison que trabalha com pequenas parcelas, múltiplas appellations e vinhos de alta gama.

A região, aliás, ficou cara — muito cara. E esse é outro paradoxo. Por lá, pequenos produtores têm prioridade na hora de comprar novos vinhedos, mas é raro que consigam fazê-lo, tamanho o investimento necessário. Os Drouhin, por serem grandes proprietários, não têm prioridade em algumas negociações.

Durante a II Guerra Mundial, os Drouhin precisaram esconder seus vinhos para que eles sobrevivessem. Hoje, precisam adaptar seus vinhedos para que eles continuem existindo. Mudou o inimigo. Mudaram as ferramentas. A missão, de certa maneira, continua a mesma: preservar uma identidade sem deixar que ela se transforme em imobilidade.

Porque, na Borgonha, tradição não é fazer tudo como sempre foi feito. É saber exatamente o que não pode ser perdido — e ter coragem para mudar todo o resto.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Capa da revista Veja, um celular e um notebook exibindo o site da revista, sobre fundo preto com texto BLACKFRIDAY repetidoBanner de Black Friday com fundo roxo e preto, exibindo a palavra BLACKFRIDAY repetida. À direita, um laptop prateado com uma imagem de carro na tela, um smartphone com um site de notícias e uma revista Veja aberta com uma foto de comida.
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Essencial

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
ESQUENTA BLACK FRIDAY

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Premium (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).