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Os ambientalistas nunca vão salvar a Terra

Sidney Yip, professor emérito do MIT, afirma que só na tecnologia se encontra um remédio viável para o risco do aquecimento global

Por Da Redação - Atualizado em 6 maio 2016, 16h27 - Publicado em 8 set 2012, 09h29

Só mais tecnologia pode resolver os problemas ambientais criados pela própria tecnologia. E a energia nuclear é uma das melhores alternativas para mitigar as emissões por dióxido de carbono, vilão do aquecimento global. Essas são algumas ideias do engenheiro chinês Sidney Yip, que esteve no Brasil na última terça-feira, onde apresentou a palestra “Materiais para Sustentabilidade Energética: uma perspectiva do MIT” para os alunos da engenharia da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado).

Nascido em Beijing, na China, Sidney Yip se mudou com os pais e irmãos para os Estados Unidos em 1950. Oito anos depois, se formou em engenharia e começou a carreira de cientista, que lhe valeu os prêmios como o Robert Cahn 2012 e o Alexander von Humbold Senior Scientist Prize. Hoje Yip é professor emérito do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde dá aulas no departamento de Engenharia de Nuclear e Engenharia de Materiais.

Atualmente, o cientista concentra seus esforços no MIT Energy Initiative, um projeto destinado a desenvolver alternativas para conter o aquecimento global. Entre as apostas, estão o uso de micróbios para criar biocombustíveis, novas tecnologias de energia solar e eólica e o desenvolvimento de materiais baseados em nanotubos e nanocristais. De todas as linhas de pesquisa, a que mais entusiasma Sidney Yip é a reabilitação de uma tecnologia que tem cara de passado: a energia nuclear.

O cientista estuda energia nuclear desde a década de 50 e testemunhou todos os altos e baixos do debate público sobre seu uso não-militar. Diz que é urgente recuperar a credibilidade dessa tecnologia depois do acidente de Fukushima – o futuro da humanidade depende disso, acredita. Para ele, a tecnologia nuclear é a chave para a produção de energia em grandes quantidades de forma limpa, sem emitir CO2.

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Sidney Yip

Nem todo mundo está convencido do aquecimento global. Qual deve ser o papel dos cientistas? A ciência tem de ser objetiva. Aqui nos Estados Unidos, temos visto uma grande polarização em torno desse tema. Mesmo as pessoas que acreditam no aquecimento global são radicais e não confiam em ninguém que não concorda com eles. Nós, cientistas, precisamos nos afastar disso e ser mais objetivos. Sabendo que nem todo mundo vai concordar com a gente, temos que buscar um acordo. Afinal de contas, dividimos o mesmo planeta. Eu acredito que os mais jovens são mais abertos ao diálogo. Essa é minha esperança. Precisamos esperar uma mudança de geração. Os mais novos saberão governar o mundo de modo melhor. Sou otimista. Acho que vamos encontrar o caminho certo.

Quais são os principais desafios? Temos três grandes desafios pela frente: mostrar ao mundo que o aquecimento é um problema real, definir a dimensão desse problema e procurar as soluções.

Os cientistas vão conseguir salvar o mundo? Sozinhos, nunca. Não podemos tentar inventar as novas tecnologias sustentáveis sozinhos. Devemos ir atrás das pessoas que já estão pensando nisso e agir em colaboração. Temos que ir atrás da indústria, por exemplo, e ver quais avanços eles podem fazer e quais não podem. Nossa missão é ajudá-los a fazer o que não podem.

Sustentabilidade custa caro e normalmente os retornos não são imediatos. Mesmo assim, há bastante apoio da indústria aos projetos do MIT Energy Initiative. Como conseguiram? Foi a indústria que veio atrás de nós. Éramos apenas cientistas. Frequentávamos conferências e conversávamos apenas uns com os outros. Em 2009, a indústria veio até o MIT. Pode ter sido um momento histórico único – ela não veio antes e não sei se virá de novo. O que aconteceu nessa época é que a indústria se tornou consciente de que havia um problema por conta das emissões de CO2. Eles perceberam que haveria um debate mundial sobre o tema e quiseram uma opinião objetiva para essa discussão. Acabaram escolhendo o MIT porque pensaram que tínhamos visibilidade e credibilidade. Um exemplo é a indústria do cimento. Eles vieram até nós e mostraram seus problemas, mas não nos disseram qual deveria ser a conclusão de nossos estudos.

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E qual é o problema com o cimento? O cimento é um dos materiais mais usados no mundo, mas não entendemos direito como ele funciona. Ele é usado há mais de 2.000 anos, desde o Império Romano, mas não fazemos ideia de como ele age na escala microscópica. Tudo que aprendemos foi por tentativa e erro. O problema é que descobrimos que ele é um grande poluidor. A fabricação do cimento é responsável por até 5% das emissões humanas de CO2. Com a crescente preocupação com o meio ambiente, a indústria do cimento começou a levar essa questão mais a sério.

Como entender o funcionamento do cimento pode ajudar a conter o aquecimento do planeta? De fato, os problemas com os quais a sociedade se preocupa não estão na escala micro, mas na escala macro. Como seres humanos nós vivemos em cidades, habitamos a escala macro. Mas para controlar os materiais, para fazê-los funcionar do modo que queremos, temos que entender seu funcionamento no nível molecular. É aí que mora a ciência. No entanto, temos visto uma enorme dificuldade em passar o conhecimento entre essas escalas. O micro não é capaz de controlar o macro, e o macro não é capaz de controlar o micro. Os cientistas estudam os dois lados dessa questão, mas não se comunicam. Alguns engenheiros constroem pontes e túneis. Outros trabalham com nanotecnologias. Precisamos de engenheiros capazes de juntar esses dois grupos.

E como isso se dá com o cimento? No começo, ele endurece de modo rápido, mas depois se estabiliza numa massa com a consistência parecida com a pasta de dente. E fica assim por um bom tempo. Depois, num período que costuma durar horas, ele vira pedra. Se entendermos como esse processo se dá na escala micro, podemos entender essa curva e mudar nossa produção de cimento, para um material mais eficaz. Podemos desenvolver um cimento que precise de menos calor em sua fabricação e não cause tanta poluição.

Existem duas visões sobre a relação entre a tecnologia e o aquecimento global. Um lado pensa que a tecnologia é culpada pelo aquecimento, e o outro pensa que só ela pode nos salvar disso. Em qual deles o senhor está? Acredito nos dois lados. Nós queimamos muito carvão, emitimos muito CO2 para a atmosfera. Isso é consequência direta da nossa industrialização. Mas não é por que aqui nos Estados Unidos nós atingimos um alto padrão de vida que podemos ditar ao resto do mundo que eles não podem chegar a esse padrão. Índia e China querem mais energia. Temos de buscar novas soluções, e é aí que os cientistas entram.

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O senhor parece ver na energia nuclear uma dessas soluções. O que o leva a pensar que ela pode ser a energia do futuro? Eu sou um otimista. Nos anos anteriores ao acidente em Fukushima, os cientistas foram pouco cuidadosos. Mas ainda acredito que seremos capazes de fazer a energia nuclear razoavelmente segura e confiável. Será preciso convencer novamente o público. Isso levará algum tempo. Mas se continuarmos fazendo um bom trabalho, as pessoas voltarão a confiar em nós. Minha expectativa é que a sociedade irá aprender que a nuclear pode ser segura.

E como fazer essa mudança na opinião pública? A gente deve entender que não há nada misterioso na energia nuclear. Nós compreendemos perfeitamente como ela funciona. Nós podemos tornar a energia nuclear mais tolerável, saudável e sustentável. Não podemos deixar que as falhas do passado impeçam os sucessos do futuro.

O que o senhor diria para uma criança que está escolhendo sua carreira e quer ajudar a salvar o planeta? Ela deveria se tornar um ambientalista, um político ou um cientista? Eu sou uma pessoa que acredita no poder da ciência. Acho que podemos ajudar muito. Você pode até se tornar um político depois de virar cientista. Mas o inverso não acontece. O que eu digo para os pais: se você tiver um filho muito talentoso, faça tudo para torná-lo um bom cientista. Depois disso, ele poderá fazer o que quiser.

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