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O pecado da carne, segundo Jonathan Safran Foer

Em entrevista ao site de VEJA, o premiado escritor americano conta por que decidiu se aventurar pela não-ficção com Comer Animais, um libelo contra a produção industrializada de carne

São três horas da manhã. Do lado de fora de uma fazenda de criação intensiva de aves na Califórnia, o escritor Jonathan Safran Foer checa sua mochila. Lanterna de filtro vermelho, garrafa d’água, câmera de vídeo e uma cópia do código penal do estado. Vinte minutos mais tarde, ele está dentro de um barracão com 25.000 pintinhos aos seus pés. Alguns estão deformados, outros estão mortos. Muitos estão cobertos de sangue ou feridas e se amontoam como “pequenas pilhas de folhas secas”. O autor do premiado romance Tudo se Ilumina registra a cena com sua câmera. Está ali para isso: documentar a maneira como é produzida a carne que comemos. O resultado é seu primeiro livro de não-ficção, Comer Animais (clique para ler o primeiro capítulo), mistura de ensaio, reportagem e memórias que acaba de chegar ao Brasil (editora Rocco, 320 páginas, 41,50 reais).

Foer estreou na literatura em 2002, com Tudo se Ilumina, que lhe valeu os prêmios National Jewish Book e o Guardian First Book e foi adaptado para o cinema com o ator Elijah Wood, o Frodo de O Senhor dos Anéis, no papel principal. Em 2005, voltou a ganhar os aplausos da crítica com Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, que narra a história de um garoto de nove anos que tenta superar a morte do pai, vítima dos atentados de 11 de setembro de 2001.

No entanto, nenhuma das premiadas obras demandou tanto trabalho como Comer Animais, concebido após o nascimento de seu primeiro filho, em 2006. Durante três anos, Foer revirou documentos, perscrutou estatísticas sobre o assunto – e invadiu fazendas na calada da noite. “Eu apenas queria saber – por mim mesmo e pela minha família – o que é a carne.” Foer decidiu deixar de comer carne. E escreveu o livro para tentar convencer os outros a fazer o mesmo. A pregação de Comer Animais é conhecida. Mas Foer consegue embrulhá-la num rico e fluente ensaísmo capaz de envolver o leitor qualquer que seja sua dieta. Leia a seguir trechos da entrevista concedida ao site de VEJA.

Por que ser vegetariano? Não é uma questão filosófica, de certo ou errado. Eu não quero comer carne nas condições em que ela é produzida. Agora, se nós vivêssemos em um mundo perfeito, com fazendas de criação pequenas e com animais bem tratados, provavelmente eu pensaria diferente.

Como foi a invasão de uma fazenda de criação de aves? Fiquei enojado. O que me chocou foi a crueldade. Que as gaiolas são pequenas, e o abate é violento, isso a maioria das pessoas já sabe. Mas eu nunca tinha ouvido falar em privação de comida e de luz. Depois disso, nunca mais quis comer um ovo convencional. É possível conseguir informação na internet sobre como essas fazendas são por dentro. Mas estar lá você mesmo é uma experiência muito diferente. Há uma grande diferença entre olhar para uma foto e tirá-la.

Divulgação

Comer Animais

Comer Animais (/)

As fazendas de criação animal são necessariamente cruéis? A crueldade não é acidental. É um método de trabalho, é o fruto de uma escolha. Nos Estados Unidos existe uma empresa chamada Smithfield, que teve 7.000 notificações por violações do meio ambiente. Se fossem 10, nós diríamos que não é algo muito bom. Se fossem 100, diríamos que a empresa precisa ser acompanhada de perto. Mas 7.000 é um modelo de negócio. Eles fazem isso com um propósito claro e estabelecido, isso não é um acidente.

Qual é a alternativa? Não vemos hoje alternativas a esse sistema. A escala de produção é incrível. Cerca de 99% dos animais dos Estados Unidos vêm de fazendas de criação intensiva. Na Europa, o número é de 94% ou 95%. O método se espalha de maneira muito rápida pelo mundo.

Existe uma maneira ética de matar um animal? Para criar animais de maneira ética, eles precisam de espaço. Eles precisam da grama e de comida digerida naturalmente. Uma fazenda é capaz de proporcionar tudo isso? Claro que sim. Pode um sistema industrial fazer isso? Acho que não.

Fiscalizar as fazendas de criação intensiva é de responsabilidade de quem? O governo deveria ter a responsabilidade principal, mas já demonstrou que neste caso não tem interesse algum em agir. Então, a responsabilidade acaba sendo passada para nós. Mas policiar a criação desses animais demanda tempo e energia que a maioria das pessoas não tem. Eu não tenho, então prefiro optar por outras coisas para comer.

O senhor disse em entrevista que parar de comer carne pode ser uma solução para acabar com a fome mundial. Como? Um animal consome de 6 a 26 calorias para cada caloria que ele devolve quando abatido. É uma maneira ineficiente de produzir comida. Nós damos soja aos animais criados em fazenda, que são alimentos que eles não digerem naturalmente e que humanos podem comer. Portanto, cada vez que você come carne está desperdiçando de 6 a 26 refeições. Nós estamos muito acostumados a pagar pouco pela carne. Hoje, paga-se muito menos do que qualquer outra geração anterior à nossa pagou. Mas o fato é que não estamos pagando o preço real.

Pedir para o mundo parar de comer carne não é um tanto radical? Sim, concordo. Acho que a resposta mais correta seria: deve-se comer menos carne. Não há chance alguma de que metade do mundo vire vegetariana em dez anos. Mas eu realmente acredito que existe uma chance de que metade das refeições consumidas seja vegetariana e, claro, isso teria o mesmo efeito. Esse deveria ser o nosso objetivo. Isso deveria ser colocado em termos de escolha de estilo de vida, e não uma oposição entre vegetarianos e não-vegetarianos.