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Receita para a boa morte

Em Podemos Dizer Adeus Mais de Uma Vez, o psiquiatra francês David Servan-Schreiber relata seus últimos meses de vida. Tocante e espantoso

Por Da Redação Atualizado em 6 Maio 2016, 16h58 - Publicado em 2 out 2011, 08h23

Giuliano Bergamo

Ecoando o pensador romano Cícero, lê-se no ensaio “De como filosofar é aprender a morrer”, do escritor francês Michel de Montaigne (1533-1592): “Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento”. Se houve um homem livre nesse sentido, foi o psiquiatra francês David Servan-Schreiber. Autor de Curar e do best-seller Anticâncer, ele lutou durante vinte anos contra um tumor maligno no cérebro. Aos 50 anos, sucumbiu à doença em 24 de julho passado. Morreu como queria – ao som do segundo movimento do Concerto para Piano Nº 23 de Mozart. Seu último livro, Podemos Dizer Adeus Mais de Uma Vez, é uma lição emocionante de como morrer bem ou, como descreveu a revista francesa Paris Match, “um manual de vida estarrecedor”. “Ter a possibilidade de preparar a partida é, na verdade, um grande privilégio”, escreveu ele.

O relato de Servan-Schreiber começa com a recidiva do câncer, em junho de 2010, e termina dois meses antes de sua morte, quando a doença já lhe roubara a voz e quase todos os movimentos. Lançado no Brasil pela editora Fontanar, Podemos Dizer Adeus chega às livrarias na próxima semana. A lucidez e a honestidade com que o médico descreve seus últimos momentos de vida são, mais do que tocantes, espantosos. Enganam-se aqueles que esperam ler o depoimento de um homem que nada teme ao antever o fim da própria existência. O psiquiatra tinha, sim, medo da morte – e muito. Mas enfrentou o pavor com as lições de coragem que o pai lhe deu na infância. A principal delas, “aguentar firme mesmo tremendo como vara verde”. O psiquiatra era o primogênito dos quatro filhos de Jean-Jacques Servan-Schreiber, jornalista, ensaísta e político francês, morto em 2006, vítima das complicações da doença de Alzheimer. E o psiquiatra aguentou firme. Em alguns momentos, o livro é uma espécie de guia desprovido de sentimentalismo ou pieguice. Como no trecho em que Servan-Schreiber conta sobre o dia em que chamou a mulher, Gwenaëlle, para planejar o futuro dos filhos depois de sua morte – Charlie, então com 2 anos, e Anna, com apenas 6 meses. De seu primeiro casamento, ele teve Sacha, na ocasião com 16 anos. “Fiquei muito surpreso ao descobrir até que ponto a redação de um testamento pode ser gratificante. Ela cria um sentimento de domínio total e, ao mesmo tempo, de generosidade, doação, transmissão”, descreveu.

É raríssimo encontrar um paciente terminal que consiga falar sobre o que o espera com tanta naturalidade. A morte permanece um assunto tabu. Uma senhora de 91 anos, paciente da médica Maria Goretti Maciel, diretora do serviço de cuidados paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual, de São Paulo, é vítima de câncer de pâncreas desde abril. Ela nunca conversou com a família sobre a gravidade da doença, tampouco sobre o fim que se aproxima. Ainda assim, pediu aos filhos que organizassem uma festa de Natal antecipada. No domingo passado, todos se reuniram para uma ceia e a troca de presentes. É de perguntar se o não dito tornou a festa menos penosa.

O primeiro diagnóstico de câncer de Servan-Schreiber foi feito aos 31 anos. Submetido a cirurgia e sessões de quimioterapia, conseguiu controlar a doença. Em 2000, o tumor voltou. Ele, então, mudou radicalmente seu estilo de vida. Depois de uma pesquisa exaustiva, lançou o livro Anticâncer, no qual defendia a meditação, a ioga, os exercícios físicos e a adoção de uma dieta rica em ômega-3, como práticas a ser seguidas para evitar a doença ou contê-la. “Podemos Dizer Adeus é também uma resposta aos leitores que talvez venham a se perguntar como o autor de Anticâncer morreu de câncer”, disse a VEJA o engenheiro Franklin Servan-Schreiber, um dos irmãos do psiquiatra. E ela está na página 53: “Podemos pôr todos os nossos trunfos no jogo. Mas o jogo nunca está ganho”. Não fossem os hábitos saudáveis que adquiriu, Servan-Schreiber não teria tido a oportunidade de aprender a morrer. Terminado o livro, o médico recolheu-se na antiga casa da família na região francesa da Normandia. Ali, nas últimas semanas, recebeu a visita de parentes e amigos. A mulher e os filhos pequenos o visitavam com frequência. O adolescente Sacha veio dos Estados Unidos para se despedir e viu o pai poucas horas antes de ele fechar os olhos pela última vez. Servan-Schreiber morreu à noite, por volta das 9 horas, na companhia da mãe, Sabine, e dos três irmãos. Sobre o medo da morte, o diretor americano Woody Allen fez a seguinte piada: “Não que eu esteja com medo de morrer. Apenas não queria estar lá quando isso acontecesse”. Servan-Schreiber certamente também não queria. Mas estava lá e aguentou firme, como seu pai ensinou.

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