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Por que a chuva de São Paulo não chega ao Cantareira?

Chuvas isoladas na região metropolitana ocorrem devido a um fenômeno chamado ilha de calor, que provoca o aquecimento da metrópole

A chegada do verão trouxe chuvas para São Paulo. Algumas tão intensas que provocaram problemas como alagamentos, quedas de árvores e raios. Apesar disso, o Sistema Cantareira não dá sinais de recuperação. Nesta sexta-feira, o nível dos reservatórios que o compõem chegou a 5,3%.

A causa essa discrepância, e da falta de chuvas onde a cidade mais precisa no momento, é uma união de diversos fatores. Um bloqueio atmosférico está agindo o Sudeste do país. Trata-se do mesmo fenômeno que causou seca e temperaturas elevadas no segundo semestre do ano passado, embora um pouco mais brando desta vez.

Bloqueio atmosférico

Bloqueio atmosférico (/)

​Esse bloqueio, com ventos que impedem a chegada das frentes frias que se formam no Sul até os Estados do Sudeste, é causado pelo aumento de temperatura do oceano, um fenômeno global. “O oceano cria uma alta pressão, que não deixa a massa de ar frio subir”, explica Graziella Gonçalves, meteorologista da Somar Meteorologia.

O problema é que essas massas de ar frio atraem a umidade da Amazônia para o Sudeste, formando um corredor pelo país, onde ocorrem chuvas. “Como as frentes frias estão indo embora do Sudeste muito rapidamente, ou nem chegando aqui, esse fenômeno, conhecido como Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), não se formou”, explica Graziella.

Janeiro – Com isso, é provável que janeiro de 2015 continue seguindo a tendência de queda na quantidade de chuvas dos últimos dois anos. Em 2013 as chuvas neste mês ficaram 43% abaixo da média. No ano seguinte, dos 259,9 milímetros de chuva esperados na região do Sistema Cantareira, caíram apenas 87,8 – 66% abaixo da média. Neste ano, a expectativa era ainda maior: 271,1 milímetros, de acordo com a Sabesp. Até o dia 21, no entanto, somente 60,9 milímetros caíram. A dez dias do término do mês, estamos 78% aquém do esperado.

Graziella explica que, como o bloqueio atmosférico está começando a ceder, é provável que chova um pouco mais nas próximas duas semanas, mas nem de longe o bastante para recuperar o debilitado sistema. “É possível que a Zona de Convergência do Atlântico Sul se forme em fevereiro, mas ela não deve permanecer por todo o tempo esperado, então não deve ser um mês de chuvas constantes”, afirma.

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Chuvas de verão – O fato de estar chovendo em alguns pontos de São Paulo se deve, principalmente, a um fenômeno denominado ilha de calor. “A região urbana é mais quente que seu entorno, devido às modificações feitas na superfície”, explica Amauri de Oliveira, professor do departamento de Ciências Atmosféricas do instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG – USP). A impermeabilização com solo, com o asfalto, impede a evaporação da água. Por isso, toda a energia solar que chega até a cidade acaba aquecendo o ambiente. “São Paulo muitas vezes está até 8 graus mais quente do que o seu entorno”, afirma Oliveira, que realiza estudos sobre as diferenças de temperatura da metrópole. Mais aquecido, o ar fica mais leve e se desloca verticalmente, formando nuvens e criando chuvas localizadas em alguns pontos da cidade.

Para ajudar a reabastecer o Sistema Cantareira, porém, são necessárias chuvas intensas em uma região ampla. “Chuvas isoladas não adiantam muito em um reservatório tão grande, é preciso umedecer todo o solo primeiro, se não a parte onde não choveu absorve a água que caiu em outra região”, afirma Bianca Lobo, meteorologista da Climatempo.

VEJA

Ilha de calor: A metrópole se aquece mais do que seu entorno, em função do concreto e asfalto, que absorvem o calor. Quando uma massa úmida chega a São Paulo, ela é aquecida e, por isso, se eleva (o ar quente, mais leve, tende a subir). Chegando a altitudes maiores, as massas encontram um ambiente mais frio e se condensam, formando nuvens de chuva