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“Vamos seguir em frente, como sempre fizemos”, diz historiador-chefe da Nasa

Bill Barry diz que aposentadoria dos ônibus espaciais não significa o fim do interesse pelo espaço e lembra despedida do programa Apollo

Por Marco Túlio Pires Atualizado em 6 Maio 2016, 17h06 - Publicado em 8 jul 2011, 12h32

Quando o programa Apollo chegou ao fim, em 1972, os Estados Unidos ficaram órfãos de um sistema que pudesse levar seus astronautas ao espaço. O estrondoso sucesso do projeto que levou o homem à Lua e seu inevitável fim mexeram com a ansiedade da população. Os Estados Unidos teriam outro trunfo para manter a liderança na corrida espacial? A Nasa, a agência espacial americana, seria capaz de desenvolver um novo sistema de transporte para os astronautas? Essas foram algumas das perguntas suscitadas pelo fim do Apollo, anunciado pelo então presidente Richard Nixon. A resposta levou quase dez anos depois, até que em 12 de abril de 1981 os americanos realizaram o primeiro lançamento de um ônibus espacial: o Columbia, uma arrojada espaçonave capaz de levar 24 toneladas de carga útil e até sete astronautas para a baixa órbita da Terra. O último lançamento de um ônibus espacial americano, nesta sexta-feira, reprisa algumas destas mesmas questões. Os EUA vão conseguir substituir um sistema que há 30 anos era considerado o auge da tecnologia? Para o historiador chefe da Nasa, Bill Barry, não há dúvida: os EUA têm a bagagem e a disposição para o salto. “Vamos seguir em frente”, diz ao site de VEJA. “Como sempre fizemos.” Confira abaixo trechos da entrevista.

Bill Barry: “Não é a primeira vez que os EUA irá substituir um sistema de transporte espacial”

A era espacial chegou ao fim? Não. A utilização e exploração do espaço não vão simplesmente parar porque os ônibus espaciais estão sendo aposentados. Os astronautas da Nasa ainda viajarão ao espaço. No momento, dois estão na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), junto com três russos e um japonês. Nos próximos anos eles continuarão visitando a estação usando a cápsula russa Soyuz, que vem sendo usada pela tripulação da ISS há muitos anos. E em algum momento nos próximos anos, uma (ou mais) das várias empresas americanas que estão desenvolvendo veículos tripulados e sistemas de lançamento vai assumir o transporte de astronautas e carga útil.

O fim do programa de ônibus espaciais coloca os Estados Unidos em uma situação dependente (por exemplo, do transporte russo até a ISS). O país está preparado para isso? É uma pena não termos uma alternativa americana imediata para substituir os ônibus espaciais, mas já se sabia que haveria este hiato desde o anúncio do fim do programa, em 2004. A mesma coisa aconteceu depois do fim do programa Apollo na década de 1970: foram seis anos em que os EUA não podiam lançar astronautas (de jeito nenhum). Enquanto isso, o programa espacial humano vai continuar, nossa exploração robótica do universo também vai continuar e a Nasa vai continuar pesquisando soluções avançadas em aeronáutica.

Historicamente, como o fim do programa dos ônibus espaciais se compara ao fim do programa Apollo? É como nos casos do Apollo, Gemini ou Mercury. Descartamos um veículo espacial em favor de um sistema futuro. Fizemos isso mais do que qualquer outra nação que investe em navegação espacial. Por isso temos alguma experiência no assunto.

Entre as décadas de 1970 e 1980 o programa de ônibus espaciais foi anunciado como algo barato, seguro e confiável. O que saiu errado? O conceito original do programa era criar um sistema que seria altamente reutilizável e robusto, e por isso seria barato – de modo que as pessoas pudessem “viver e trabalhar no espaço”. Contudo, o governo Nixon não estava interessado em alocar os recursos necessários para atingir todos esses objetivos. Ao restringir o investimento, tinha que haver um impacto na agenda de desenvolvimento e no rendimento dos ônibus espaciais. No caso, a Nasa manteve o programa dentro dos custos e manteve a agenda próxima do planejado. Então, o resultado inevitável foi que o rendimento das aeronaves não pôde ser alcançado – o impacto se deu consideravelmente na capacidade de reutilização do veículo em si. Isso limitou a quantidade de voos, aumentando os custos da operação.

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Por que, afinal, aposentar os ônibus espaciais? Foi uma decisão política tomada em 2004 baseada em uma série de fatores incluindo o custo operacional dos veículos (que aumenta à medida que ficam mais velhos) e a necessidade de desenvolver um sistema substituto para os ônibus espaciais. Se queremos explorar além da órbita baixa da Terra, precisamos de um novo sistema, uma vez que os ônibus espaciais são incapazes de fazer exploração no espaço profundo.

Qual a importância simbólica do programa? Os ônibus espaciais se tornaram ícones do voo espacial nos últimos 30 anos. Eles são instantaneamente reconhecidos como “naves espaciais” em todo o mundo. Mas, quando eu era jovem na década de 1960, várias cápsulas espaciais usadas na época tinham o mesmo efeito. Os veículos do futuro também vão alimentar a imaginação das pessoas tão efetivamente quanto os ônibus espaciais.

Como o fim do programa dos ônibus espaciais será lembrado? Penso que historiadores no futuro vão considerar o programa de ônibus espaciais tão fantástico quanto eu mesmo considero – um grande triunfo de capacidade de invenção e trabalho duro. O programa certamente teve seus fracassos trágicos, mas, o saldo final é uma série esplêndida de conquistas.

Quais as lições deste programa espacial? Comparado ao que sabíamos nos anos 1970, aprendemos muito sobre viver e trabalhar no espaço, bem como sobre o nosso planeta e o universo que nos rodeia. Tudo com a ajuda dos ônibus espaciais.

Das 135 missões dos ônibus espaciais, quais as mais marcantes? As que me marcaram bastante foram o primeiro voo do Endeavour, lançado para recuperar o satélite Intelsat VI, o lançamento do telescópio Hubble, as missões de reparo que se sucederam e as missões até a Estação Espacial Mir (da Rússia, já desativada).

O senhor acredita que ainda temos a vontade para enviar humanos ao espaço e outros lugares como a Lua, Marte e além? Sim. As pesquisas de opinião pública nos EUA são favoráveis ao envio de astronautas a outras localidades do Sistema Solar, e o presidente Obama também já se mostrou disposto a caminhar nessa direção.

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