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Pela primeira vez, células-tronco embrionárias são criadas em um organismo vivo

As células, que correspondem às de um embrião de 72 horas, têm mais capacidade para dar origem a uma gama maior de tecidos

Uma equipe de pesquisadores de Madri, na Espanha, foi a primeira a conseguir fazer células adultas em um ser vivo “voltarem no tempo” e recuperarem as características que tinham durante a fase embrionária. Com isso, eles criaram células-tronco embrionárias com uma capacidade de diferenciação ainda maior do que aquelas obtidas até hoje, por meio da cultura de células em laboratório. Em um exemplo prático, isso quer dizer que se as células-tronco originadas em laboratório até hoje podem dar origem a qualquer tecido do corpo, enquanto essas novas podem dar origem também à placenta. A pesquisa foi publicada na revista científica Nature nesta quarta-feira.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Reprogramming in vivo produces teratomas and iPS cells with totipotency features

Onde foi divulgada: periódico Nature

Quem fez: María Abad, Lluc Mosteiro, Cristina Pantoja, Marta Cañamero, Teresa Rayon, Inmaculada Ors, Osvaldo Graña, Diego Megías, Orlando Domínguez, Dolores Martínez, Miguel Manzanares, Sagrario Ortega e Manuel Serrano

Instituição: Centro Nacional de Pesquisa do Câncer, na Espanha, e outras

Resultado: Os pesquisadores conseguiram criar células-tronco com propriedades totipotentes em organismo vivos – no caso, em camundongos. Essas células puderam também ser retiradas e manipuladas em laboratório.

As células-tronco embrionárias são de grande importância para a pesquisa em medicina regenerativa. Elas são capazes de se transformar em diversos tipos de células que compõem um organismo, e por isso são estudadas como uma possível cura para doenças como Alzheimer, Parkinson e diabetes – nas quais ocorrem danos ou perda de um determinado tipo de célula.

Essas células, no entanto, existem no organismo apenas durante um curto período, no início do desenvolvimento embrionário. Depois, elas se diferenciam – dando origem a um órgão, por exemplo – e perdem sua capacidade de gerar outros tipos de célula.

Nobel – A equipe se baseou na descoberta de Shinya Yamanaka, pesquisador japonês que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina em 2012 por seu trabalho com células-tronco. Em 2006, ele possibilitou um grande avanço nessa área, ao conseguir criar células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs), um tipo de célula-tronco artificial. Criada a partir de uma célula adulta comum do organismo, ela imita as células embrionárias na capacidade de originar diversos tipos de célula. Esse processo foi possível ao “acionar” apenas quatro genes presentes no animal, mas que normalmente não se expressam em indivíduos adultos.

Os pesquisadores de Madri fizeram algo parecido, mas dessa vez as células foram criadas diretamente no interior do organismo de camundongos, e não na bancada do laboratório – um avanço importante para a medicina regenerativa. Eles utilizaram técnicas de manipulação genética para ativar os quatro genes de Yamanaka em camundongos, e observaram que as células adultas de diversos tecidos e órgãos foram capazes de “voltar atrás” em seu desenvolvimento e se tornar células-tronco embrionárias.

“Essa mudança de direção no desenvolvimento nunca foi observada na Natureza. Demonstramos que podemos obter células-tronco embrionárias também em organismos adultos, não só em laboratório”, afirma María Abad, principal autora do estudo e pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa do Câncer, na Espanha.

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Diferenças – As células obtidas dessa forma têm uma capacidade de diferenciação ainda maior do que as células pluripotentes desenvolvidas por Yamanaka. Denominadas totipotentes, elas correspondem às células presentes em um embrião humano com 72 horas de desenvolvimento, quando ele é composto por apenas dezesseis células – já as iPSCs correspondem à células de um embrião com 120 horas. Elas também puderam ser retiradas dos animais e cultivadas em laboratório.

Apesar de se tratar de uma grande descoberta, os autores enfatizam que a possibilidade de aplicação terapêutica dessa técnica ainda está distante da realidade. “O próximo passo é estudar se essas novas células-tronco são capazes de gerar, de forma eficiente, diferentes tecidos, como o do pâncreas, rim ou fígado”, afirma María.

Opinião da especialista

Lygia da Veiga Pereira

Professora Titular e Chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE) da Universidade de São Paulo

“A perspectiva de poder reprogramar células em um ser vivo é muito interessante. Este estudo foi uma prova de conceito, um primeiro passo. O que a gente faz em laboratório, eles mostraram que é possível no organismo. Se um dia conseguirmos reprogramar as nossas células, pode ser que consigamos fazer medicina regenerativa sem injetar célula nenhuma, a ponto de conseguir regenerar um órgão ou um membro. Do ponto de vista terapêutico, a terapia embrionária é suficiente, mas a criação de células totipotentes é interessante para a ciência básica.

“A pesquisa ainda foi feita de uma forma confusa e essas células acabaram originando vários tumores no animal. Os próximos passos devem ser aprender a localizar e controlar esse processo, para que as células se transformem no tecido desejado.”