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Pesquisadores reinventam forma de prever o futuro

A desmoralização das previsões místicas e o fato de que economistas e consultores também erram feio trazem ao palco outros tipos de antecipadores do futuro, mais humildes, bem preparados e com alto grau de acerto

Por Gabriela Carelli Atualizado em 6 Maio 2016, 16h24 - Publicado em 29 dez 2012, 07h59

Ok!

Bruxos, videntes, astrólogos, gurus e até – quem diria – os maias não erram mais do que economistas, consultores e outros futurólogos profissionais. Mas há erros e erros. Os dos místicos são divertidos, deixam as pessoas embaladas por deliciosas tolices durante algum tempo e, admitamos, tornam a vida mais tolerável e engraçada. Passada a data em que, segundo essa gente, uma hecatombe se abateria sobre o planeta, sobram as lembranças algo cômicas – pelo menos até que uma nova interpretação do calendário de alguma obscura cultura extinta volte a assustar os incautos e o ciclo da ansiedade com o fim do mundo recomece. São de outra ordem os erros dos que projetam a realidade atual no tempo futuro com base em certos padrões de evolução das conquistas obtidas nos campos que estudam.

Isaac Asimov, escritor de ficção científica, usou os cálculos sobre a curvatura da Terra para traçar a fronteira definitiva entre os equívocos originados pela credulidade acrítica e aqueles desvios do alvo feitos pela honesta busca da verdade por quem, mesmo tendo os instrumentos corretos, não logrou a pontaria certeira.

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“Quando as pessoas pensavam que a Terra era achatada, elas estavam erradas.Quando as pessoas pensavam que a Terra era uma esfera perfeita, elas estavam erradas. Mas, se alguém pensa que o erro de pensar que a Terra era achatada é da mesma magnitude do erro de pensar que a Terra era uma esfera perfeita, esse alguém está mais errado do que todos os outros juntos.” Pode-se perguntar por quê. Porque a Terra achatada era apenas uma crença teimosamente absurda, que, aliás, desafiava as observações e o senso comum das pessoas que viam os barcos desaparecer no horizonte quando se afastavam cerca de 20 quilômetros da costa. Achar que a Terra é uma esfera perfeita é um pequeno desvio dentro de um enorme acerto, pois essa concepção é bem próxima da realidade e se chegou a ela pelos caminhos racionais. A Terra, na verdade, é um pouco achatada nos polos e, portanto, não é uma esfera perfeita.

A linha divisória traçada por Asimov é uma boa referência para avaliar a enxurrada de previsões com que as pessoas são bombardeadas nessa época de fim de ano e começo de outro. Quem não ouviu uma única previsão sobre alguma coisa que vai acontecer em 2013 só pode ter ido passar o verão em Marte. Dada a taxa de acerto próxima de zero – ou simplesmente igual à obtida por um lance de dados ou por algum outro meio aleatório baseado em sorte e azar -, não vale a pena nos ocuparmos aqui do que está sendo dito sobre o futuro pelos habitantes do lado místico da esfera cerebral. Não que eles se importem muito com isso. As previsões apocalípticas tendem a durar séculos, mesmo quando desmentidas por nada de relevante acontecer no dia em que o mundo deveria acabar. Elas exercem uma atração fatal sobre o cérebro humano. A observação científica dos fatos raramente pode vencê-las em uma competição por um lugar privilegiado na mente humana. Enquanto os fatos reais mudam em um passo geologicamente lento e sem emoção, as previsões apocalípticas oferecem cenas de alta tensão, colorido intenso, emoções exacerbadas e desfecho rápido. A narração bíblica do apocalipse é um show da Broadway. A previsão do fim do mundo pela ótica da ciência é de uma incomparável chatice: muito provavelmente o universo vai se expandir e esfriar até se transformar em uma escuridão total imersa em caos silencioso e definitivo. Ah… para piorar, isso vai acontecer devagarinho durante alguns bilhões de anos e, quando vier o ato final, não haverá vivalma para contar a história. Tédio total.

A visão colorida, dramática e irracional dos fenômenos predominou por milênios. Foi só no fim do século XVI e início do XVII que começou a aparecer essa gente chata que exige evidência de tudo o que se afirma e que estuda coisas infinitamente pequenas ou infinitamente grandes – gente como Galileu Galilei, que, perseguido pela Igreja Católica, renegou publicamente sua ciência para salvar a própria vida. Antes, porém, deixou como legado para as gerações futuras o método científico e o traçado fronteiriço entre a fé e a razão: “A Bíblia ensina como se vai para o céu, e não como o céu funciona”. À revolução de Galileu se sucederiam outras fundamentais. Isaac Newton mostrou como o céu funciona ao descrever as leis da gravitação; Robert Boyle descobriu as leis que definem o comportamento dos gases; Robert Hooke demonstrou que todos os seres vivos são formados por pequenas entidades interdependentes chamadas células. Ao acabar o século XVII, a humanidade, finalmente, tinha sido dotada dos recursos intelectuais que criaram o mundo em que vivemos atualmente.

São filhos dessas revoluções os pesquisadores que se apresentam como capazes de exercer a arte de enxergar longe, de projetar no tempo acontecimentos atuais e prever com bastante precisão certos eventos futuros. Eles procuram em todos esses eventos não a velocidade com que eles evoluem, mas o ritmo, o padrão de avanço baseado em observação cuidadosa guiada pela lógica e por métodos quantitativos de análise. Um desses observadores é o americano Samuel Arbesman, autor de um livro instigante, ainda sem tradução para o português, intitulado The Half-Life of Facts (em tradução livre, A Meia-Vida dos Fatos). Em sua concepção meramente científica, meia-vida é o tempo que determinado elemento radioativo precisa para que metade de sua radiação tenha se esgotado. Arbesman faz desse conceito um brilhante instrumento de análise de fenômenos que podem ser previstos com segurança quase total quando seu padrão de comportamento é estudado durante um período muito longo. Mais uma vez, ele toma emprestado o conceito da meia-vida, que só faz sentido no caso, por exemplo, de uma barra de urânio, e não de um único átomo. A barra de um dos isótopos do urânio perderá metade de seu poder radioativo em 713 milhões de anos. Mas um único átomo de hidrogênio, observado isoladamente, pode se desintegrar em um segundo ou em milhões de anos.

“A lição aqui é que eventos isolados são imprevisíveis, mas, quando vistos como um imenso conjunto, eles passam a ser previsíveis”, diz Arbesman. Uma pessoa pode morrer a qualquer hora, basta estar viva. Isso significa que tomada individualmente a longevidade é imprevisível. Mas quando se examina a longevidade de toda uma população (veja o quadro abaixo) o que se vê é que a cada ano que passa os avanços médicos permitem acrescentar quatro meses na expectativa de vida das pessoas. Da mesma forma que um biólogo perdido na selva africana pode deparar a qualquer momento com um leão ou um tigre, animais de grande porte, todos os biólogos do mundo em busca de mamíferos ainda não catalogados só poderão encontrar animais de menor porte do que aqueles já conhecidos da ciência (veja o quadro). Conclui Arbesman: “Quando se descobre um padrão no ritmo em que novos fatos surgem e em que novas tecnologias são desenvolvidas, a maneira como o conhecimento muda pode ser entendida cientificamente”.

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Essa é uma ideia poderosa. Ela ajuda a entender por que razão os institutos de pesquisa e os analistas políticos erram tanto em suas previsões sobre o resultado das eleições; por que a crise financeira de 2008 foi uma surpresa para quase todos os economistas e, principalmente, por que, poucos dias antes de quebrarem, bancos, financeiras e empresas de seguros tinham cotação máxima de segurança para o investidor – AAA – das agências avaliadoras de risco. A resposta é que muitos economistas e todas as agências avaliadoras de risco não identificaram – ou não quiseram identificar – um padrão único e perigoso para todo o sistema. Elas se concentraram em instituições individuais que, consideradas isoladamente, cumpriam as exigências para ser consideradas sólidas. Da mesma maneira que um engenheiro pode dar como seguras as estruturas de um único apartamento de um prédio de trinta andares construído sobre areia movediça.

Entender os padrões de mudança é, em resumo, o truque de Nate Silver, o estatístico americano que se tornou uma celebridade ao prever com quase 100% de acerto os resultados das duas últimas eleições presidenciais americanas – nas quais Barack Obama se elegeu e, em 2012, se reelegeu. Em seu recente livro The Signal and the Noise: Why Most Predictions Fail – but Some Don’t (O Sinal e o Ruído: por que Tantas Previsões Erram – Mas Não Todas), sem tradução para o português, Silver explica que ele acerta os resultados das eleições pela simples razão de que nunca se fia em uma única pesquisa eleitoral. Seu método é fazer uma média de todos os levantamentos disponíveis, dando peso para os institutos conforme sua taxa de acerto em eleições passadas. Além disso, entra forte na composição do peso dado a cada sondagem o fato de o próprio candidato cuja eleição está em jogo ser entrevistado pela empresa. Diz Silver: “Isso é fundamental para saber se o instituto está pesquisando as intenções de voto em uma pessoa de carne e osso ou se está medindo o apoio dos eleitores a um ser imaginário ou construído pelo marketing da campanha”.

O estatístico Nate Silver encontrou outro interessante padrão entre os institutos que fazem previsões – sejam elas eleitorais, econômicas ou meteorológicas. Esse padrão se refere à honestidade e à clareza com que eles informam seus usuários a respeito do grau de exatidão de suas investigações. “O serviço de meteorologia é o que acerta mais nos Estados Unidos e o que é mais transparente a respeito das incertezas de seus métodos.” Silver se refere ao fato de que o serviço de meteorologia dá resultados na forma de probabilidades, evitando afirmar peremptoriamente se vai chover ou fazer sol ou ainda que tipo de danos exatamente um furacão vai provocar e onde. Silver sustenta que seria muito mais racional se, por exemplo, os economistas fossem mais humildes quando fizessem previsões sobre os rumos da economia. Diz ele: “O governo americano divulga 40 000 indicadores. Institutos privados monitoram 4 milhões de estatísticas. A tentação de muitos economistas é pôr todos esses dados em um liquidificador e sair dizendo que a gororoba resultante é alta gastronomia”.

O psicólogo Philip Tetlock, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, decidiu estudar não os métodos que produzem previsões mais acertadas, mas como a exatidão delas se relaciona com a personalidade da pessoa que está fazendo o estudo de futurologia. Tetlock adotou a classificação feita pelo ensaísta Isaiah Berlin, que, escrevendo sobre o romancista russo Leon Tolstoi, dividiu os personagens em dois tipos: os ouriços e as raposas. Berlin, por sua vez, inspirou-se nesta passagem atribuída a Arquíloco, poeta da Antiguidade grega: “A raposa conhece muitas pequenas coisas. O ouriço conhece uma única grande coisa”.

A conclusão de Tetlock é inequívoca – a personalidade de raposa é muito mais compatível com a tarefa de prever eventos do que a de ouriço (veja o quadro abaixo). Ele põe na conta de pessoas ou instituições com a formatação mental dos ouriços algumas das grandes falhas em prever eventos tectônicos da história contemporânea, entre eles o desmoronamento da União Soviética, nunca antecipado pela CIA, a agência de espionagem americana, e a crise financeira de 2008, que iludiu algumas das mais brilhantes cabeças econômicas. Conclui Tetlock: “Karl Marx e Sigmund Freud são exemplos célebres do tipo de personalidade ouriço. Eles desenvolveram teorias poderosas e passaram a explicar todo e qualquer fenômeno com base nelas. Ambos erraram redondamente sobre o futuro do mundo em que viveram”.

Marx e Freud foram representantes célebres do tipo de personalidade ouriço. Autores de teorias poderosas e abrangentes, eles tentaram explicar todo e qualquer fenômeno humano e social com base nelas. Esse tipo de personalidade produz péssimos antecipadores do futuro. O tipo raposa é mais talhado para a tarefa por lidar com muitas pequenas ideias ao mesmo tempo, aceitar opiniões contrárias e mudar de rumo sem traumas
Nate silver e o presidente – O estatístico acertou o resultado das eleições americanas que reelegeram Obama em todos os cinquenta estados e no distrito de Colúmbia

O mistério da vida, em um chip

O mistério da vida, em um chip Em nenhuma área do conhecimento o impacto da tecnologia foi tão extraordinário quanto na genética. Em menos de uma década, o custo do sequenciamento completo do genoma humano despencou de 2,7 bilhões de dólares para 3 000 dólares. Se tivesse ocorrido o mesmo na aviação civil, um Boeing 737, com o valor estimado em 100 milhões de dólares, poderia ser comprado, hoje, por cerca de 100 dólares. A velocidade da transformação do aparato usado para esmiuçar o DNA de uma pessoa é bem maior do que previu Gordon Moore, o fundador da Intel, em 1965. Na lei que leva o seu nome, ele estimou em dezoito meses o tempo para um chip ter a capacidade de processamento de dados duplicada, sem alteração de custos, permitindo, assim, a criação de máquinas cada vez mais baratas e potentes. Seguindo a lei de Moore, o preço dos eletrônicos diminui uma vez e meia ao ano. No mesmo período, o custo do mapeamento genético encolhe doze vezes. Identificar os 21 000 genes de cada indivíduo e os trechos do genoma até pouco tempo considerados “lixo” pelos cientistas (na verdade elementos fundamentais, capazes de ligar ou desligar os genes) é de uma importância seminal. Entender como as características são repassadas através de gerações e como se forma a individualidade de cada pessoa (e o peso do ambiente nisso tudo) é dos grandes mistérios da ciência. O encontro do chip com a dupla hélice (a estrutura da molécula de DNA descoberta em 1953 por Francis Crick e James Watson) foi decisivo para a compreensão da evolução da vida no planeta, cujo pontapé inicial foi dado por Charles Darwin no século XIX. Também foi o começo de uma revolução na medicina. Ainda neste ano, ler genes custará o mesmo que um PC, em torno de 1 000 dólares. Pode ser o início da tão almejada terapia gênica, na qual cada paciente será tratado de forma personalizada, com remédios feitos de acordo com a receita de vida impressa no seu DNA. Ou, quem sabe, o primeiro passo para a imortalidade.

Imortal na aritmética

O mistério da vida, em um chip Obstinados em descobrir o padrão de comportamento de fenômenos atuais, os estudiosos do ramo focaram suas energias para entender o aumento da longevidade humana. Eles concluíram que, mais fortemente nos Estados Unidos, mas de modo geral em todos os países ocidentais ricos, a cada ano acrescentam-se quatro meses na expectativa de vida das pessoas. Esse padrão vem se repetindo desde o fim dos anos 70. Isso pode ser verificado na prática. Realmente, a expectativa de vida está aumentando ano a ano. Alguns pesquisadores têm verificado que, depois de se manter estável por mais de trinta anos, a taxa anual de ganho no tempo de vida começa a ter seu ritmo acelerado. Os especialistas em longevidade, entre eles o americano Ray Kurzweil, acreditam que em breve, a cada ano, o ser humano vai acrescentar não quatro, mas cinco, seis, sete meses em sua esperança de vida. Como é grande a crença na tese de que no futuro poderemos prolongar indefinidamente a vida, saiu-se com o seguinte cálculo: “Quando a taxa anual de expectativa de vida for de doze meses e um dia, seremos imortais”.

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