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“Verões intensos no Hemisfério Norte estão ligados ao aquecimento do Ártico”

É o que diz a VEJA o geofísico alemão Dim Coumou, autor de estudo sobre o Polo Norte publicado hoje na Science

Estudo divulgado hoje pela revista americana Science concluiu que o aquecimento do Ártico, que ocorre com intensidade duas vezes maior do que em qualquer outro lugar do mundo, é responsável por intensificar verões quentes e secos em países do Hemisfério Norte. O geofísico alemão Dim Coumou, autor do estudo e membro do Instituto de Pesquisa de Impacto Climático de Postdam, conversou com VEJA sobre a descoberta.

Até então, cientistas acreditavam que as estações mais afetadas pelo que acontece no Ártico eram o outuno e o inverno. Por que o senhor e sua equipe decidiram estudar os reflexos no verão? Os cinco cenários diferentes utilizados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) projetam que nós veremos o enfraquecimento da circulação dos ventos no verão até o final do século, mais um efeito das mudanças climáticas. Quisermos analisar os dados coletados nos últimos anos para ver se a previsão já estava acontecendo, e acabamos descobrindo que as observações científicas casam perfeitamente com essas projeções.

Como o aquecimento do Ártico consegue impactar as estações dos países do Hemisfério Norte? O Polo Norte ainda é muito mais frio que o resto do planeta, porém como o aquecimento do Ártico ocorre em um ritmo duas vezes mais acelerado do que no resto do mundo, a diferença de temperatura entre a região e os trópicos está diminuindo. Essa diferença, que chamamos de gradiente de temperautra, regula grande parte da circulação de ar no planeta, com os jatos que ocorrem em altas latitudes. Os jatos, por sua vez, fazem surgir as zonas de baixa e alta pressão que caracteriam o sistema meteorológico dos lugares. O que vimos é que, com a diminuição desse gradiente de temperatura, os jatos de ar enfraquecem, o que faz com que os ventos que levam chuvas para as regiões quentes durante o verão em países do Hemisfério Norte também percam força.

Como exatamente a menor diferença de temperatura entre o Ártico e os trópicos favorece verões secos e quentes? Durante os verões nessas regiões meridionais, como Europa e Estados Unidos, os ventos que vêm dos oceanos para o continente carregam consigo umidade e um ar mais gelado, que acabam se transformando em tempestades. Com o enfraquecimento dos ventos, essa massa de ar não consegue chegar ao continente, que fica mais quente e seco. Nos últimos anos, vimos muitas ondas de calor longas, que duraram semanas ininterruptas, bastante incomuns. Há algumas teorias que propõe que o enfraquecimento desses jatos de ar no Ártico também faz com que o ar gelado que antes era armazenado dentro do polo escape para latitudes mais ao sul, mas ainda não há muita evidência científica nesse sentido.

Com base em quais dados o senhor e sua equipe chegaram a essa conclusão? Analisamos o gradiente de temperatura, a força do jato de ar e a energia associada ao movimento do vento desses sistemas meteorológicos desde 1979 até 2013. Olhamos para ondas de calor regionais. Na Europa Oriental, por exemplo, as estatísticas mostraram que quanto menos há de energia nesses sistemas meteorológicos, maiores são as temperaturas, especialmente no continente.

Com o derretimento do mar congelado do Ártico, surgem oportunidades de explorá-lo comercialmente, com rotas de navegação e extração de petróleo. Essa ações podem intensificar ainda mais o efeito que o aquecimento da região tem sobre os verões do Hemisfério Norte? Essa é uma pergunta interessante, eu não havia pensado nisso dessa forma. Podemos imaginar que se muitos navios quebra-gelo agirem na região, abrindo espaço para rotas marítimas ou para a extração de petróleo, o gelo quebrado derreterá mais facilmente e reflitirá menos luz solar, mas ainda não vi nenhum estudo sobre isso. O que é certo dizer é que a possível exploração de petróleo, seja retirado do Ártico, Oriente Médio ou do Brasil, contribui para as mudanças climáticas e é, portanto, parte de um problema global.

É possível dizer se eventos específicos, como a onda de calor que atingiu a Rússia em 2010, são causados por influência do Ártico diretamente? Quando falamos sobre eventos extremos, como ondas de calor, nós nunca podemos afirmar com absoluta certeza uma única causa, nós apenas podemos falar sobre probabilidades. Mas certamente o aquecimento global tem feito das ondas de calor mais frequentes: as temperaturas recorde registradas aumentaram cinco vezes nos últimos 100 anos.

Há alguma chance de os países do Hemisfério Sul também estarem sendo impactados pelo que está acontecendo no Ártico? Nós olhamos para o Ártico e para mudanças no Hemisfério Norte, e o que estamos vendo aqui não terá um efeito direto no hemisfério sul. Com isso dito, é preciso lembrar que os sistemas meteorológicos dos dois hemisférios são muito simulares, tanto na circulação de ar quanto na intensidade dos jatos. Será interessante ver se também ocorrerão oscilações por lá. Há, no entanto, uma diferença importante: não estamos vendo na Antártica um aquecimento tão rápido quanto no Ártico.

O Brasil está passando por problemas de ondas de calor intensa e pouca chuva. É possível relacionar essa situação às mudanças climáticas? Não conheço muito sobre a situação brasileira, mas a previsão do IPCC, o órgão de estudos climáticos da ONU, indica que lugares secos se tornarão ainda mais secos, e o contrário acontecerá em regiões chuvosas. Isso acontece porque as mudanças climáticas estão alterando o ciclo hídrico na medida em que fazem com que o ar consiga carregar mais vapor d’água do que antes. Isso explica porque em meio a períodos secos podem acontecer tempestades severas. Isso já é visto em muitos lugares do mundo.