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Primeiro astronauta: os bastidores do voo histórico do russo Yuri Gagarin

Autor britânico narra o feito que inaugurou as viagens espaciais nos anos 60 e deixou para trás os americanos da Nasa

Por Sergio Figueiredo Atualizado em 9 abr 2021, 20h14 - Publicado em 9 abr 2021, 06h00

Ainda não existe, infelizmente, filme que faça jus à primeira corrida espacial, mais precisamente ao que ocorreu entre outubro de 1957 e maio de 1961 — pelo menos não à altura do relato do britânico Stephen Walker em Beyond, um robusto livro de 512 páginas, ainda sem tradução para o português, que traz a história de Yuri Gagarin, o primeiro homem a viajar ao espaço há exatos sessenta anos.

A conquista da órbita da Terra foi mesmo uma corrida, disputada palmo a palmo pelas duas maiores potências mundiais à época: os Estados Unidos, capitalistas, e a hoje extinta e socialista União Soviética, que buscavam, das mais diversas formas, arrebatar corações e mentes de 3 bilhões de pessoas, inclusive realizando feitos notáveis. Havia, porém, uma questão prática em ter supremacia no espaço: o controle de comunicações e de mísseis intercontinentais. E quem antes mostrou superioridade foi a União Soviética com o primeiro satélite, o Sputnik, lançado em outubro de 1957. A notícia caiu como foice e martelo na cabeça do então presidente Eisenhower, um general que, no ano seguinte, optou pela criação de uma agência civil para responder ao desafio: a Nasa.

arte Gagarin

Na União Soviética, entretanto, a banda tocava de outro jeito. O Partido Comunista administrava o programa espacial como uma operação militar. Em 1955, foi autorizada a construção de uma base secreta perto da estação ferroviária de Tyuratam, no Cazaquistão, a 2 500 quilômetros de Moscou. Muito maior que o Cabo Canaveral, dali partiam os foguetes R7, os mais poderosos mísseis balísticos do mundo, capazes de despejar ogivas nucleares em qualquer país. Ainda que a Nasa contasse com o talento de Von Braun, cientista alemão com um sombrio passado a serviço dos nazistas, os soviéticos tinham Sergei Korolev, então um desconhecido projetista ucraniano. Conforme explica Walker em sua obra, milhões conheciam Von Braun, figura carimbada da mídia, mas ninguém sabia quem era Korolev, cuja identidade era mantida em segredo. Acusado injustamente de sabotagem por Stalin, ele acabou se tornando protegido do novo líder, Nikita Kruschev, após a morte do ditador. Em 1961, o ucraniano que já havia mandado o Sputnik ao espaço estava prestes a colocar um homem em órbita. Como engenheiro-chefe, Korolev projetava as naves e ajudava a escolher quem as pilotaria. Seu preferido, entre seis eleitos, era um tenente de 27 anos chamado Yuri Gagarin.

Ainda menino, Gagarin viu de perto os horrores da guerra quando os alemães invadiram sua cidade no interior da Rússia. Mas, apesar disso, ele cresceu confiante e ingressou na Força Aérea, onde aprendeu a pilotar. Selecionado para o programa espacial, foi submetido a rigoroso treinamento, similar ao de seus concorrentes do Projeto Mercury da Nasa. Gagarin pilotava com frieza, porém era caloroso com as pessoas. Demonstrava coragem, mas não arrogância. Além disso, tinha três outras qualidades para ser o primeiro homem: era russo de origem (como exigia Kruschev), fotogênico e tinha a estatura ideal: 1,65 metro — a cápsula Vostok não comportava homens de mais de 1,70.

PARCERIA - O pioneiro (à esq.): o preferido pelo engenheiro Korolev -
PARCERIA - O pioneiro (à esq.): o preferido pelo engenheiro Korolev – I. Snegirev Aleksei/Sputnik/AFP

Nos anos 1950, ninguém sabia como um ser humano reagiria aos rigores do vácuo e à ausência de gravidade — e o custo para descobrir foi a vida de dezenas de cachorros, macacos e outros animais, que morreram asfixiados ou queimaram na reentrada. Em janeiro de 1961, quando John F. Kennedy tomou posse como presidente dos Estados Unidos, a Nasa ainda não se sentia pronta para mandar ao espaço seu eleito, Alan Shepard, temendo que ele morresse, arranhando assim a imagem do recém-eleito chefe da nação. Já Kruschev não tinha nenhuma preocupação quanto a isso: se Gagarin explodisse em pedaços ou morresse de hipóxia, ninguém dentro ou fora da União Soviética ficaria sabendo.

Com a hesitação americana, Gagarin foi embarcado na Vostok I e decolou em 12 de abril de 1961, fazendo uma órbita completa ao redor da Terra — e ele, sim, notou que o planeta é irremediavelmente redondo. A cápsula soviética não pousava no mar como as americanas. Assim, para não morrer com o impacto, o cosmonauta era obrigado a se ejetar antes de chegar ao solo. Gagarin foi recebido com todas as honras dedicadas a um herói. O país parou e Moscou viveu sua maior festa desde a vitória na II Guerra. O trabalho de Korolev, entretanto, só seria reverenciado após sua morte, em 1966, aos 59 anos. Gagarin se juntaria ao amigo em 1968, perdendo a vida em um voo banal de treinamento. E Shepard, que finalmente decolaria em 5 de maio, subiu aos céus se perguntando por que os técnicos da Nasa o haviam privado de sua glória.

Publicado em VEJA de 14 de abril de 2021, edição nº 2733

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