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Problemas do pouso no cometa desafiam cientistas da missão Rosetta

Posição atual do módulo Philae é desconhecida; falta de luz solar para recarregar as baterias do robô atrapalhou os planos dos pesquisadores

Por Juliana Santos Atualizado em 6 Maio 2016, 16h08 - Publicado em 13 nov 2014, 15h54

As dificuldades do módulo Philae para pousar na superfície do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko impuseram novos desafios à equipe da Missão Internacional Rosetta. A exata posição do robô ainda é desconhecida, e a falta de luz solar para recarregar suas baterias preocupa. Pouco mais de 24 horas se passaram desde o pouso histórico, e os cientistas da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) ainda estão em busca de explicações para o que aconteceu na superfície do cometa, a 509 milhões de quilômetros da Terra.

Um dos principais temores que cercavam o pouso – a possibilidade de que o módulo quicasse após tocar a superfície do cometa – se concretizou. Os arpões que ajudariam o robô a se fixar não dispararam, e a baixa gravidade fez com que o módulo não estacionasse de primeira. Felizmente, porém, Philae não se perdeu no espaço. O robô tocou a superfície do corpo celeste pela primeira vez às 13h33 (horário de Brasília), em um local muito próximo ao esperado pelos pesquisadores, mas depois disso passou quase duas horas flutuando e girando sobre seu eixo vertical, até tocar o solo de novo às 15h26. Nesse intervalo, os pesquisadores estimam que o módulo tenha percorrido 1 quilômetro. Em seguida, Philae ainda quicou mais uma vez, movendo-se em velocidade menor e parando, por fim, às 15h33.

Os cientistas ainda não conseguiram identificar o local exato onde Philae estacionou. As primeiras fotos de seu entorno chegaram esta manhã à ESA e mostram um cenário ainda difícil de interpretar. Apenas duas das três pernas do robô tocam o solo do cometa, enquanto a outra está suspensa no espaço. Tudo indica que ele esteja perto de uma parede rochosa ou na borda de uma cratera. “Nós estamos calculando o que isso significa para o futuro próximo. Esta não é a situação que estávamos esperando”, disse Koen Geurts, integrante da equipe do Philae da ESA, em entrevista coletiva realizada nesta quinta-feira.

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Bateria – Um dos principais fatores para a escolha do lugar do pouso foi a presença de luz solar suficiente para recarregar as baterias do módulo. O deslocamento imprevisto vai obrigar os cientistas a refazer os planos. “Nós estamos recebendo uma hora e meia de luz do Sol, enquanto esperávamos seis ou sete. Isso impacta a nossa disponibilidade de energia”, afirma Stephan Ulamec, dirigente da equipe do Philae. Com a falta de luz solar, provavelmente o robô não terá bateria para realizar todas as atividades programadas.

Os cientistas também estão quebrando a cabeça diante da incerteza da fixação de Philae na superfície do cometa. Uma das principais missões do robô era recolher amostras do solo do 67P para análise. Os cometas são considerados “restos” da formação do Sistema Solar que continuam vagando pelo Universo. De acordo com algumas teorias, eles podem ter sido os responsáveis por trazer a água ou até mesmo vida à Terra. Por isso, Philae deveria analisar se o gelo que compõe o cometa corresponde aos isótopos da água da Terra.

Sem arpões para prender o módulo à superfície, ativar o instrumento que perfura o solo do 67P é uma manobra arriscada, porque pode ejetar Philae novamente – desta vez para sempre. “Nós temos que pesar o risco que corremos com cada ação e o objetivo da missão”, afirma Jean-Pierre Bibring, líder da equipe do módulo. “Nós não descartamos o uso de nenhum instrumento.”

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O tipo de superfície na qual o módulo pousou também permanece desconhecido. O fato de ele ter quicado indica uma superfície dura, rochosa, mas imagens feitas pelo módulo logo antes do pouso mostram um solo coberto de poeira.

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Comunicação – Os comandos enviados ao robô precisam ser bem planejados, porque, além do limite imposto pela duração da bateria, os momentos em que os cientistas conseguem se comunicar com o módulo são restritos a dois períodos diários de quatro horas. A comunicação entre Philae e a Terra é feita por intermédio de Rosetta, que orbita o cometa. Quando a sonda não está sobre a região para onde a antena do Philae aponta, o sinal é perdido.

Das 2h às 6h (horário de Brasília) desta quinta-feira, a ESA recebeu as primeiras imagens e dados coletados pelo módulo. A próxima janela de comunicação será às 17h27, por isso os pesquisadores estão trabalhando para decidir que comandos enviar nesse momento. Caso a decisão seja tentar mover o robô – e melhorar a recepção de luz – os cientistas podem lançar mão de quatro instrumentos. “Se nós conseguirmos movê-lo alguns graus pode ser suficiente”, afirma Jean-Pierre Bibring.

Em ordem de risco – do mais seguro para o mais inseguro – o primeiro instrumento é o Mupus (Measurements of surface and subsurface properties ou Medições de propriedades da superfície e subsuperfície, em tradução livre). De acordo com Bibring, o Mupus possui um tipo de martelo, com movimentos para cima e para baixo, que dariam o impulso necessário ao módulo. Em seguida, os arpões poderiam ser utilizados para puxar o robô para um local mais propício. O terceiro instrumento é o mecanismo de perfuração, que serviria para dar um impulso. Por fim, há o propulsor de gás frio, que não funcionou na primeira vez, mas poderia ser testado novamente. Todas essas possíveis manobras são consideradas pela equipe como “extremamente arriscadas”.

Riscos – Enquanto a bateria de Philae não acaba – o que pode acontecer em menos de dois dias -, pesquisadores da ESA trabalham para coletar todos os dados possíveis. Paralelamente, a equipe que opera a câmera Osiris na sonda Rosetta – dispositivo que fotografou a descida do Philae -, tenta localizar o módulo na superfície do cometa. A tarefa não é nada fácil: com o tamanho de uma máquina de lavar roupas, o robô ocuparia uma área de 3 por 3 pixels na imagem. O processo de busca é totalmente manual, uma vez que a paisagem complexa do 67P inviabiliza buscas automáticas.

Apesar disso, o clima na ESA não é de fracasso. “É incrível o fato de termos pousado. Estamos no limite do que a humanidade poderia ter feito [desde que a missão começou], há 20 anos”, afirma Bibring.

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