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AL VINO

Por Marianne Piemonte Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
As novidades, tendências e delícias do mundo do vinho sem um gole de “enochatismo”. Marianne Piemonte é jornalista, sommelière e empresária do mercado de vinhos.

Em um dos grandes hotéis do país, a ordem dela é descomplicar o vinho

Julia Derado é wine director do Rosewood São Paulo, uma posição ainda raríssima entre mulheres nesse universo

Por Marianne Piemonte 13 jun 2026, 12h14 | Atualizado em 14 jun 2026, 09h08
Em um dos grandes hotéis do país, a ordem dela é descomplicar o vinho Priorizar nos meus resultados Google

Por um bom tempo, o sonho de boa parte dos jovens que atingem a maior idade era estar motorizado. Julia Derado fez o caminho inverso, vendeu o dela para estudar vinho. A história aconteceu em 2009. Recém-formada em hotelaria, ela havia descoberto o universo das garrafas enquanto trabalhava no Hilton, em São Paulo. Foi o suficiente para tomar uma decisão que seus pais publicitários provavelmente não imaginavam: desfazer-se do automóvel e embarcar para a Itália.

Começou por Marche, uma região menos conhecida, vizinha da Toscana. Depois, passou pela Grécia, Espanha e França. Voltou ao Brasil decidida a trabalhar em restaurantes. Começou no extinto Kaa, em São Paulo, onde era a única mulher entre quatro sommeliers. Ali, prendeu cedo que conhecimento seria uma ferramenta de sobrevivência. Não eram raras as mesas compostas por senhores que a recebiam com uma pergunta que misturava desconfiança e preconceito: “É você quem vai escolher o vinho?” A provocação quase sempre vinha seguida de um interrogatório sobre uvas, regiões e denominações. Ela respondeu da maneira mais eficiente possível: estudando ainda mais. “Eu sabia que seria testada”, conta.

Vieram depois os anos no badalado Dressing, do empresário e atleta João Paulo Diniz (morto em 2022, vítima de um problema cardíaco) e a aventura de abrir o próprio restaurante, o Ordinário, na Vila Mariana. “Eu acordava às cinco da manhã para comprar ingredientes, preparava um menu de onze tempos, atendia os clientes e ainda lavava a louça no fim da noite”, lembra.

A hotelaria, no entanto, fez um novo chamado. Irresistível, mesmo para a filha de publicitários paulistanos que jurou que nunca trabalharia finais de semana e madrugadas, como cansou de assistir os pais fazendo durante sua adolescência. Após temporadas no Emiliano, em São Paulo, e na abertura do Emiliano do Rio, ela imaginava que terminaria a carreira à beira-mar. Até receber uma ligação de São Paulo.

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O recém-inaugurado Rosewood queria sua volta. Ela recusou. Ligaram novamente, com uma oferta difícil de recusar: “Criamos um cargo para você”, disseram. Era a posição de head sommelier, algo que sequer existia até então. Bastou conhecer o empreendimento para mudar de ideia. “Eu percebi que poderia criar qualquer coisa”, conta. Assim o fez. Carrinhos de vinhos, rótulos próprios, eventos de sustentabilidade e uma abordagem que talvez explique boa parte de seu sucesso: descomplicar.

Em uma cidade que ainda produz alguns dos mais intimidadores sacerdotes de Baco, Julia prefere derrubar barreiras. Ela se diverte, inclusive, em conquistar os clientes mais esnobes. “Quando consigo quebrar essa resistência, é muito prazeroso”, diz.

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Há certa ironia nisso. O hotel mais luxuoso de São Paulo abriga uma das profissionais mais empenhadas em provar que vinho não precisa ser um assunto inacessível. No Taraz, um dos restaurantes do complexo, há rótulos por menos de 350 reais e taças a partir de 39 reais, o que podem ser considerados pechinchas num hotel como aquele.

Quando finalmente tem folga, algo que acontece mais na teoria do que na prática, Julia troca o vinho por saquês, cervejas artesanais e sonhos de uma próxima viagem ao Japão.

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Hoje, Julia Derado é wine director do Rosewood São Paulo, uma posição ainda raríssima entre mulheres no universo da hotelaria de luxo. Em Portugal, por exemplo, apenas Elisabete Fernandes ocupa função semelhante no grupo The Yeatman, no Porto. Em 2019, Julia recebeu a distinção de Dame Chevalier de Champagne, concedida pela Ordem de Champagne, na França.

Aos 41 anos, a mulher que um dia vendeu o carro para estudar vinho na Itália parece estar apenas começando, e a impressão é que Julia ainda está na primeira taça de uma história que promete ser tão longeva quanto os grandes vinhos do Porto.

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