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Recorde de temperatura mais alta já registrada no mundo é anulado

Medição de 58ºC havia sido feita na Líbia em 1922, novo recorde é dos EUA, com temperatura de 56,7°C registrada na Califórnia, em 1913

O ‘monte Everest’ dos meteorologistas mudou de endereço. Nos últimos 90 anos a comunidade científica acreditou que a temperatura mais alta da Terra tivesse sido registrada em 13 de setembro de 1922, no deserto da Líbia, quando os termômetros de uma estação meteorológica marcaram 58ºC.

Agora, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) resolveu reconsiderar os documentos da época e anulou o recorde. E ainda escolheu outro vencedor.

Segundo a OMM, os dados haviam sido registrados por um observador pouco experiente e “sem formação no uso dos instrumentos de medição”, que pode ter lido equivocadamente a temperatura marcada no termômetro, à época instalado em uma base do exército italiano (a Líbia era então uma colônia da Itália), que ficava em El Aziza, a 40 km da capital Trípoli.

O comitê de climatologia da OMM estimou que uma observação correta dos instrumentos teria derrubado a temperatura em 7ºC.

Agora, o recorde de temperatura mais alta da Terra ficou com o local que até então ocupava o segundo lugar, Furnace Creek, uma região desértica do Vale da Morte, Califórnia, que registrou 56,7°C em 10 de julho de 1913 (veja aqui o ranking de temperaturas extremas da OMM, em inglês)

O membro do comitê de climatologia Christopher Burt foi o primeiro a questionar os dados do recorde líbio em uma postagem em seu blog, em 2010. A investigação acabou demorando por causa da guerra civil, que estourou na Líbia em fevereiro de 2011 e só terminou em outubro, após morte do ditador líbio Muamar Kadafi.

Nesse período, os investigadores do Centro Meteorológico Nacional da Líbia perderam contato com a OMM. Quando eles finalmente mandaram os registros originais, os membros da OMM observaram diversos problemas.

“A estação meteorológica se mudou de lugar em três ocasiões. Em sua primeira localização (de 1913 a 1920), registrou uma temperatura máxima de 48 graus, enquanto na segunda (de 1920 a 1926), quando ela ficou no topo de uma colina e sobre uma base de asfalto [que pode aumentar artificialmente a temperatura do solo], chegou aos 58 graus. Essa leitura de 13 de setembro de 1922 é inconsistente com a de outras estações próximas, que não registraram mais do que 32ºC nesse dia. Trata-se de uma enorme anormalidade”, disse Burt

Além disso, a OMM analisou também os registros manuais das temperaturas para encontrar um possível erro humano.

“A medida de 58 graus está escrita com uma caligrafia diferente dos registros anteriores e parece que o responsável pelo registro não sabia em que coluna anotar as temperaturas”, disse Burt, levantando a suspeita de que as anotações foram feitas por um ‘observador inexperiente’.

Segundo o meteorologista, as medições que foram escritas nessa mesma caligrafia sempre diferiam 7ºC da média das estações vizinhas, o que sugere que o observador à época responsável pela estação não sabia ler corretamente o termômetro, um modelo chamado 6-Bellini.

Nesse modelo de termômetro, com vários marcadores, a medida correta é observada na extremidade inferior. Mas o design do 6-Bellini podia levar um usuário inexperiente ou desatento a observar a temperatura na parte superior, o que provocava uma diferença de sete graus a mais na verdadeira temperatura. Num caso desses, uma temperatura de 51ºC poderia ser facilmente transformada em 58ºC.

“Essa investigação demonstra que o avanço da tecnologia e o aperfeiçoamento das investigações meteorológica e climatológicas proporciona aos pesquisadores uma oportunidade de reavaliar antigos recordes. Os resultados finais formam um banco de dados com informações importantes sobre mudanças climáticas”, Randy Cervenym, um dos investigadores da OMM que participou da investigação.

Calor extremo

Furnace Creek (EUA), o novo detentor do recorde de maior temperatura já registrada e El Aziza (Líbia), que ostentou a marca nos últimos 90 anos por causa de um engano.