O controle das emoções

Trabalhando com ratos, cientistas desenvolvem técnica para manipular lembranças — positivas e negativas. Será possível fazer o mesmo com seres humanos?

Por André Lopes - Atualizado em 17 jul 2019, 18h01 - Publicado em 31 maio 2019, 07h00

 Arte/VEJA

“Abre os vidros de loção / e abafa / o insuportável mau cheiro da memória”, diz o poema Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Os versos, escritos pelo poeta mineiro na década de 40, parecem extraordinariamente afinados com recentes pesquisas da neurociência segundo as quais o esquecimento seria um modo encontrado pelo cérebro para se livrar do que é, no mínimo, irrelevante e, muitas vezes, traumatizante. A ideia também dá corpo ao filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), de Michel Gondry, em que o personagem Joel, interpretado por Jim Carrey, descobre um método para apagar da memória tudo o que envolvia sua ex-namorada Clementine. Ainda não se chegou a tanto, mas a ciência deu um novo passo para o que pode ser uma desconcertante conquista.

Em um artigo recém-publicado na revista americana Current Biology, cientistas da Universidade Boston revelaram que, trabalhando com camundongos, desenvolveram uma técnica inédita para mapear e controlar partes do cérebro que guardam os sentimentos ligados a lembranças boas e ruins. Utilizando ratos geneticamente modificados — para que seus neurônios reagissem a estímulos de luz —, os pesquisadores conectaram ao cérebro dos roedores pequenas fibras ópticas capazes de iluminar a região estudada. Com isso, era possível detectar a reação das células aos impulsos elétricos nas mais diferentes situações. Memórias positivas — prazerosas — foram estimuladas nos animais do sexo masculino levados a copular com suas fêmeas. Em seguida, os cientistas “gravaram” no cérebro dos camundongos lembranças negativas, ao prendê-los em gaiolas que davam choques em seus pés no momento em que um alarme era acionado. Com os ratos devidamente condicionados a um ou outro tipo de memória emotiva, foi possível rastrear em quais regiões cerebrais estavam os neurônios associados a cada modalidade de lembrança. A partir daí, os pesquisadores passaram a estimular de maneira artificial a ativação das áreas identificadas. Assim, viram que poderiam fazer com que um roedor ficasse relaxado mesmo depois de ouvir o alarme de choque. Isso porque, nesse exato momento, os cientistas acionavam a região do hipocampo responsável pela sensação de prazer (registrada na copulação).

Embora os experimentos tenham sido conduzidos em cobaias, os pesquisadores acreditam que as regiões do cérebro dos camundongos analisadas possam revelar caminhos para o progresso, por exemplo, dos tratamentos de transtornos psiquiátricos em seres humanos. “Poderemos criar medicamentos que se ligam apenas aos circuitos positivos de memórias, de forma personalizada e diferente de como fazem os antidepressivos atuais, que agem em todo o cérebro e causam efeitos colaterais adversos”, disse a VEJA o neurocientista Steve Ramirez, que liderou o estudo. A experiência, no entanto, arrasta consigo incontornáveis questões éticas sobre a aplicação da técnica em pessoas. O cérebro dos ratos foi cirurgicamente aberto e submetido a uma série de procedimentos traumáticos — impensáveis em humanos. Essa, porém, não é ainda uma preocupação de Ramirez: “Demos apenas o primeiro passo. Falta muito até que precisemos nos preocupar com pessoas apagando memórias a seu bel-prazer”.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2019, edição nº 2637

Envie sua mensagem para a seção de cartas de VEJA
Qual a sua opinião sobre o tema desta reportagem? Se deseja ter seu comentário publicado na edição semanal de VEJA, escreva para veja@abril.com.br
Publicidade