Os quatro eventos climáticos que mostram o impacto do El Niño no Brasil
Chuvas no Sul e secas no Norte são causadas pelo fenômeno de aquecimento das águas do Oceano Pacífico
Apesar de não ter começado oficialmente, o El Niño já causa impactos no clima do Brasil. O fenômeno caracterizado pelo aquecimento das águas da superfície do Oceano Pacífico tende a reduzir as chuvas na Região Norte e Nordeste do país, enquanto aumenta a frequência e volumes no Sul.
Por enquanto, o que há são as condições iniciais do El Niño, que oficialmente começa com pelo menos cinco semestres consecutivos do Índice Oceânico Niño Relativo (RONI) igual ou superior a 0,5ºC. “Porém, a previsão indica que sim, nós teremos o fenômeno estabelecido este ano”, afirma Dr. Leydson Dantas, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET).
Confira cinco eventos climáticos no Brasil influenciados pelo El Niño:
Secas na região Norte
O aquecimento das águas do Pacífico provoca uma forte evaporação de água nas regiões central e leste do Oceano. No entanto, quando esse ar sobe ao topo da atmosfera, ele seca e se espalha pelo globo, uma das áreas atingidas sendo a América do Sul, principalmente a porção mais ao norte do Brasil, também incluindo o Nordeste.
“Como esse ar desce quente e seco, ele desfavorece a formação de nuvens de chuva no Norte. Por causa disso, a região Norte é diretamente influenciada por um forte déficit de chuvas e seca. O nível dos rios reduz, o que também favorece a ocorrência de queimadas devido às condições mais secas”, explica Dantas.
Chuvas na região Sul
Enquanto o Norte e Nordeste sofrem com a seca, os ventos úmidos da região seguem para o centro-sul do país através dos “rios voadores”. Porém, esses ventos ficam próximos à superfície ou em altitudes elevadas, formando os chamados jatos de baixos níveis e subtropicais, fortalecidos pelo El Niño.
“Esse fortalecimento cria uma barreira natural que impede que as frentes frias que vêm do Sul avancem pelas regiões Centro-Oeste e Sudeste fazendo com que elas fiquem semi estacionárias na região Sul, concentrando as chuvas apenas ali”, diz Dantas.
Chuvas fortes com queda de granizo caíram em cidades de Santa Catarina no último final de semana e cidades decretaram situação de emergência. Nesta segunda, 31, o estado catarinense e o Rio Grande do Sul estão sob alerta vermelho do Inmet de “grande perigo” para tempestades.
Chuvas irregulares no Centro-Oeste e Sudeste
As regiões Centro-Oeste e Sudeste sofrem com chuvas irregulares também por conta das frentes frias vindas do Sul.
“Há longos períodos consecutivos de dias secos, mas quando uma frente fria consegue avançar, ela encontra uma atmosfera com muita energia e calor acumulados”, explica Dantas.
A formação de uma nuvem de chuva precisa de vapor d’água e energia, vinda da radiação solar. Então quando a umidade das frentes frias encontram o calor acumulado dos dias secos formam-se nuvens altas, escuras que provocam raios e chuvas de grande intensidade em um curto espaço de tempo.
“Com isso, a chuva esperada para o mês inteiro cai em apenas alguns dias, alternando com longos períodos secos. Na meteorologia, chamamos isso de extremos climáticos, onde a precipitação que deveria ser regular ocorre concentrada em poucos dias”, completa o meteorologista.
O vendaval que atingiu principalmente o litoral do Rio de Janeiro e São Paulo no fim de julho esteve indiretamente associado ao El Niño. Assim como na formação de nuvens, quando a frente fria quebrou a barreira natural, encontrou um ambiente propício de acúmulo de calor e energia na região Sudeste. Houve um grande deslocamento de ar, que são parte do processo de formação das nuvens e que também favoreceu os vendavais.
Temperaturas elevadas em todo país
Um impacto do El Niño compartilhado por todas as regiões do país é o aumento das temperaturas. Na porção norte e nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, por conta da pouca umidade, o fator aumenta consideravelmente a frequência de ondas de calor em anos de El Niño, como é o caso de 2026.
“É uma resposta do próprio planeta para tentar manter a temperatura média estável, logo, não há como evitá-los. O que nos cabe é a adaptação. Precisamos nos adaptar e cuidar melhor do planeta. Evitar desmatamento, queimadas e proteger os solos e recursos hídricos é fundamental”, ressalta Dantas.
“A ocorrência de eventos climáticos extremos é a resposta do próprio planeta ao nosso descuido e agressão ecológica”, concluiu o meteorologista.







