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VEJA na Antártica: expedição supera Drake, o ‘pior mar do mundo’

Estima-se que 800 embarcações já naufragaram na região, passagem entre o ponto mais austral da América do Sul e o início da Península Antártica

Por Jennifer Ann Thomas Atualizado em 13 jan 2020, 16h44 - Publicado em 13 jan 2020, 16h18

Foram 19 horas na posição horizontal.

Depois que o navio entrou no Estreito de Drake, também chamado de Passagem de Drake ou de Mar de Drake, por volta das 5h do dia 9, parte dos passageiros e da tripulação a bordo não resistiu ao balanço das ondas. O Drake, a passagem entre a América do Sul e a Península Antártica, é o ponto de encontro entre os oceanos Pacífico e Atlântico. A falta de barreiras, os ventos, as correntes marítimas e as condições de visibilidade fazem com que o fenômeno resulte em ondas gigantescas e condições dificílimas de serem enfrentadas. Entre a Terra do Fogo, no Ushuaia, e o arquipélago de Shetland do Sul, onde fica a Ilha Rei George, localização da estação brasileira, são cerca de 900 quilômetros de distância. Em média, são necessárias 40 horas para concluir a travessia. Estima-se que 800 embarcações já naufragaram na região.

Ao mesmo tempo, por ser tão temido, o Drake é constantemente monitorado. As previsões meteorológicas são feitas dia a dia para verificar a melhor janela temporal e realizar a travessia da forma mais tranquila possível. No caso desta expedição, foi necessário esperar por cerca de 30 horas. Se o comandante tivesse decidido seguir em frente no momento em que chegou a Puerto Williams, no Chile, a embarcação poderia ter enfrentado ondas de 5 metros.

Após o período em que decidiu esperar, as ondas não ultrapassaram os 4 metros. Mesmo assim, foi o suficiente para derrubar boa parte das pessoas embarcadas (inclusive a repórter que assina esta reportagem). Em média, o navio mantém a velocidade de 18 quilômetros por hora. No Drake, o objetivo é fazer a travessia da forma mais rápida possível. Contudo, tudo depende dos ventos e das correntes.

O primeiro dia de Drake se marcou por ser o naquele parte das pessoas a bordo desapareceu. A diferença pôde ser percebida na mesa de refeição. O período, que normalmente é um dos mais movimentados, de repente ficou esvaziado. A razão felizmente não era trágica: tudo se devia aos estômagos remexidos, por efeito das ondas do mar.

Já no segundo dia da travessia, com o despertar ao som da música Pescador de Ilusões, de O Rappa (Valeu a pena, ê ê/ Valeu a pena, ê ê), houve um momento para nos questionarmos se de fato tudo aquilo teria mesmo valido a pena. Durante a manhã, almas derrubadas voltaram a circular pelos corredores do Tio Max. A cada encontro, um colega preocupado: “Melhorou? Está bem?”. Isso até a retomada da normalidade. No almoço já foi servido dobradinha.

Durante os dois dias, todos os móveis e objetos foram amarrados e adaptados para evitar acidentes. As cadeiras, amarradas às mesas. Os pratos de porcelana, trocados por descartáveis. Portas dos armários, trancadas com cabos. A mesa foi arrumada de uma forma diferente para as refeições: todos os objetos ficaram em cima de uma toalha antiderrapante.

Além do cuidado com os danos materiais, os dias foram dedicados às atividades intelectuais – em uma rotina normal, exercícios físicos, por exemplo, podem ser agendados para os tripulantes. Ou seja, as tardes serviram para longas sessões de cinema e de videogame na Praça D’Armas, o espaço de confraternização do navio.

Ao mesmo tempo em que para muitos o Drake foi uma tortura, o fim dele também representou a chegada ao grande objetivo da missão: a Antártica.

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