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AL VINO

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As novidades, tendências e delícias do mundo do vinho sem um gole de “enochatismo”. Marianne Piemonte é jornalista, sommelière e empresária do mercado de vinhos.

Terra do vinho de garrafão em SP se reinventa com rótulos de luxo

Empresários do local estão investindo milhões de reais em produtos de alta qualidade e em infraestrutura de turismo de alto padrão

Por Marianne Piemonte 29 ago 2026, 14h06 | Atualizado em 29 ago 2026, 18h43
Terra do vinho de garrafão em SP se reinventa com rótulos de luxo Priorizar nos meus resultados Google

Localizada a 60 quilômetros da capital, São Roque é a região mais tradicional de produção de vinhos do estado. Durante muito tempo, foi associada a produtos adocicados de baixa qualidade, feitos com uva americana e vendidos em garrafões de 5 litros envoltos em treliça. No terreno do turismo, era conhecida por excursões populares realizadas aos domingos. Parecia impossível mudar essa imagem.

Nos últimos anos, no entanto, o panorama vem mudando graças a grandes investimentos. De uns tempos para cá, os produtores locais começaram a investir em vinhos de alta qualidade, que conquistaram medalhas em importantes avaliações. A infraestrutura para visitantes também começou a se sofisticar, de forma a atender o público que vem da capital em busca de conforto e novas experiências. Com isso, a região desponta como uma das promissoras do país em investimentos ligados à viticultura.

Quem lidera essa transformação é uma empresa familiar centenária, o Grupo Góes, que pretende tirar do papel um projeto que combina hotel, condomínio de alto padrão, vinhedos e experiências de enoturismo. A ideia é ocupar parte de uma área de mais de 100 hectares que pertenceu à italiana Cinzano nos anos 1950 и que hoje integra o patrimônio do clã.

Ali será erguido um hotel boutique, com investimento estimado em 15 milhões de reais, além de um condomínio de casas. Toda essa estrutura ficará pronta entre 2029 e 2031. “É para aquela pessoa e para aquela família que gostam de vinho e da boa vida do interior”, explicou Claudio Góes, quarta geração da família, durante uma conversa para o programa Al Vino, exibido na última terça-feira, na Veja+TV .

Confira aqui o episódio:

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O modelo da Góes é inspirado em empreendimentos como o The Vines, em Mendoza, na Argentina. No caso do condomínio, a proposta em estudo prevê que o comprador possa se tornar sócio da vinícola ou aderir a um sistema de assinatura das garrafas produzidas ali, em toda safra. Ao lado do investimento na hotelaria de alto padrão, o conjunto surge por um motivo bastante pragmático: a demanda já existe.

A Góes recebe atualmente entre 5 mil e 6 mil pessoas por fim de semana, número que pode dobrar nos feriados prolongados. Casamentos, confrarias, reuniões corporativas e outros eventos também já fazem parte da rotina da vinícola. O hotel, portanto, que vem nessa boa onda criada pelo enoturismo, é quase uma consequência do movimento que a própria família ajudou a criar.

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De tropeiro a produtor de vinhos

A história começou muito antes de qualquer projeto imobiliário. O bisavô de Claudio, Benedito de Góes, era tropeiro. Levava produtos agrícolas de São Roque para o Mercado da Cantareira, em São Paulo, montado em um carro de bois e voltava com armarinhos para a região. Também produzia vinho de maneira artesanal, como tantas famílias de origem portuguesa que se estabeleceram por ali.

A uva, naquele momento, era mais do que uma escolha gastronômica. Era uma alternativa econômica. O café não havia prosperado como em outras regiões por causa do inverno rigoroso e da altitude. A videira acabou encontrando ali uma oportunidade.

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Foi Gumercindo Góes, filho de Benedito, quem profissionalizou a produção. Nas décadas seguintes, a família cresceu e chegou à quarta geração, representada hoje por Claudio. Mas os Góes não querem viver apenas da memória. A transformação mais interessante talvez esteja na criação da Philosophia.

A história começou em 2014, quando uma estiagem provocou uma maturação excepcional das uvas. O vinho produzido naquela safra apresentou tanta qualidade que ganhou um novo rótulo: Philosophia. Depois veio a dupla poda e a possibilidade de colher uvas no inverno. A qualidade aumentou, vieram premiações internacionais e a família tomou uma decisão: o vinho que havia nascido como um rótulo merecia uma vinícola própria.

Assim, a Philosophia nasceu do vinho — e não o contrário. Hoje, são cerca de 40 hectares naquela propriedade, dos quais 25 a 30 hectares estão dedicados às uvas de colheita de inverno. A produção da linha fica na faixa de 80 mil a 100 mil garrafas anuais.

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É uma escala pequena diante dos cerca de 9 milhões de litros anuais produzidos pelo grupo. Mas é justamente essa diferença que define a estratégia: a Góes mantém sua produção tradicional enquanto a Philosophia experimenta com vinhos de maior valor agregado e pequenos lotes.

A nova fase

A mudança não acontece apenas dentro da vinícola. São Roque é uma das primeiras regiões brasileiras a cultivar uvas, desde o período da colonização portuguesa. Durante décadas, porém, ficou associada principalmente aos vinhos de mesa.

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Agora, a história começa a ganhar outro capítulo. A Philosophia já acumula 16 medalhas na Decanter. E o enoturismo virou uma das grandes forças do negócio.

A colheita ao luar é um exemplo dessas experiências “premium”. Durante algumas semanas do ano, pequenos grupos participam da colheita, seguem para um jantar na sala de barricas e terminam a experiência ao redor de uma fogueira. O projeto chegou a ser apresentado como case na mais recente edição do Fórum de Enoturismo das Américas.

Há também passeios de bicicleta, jornadas de quadriciclo e corridas entre os vinhedos. Uma delas chegou a reunir 1 000 participantes. Agora, a família prepara até uma “maratoma”, uma corrida com vinho inspirada nas chamadas “beer runs”.

Em breve, o espaço onde está a nova vinícola poderá ser também o lugar onde algumas pessoas vão querer acordar entre os vinhedos, tomar café da manhã olhando as parreiras e voltar para casa com algumas garrafas da safra debaixo do braço.

Do carro de boi ao resort entre os vinhedos, a trajetória da família Góes é daquelas que dão orgulho. Uma história construída ao longo de gerações, sem perder de vista o passado — mas sempre mirando o próximo capítulo.

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